domingo, 21 de dezembro de 2008

2009




2009 nem começou e já acabou
Pra quem não cansa de achar defeitos
No perfeito imperfeito da vida

Temos 365 dias para riscar calendários
ou arriscar novos passos

Temos 365 dias para reclamar da vida
ou para aclamar a vida

Podemos andar sempre pela mesma calçada
Ou ver o que existe do outro lado da rua

Não somos totalmente livres
Podemos apenas escolher qual lado preferimos
Assim provamos que temos bom gosto
Porque andar sempre igual é chato dá tédio e faz cansar antes de começar

Estarmos 100 por cento certos é coisa para depois dos 90.

Prefiro estar redondamente enganada
Bestamente iludida
Francamente seduzida
Isto é ser mulher e estar viva

E em 2009 vai ser tudo diferente
Vou me enganar a propósito de novos livros que lerei
Estarei iludida sobre novas pessoas que conhecerei
Serei seduzida por novos projetos
E ai de quem me disser“eu bem que avisei”

Ora, pois se são os avisos que me fazem seguir!

Rumo ao abismo imaginado
Porém ainda não sobrevoado
Porque para quem sonha
Importa mais a graça da queda
Do que a perfeição da permanência

- às vezes somos mais leves que o vento

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Deuses Egípcios e Eu


Os deuses egípcios fazem duas perguntas para decidir se uma pessoa irá para o paraíso ou não. A primeira é: você já encontrou alegria? A segunda é: e você trouxe alegria para as pessoas que o cercam? Dependendo destas respostas, as portas do paraíso se abririam. Mas o que é o paraíso para cada um? Com isso, eu completei o trabalho dos deuses egípcios, porque de nada adianta um paraíso se ele não tem a nossa cara.

Quais suas três respostas?

Para mim o paraíso começa com uma música de caixinha de música, totalmente Belle Epoqué porque não sou deste tempo.

Nele encontro meu filho em todos os seus mais belos momentos, desde o instante em que nasceu, até seu primeiro sorriso sem dentes, passando por cada instante em que senti que ali estava uma pessoa com toda a profundidade que o ser pode ter.

O doce de leite de minha avó e seus bracinhos pelancudos, que me faziam feliz. Minha mãe, tranqüila, como em raros momentos a vi, minha tia, ainda vaidosa. Meu tio ouvindo no radinho de pilha os jogos de futebol.

Meu passeio de barco na Holanda com minha amiga Manita. Minha cachorrinha Rita. O cheiro de jasmim. Eu quando criança, ainda acreditando que tudo é possível. A chuva e a terra molhada. Matar aula para ir à praia. Dançar no salão do Parque Lage Sonhos de Uma Noite de Verão. Cantar no Maracanazinho para uma multidão. O show do Gil no Circo Voador.

O primeiro beijo, o pão da padaria debaixo do braço, o moço amigo da minha prima mais velha. Menstruar no dia seguinte pela primeira vez. Cantar na porta da igreja em Ouro Preto. Namorar o francês em Ouro Preto. O canadense no Peru. O holandês no canal. O fotógrafo em Ilha Bela. O bêbado em Cunha. O artista plástico na ladeira. O jornalista em Santa Tereza. A minissaia de couro preto e nossas aventuras.

Ouvir o pai do meu filho tocando uma canção feita para mim. Namorar na lua cheia de Buda em Alegria. Conceber uma vida inteira à luz de velas e ao som de violões, corujas, sapos e grilos no quintal. Caminhar nos jardins de Versailles com ele e as flores. O friozinho dos Alpes. Nós sempre juntos, na lua cheia sobre Callal.

Muitos meninos e meninas na sala, risos e jogos. Os amigos por perto, celebração.

Sim, encontrei alegrias. Sim, trouxe alegrias para os que me cercam. Nasci para viver no paraíso.

domingo, 23 de novembro de 2008

Tamagoshi, O Blog


Se não dá comida, o bicho evapora... Então, deixa-se de viver para escrever, ou se vive escrevendo? Porque ou bem vou à praia, ou bem venho pro computador. Computar a dor. Porque existir sempre dói, de um jeito ou de outro. Dói até quando se ri. Porque rir é muitas vezes apenas outro jeito de não chorar ou mesmo de chorar de forma tão camuflada que se dá muitas gargalhadas.

Tenho um sonho. Mal vejo seus contornos. É um sonho de ser total. Como o da flor que com a borboleta faz laço de fita, como ser chuva, uma menina molhada que desobedece a mãe e não sai da rua, a brincar.

Quero que teus olhos não persigam minhas letras. Olhe lá fora, vê a luz? Ouve a vida? Sinta esse cheiro de vivo. Tudo o que é vivo respira e tem cheiro. Mesmo que seja entre esgoto e detritos, havemos de conseguir pintar uma aquarela e fazer beleza que resista. O verso verdadeiramente livre nunca foi escrito, está nas bocas a passear suas lonjuras.

Quero cantar, romper limites entre a canção e o cantor, dissolver o bom senso, que só vê quando não escuta palavra alguma. Quero ir lá, onde ninguém está, só eu. Cada um persegue a si mesmo do jeito como mais lhe apraz, eu sei muito bem que as leis foram feitas para serem burladas tal como os muros para serem pulados.

Ser a pedra que rola, ser quem canta e dá a luz. Explodir em mil letras e deixar que o meu sentido seja em vez de explicação, sensação. Em vez de direção, ação completa. Arte é pra isto: perder-nos de tal forma que no fim, encontremos este nada tão precioso que, no entanto fazemos questão de perder todos os dias.

Eis que viver é disto mesmo que se trata. Não sei responder tuas perguntas. Sei ser minhas respostas. Nada além.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Oração Anti-Caretice


Ai que me dá alergia toda essa caretice...

Posso não saber o que quero, mas sei direitinho o que não quero.

Não quero nem a menor nem mais remota proximidade com quem acha elegante o tailleur bege, que faz questão de ter conjunto de sapato e bolsa, que o comprimento da saia ou do cabelo tem de ser de acordo com a idade da pessoa.

Tenha santa paciência. Meu desejo é meu, antes de tudo e sobre tudo. Não uso calcinha todos os dias. E não to nem aí pro fato de se isso é de acordo ou não com a minha idade ou posição social.

Já passei da idade de carregar bandeiras e todo mundo já entendeu que sou uma metamorfose ambulante, além de defensora de putas e rebeldes sem calças. Nem por isso, quedei-me plácida na poltrona da memória assistindo filminho atrás de filminho.

Meu filme faço-o eu mesma. Minha novela é igualmente a minha, a que eu faço, e nela sou a vilã e a mocinha.

Quando nada tenho a dizer, arranco minha língua da boca e a mostro para os visitantes. De mãos abanando ninguém sai da minha casa. E minha casa é o mundo, os ventos são meus anfitriões.

Não, não ouço vozes. As vozes que ouço são todas minhas e se chamam poesias. Minhas alucinações eu mesma as crio.

Comigo sempre há algo acontecendo. Na pior das hipóteses, comerei pudim quando deveria estar de dieta. Porque minha terra natal é pródiga em gremlins, feras cheias de dentes e duendes de jardins.

Meu lugar? Ah, não sei qual é. Sei que pago para estar onde estou e onde estou é e para sempre será exatamente onde o sem sabor e sem humor não estiver. Chega de adiposidades mentais. As piores gorduras provêm não dos chocolates, mas de acreditar no estabelecido e nunca questionar o óbvio.

Que venham a mim as feras, os loucos, as crianças, os alucinados, os beatificados, os fora de mão. E que de mim fujam os chatos, amém.

Certamente, de nada adianta ser tão despachado sexualmente e tão bitolado no restante da vida.

Certamente, não vale nada a liberdade quando apenas para se seguir os caminhos que outros já fizeram.

A única coisa que realmente vale, em se tratando de vida, é criar e apostar vivendo. Que me esquartejem os desejos e me esculhambem os cupins. Eu posso.

Se estiver sozinha, mas me mantiver bravia, a vida ainda assim, fará sentido. Não é a companhia o que me falta. O que me falta é a paciência pra lidar com tanta mediocridade. O que me falta é saco pra aturar tanta falta de imaginação.

Falta-me amor? Não, amor não me falta. Falta é um pouco dessa matéria que faz explosões e revoluções. Falta é um pouco de calor. Calor eu faço quando me movimento. Em suma, posso perfeitamente estar só. Contanto que ardente.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Felicidade Que Coisa Mais Esquisita




Que dia esquisito... Não precisou que o céu estivesse verde. Não estava. Estava nublado. O passarinho que mora no meu ar-condicionado, chatinho ele, me acordou como sempre fazendo aquilo que ele sabe fazer muito direitinho: cantar.

Acordei. Ainda doendo o ombro, dei um jeito anteontem. Tomei banho. Passei a limpo umas coisas. Saí atrasada, como sempre, talvez um pouco mais atrasada que o habitual, para minha psicoterapia.

Pedi pra ir pela Belizário, pegar a Mundo Novo, só pra ter aquele gostinho de Pão de Açúcar, nossa belezura. Trânsito fluindo, mesmo em Botafogo. Cheguei, roubei um cream-cracker, pensei em pegar um cafezinho, achei abuso, fui logo subindo a escada. Tirei os sapatos. Entrei. Sentei entre as almofadas.

Nunca penso antes de chegar à sessão sobre o que irei falar. Deixo que a coisa role bem no estilo associação livre. Coisa que sempre fiz, muito antes de ler Freud. Repassei a semana na cabeça.

Caraca aconteceram coisas, passaram e eis que simplesmente não tinha um único problema pra contar pra minha psicanalista.

Que direito tenho eu de estar aqui, confortável entre as almofadas, tomando a hora da minha terapeuta, sem um único probleminha besta pra contar?

Apelei. Falei da recuperação no 3º trimestre do meu filho. Mas foi apelação, reconheço. Pra ele não está sendo um problema. Então, eu inventei um problema pra me sentir menos mal de estar ocupando o lugar dos infelizes, desesperados, angustiados que bate naquele sagrado recinto todo instante. Falei da recuperação e fiquei tentando me lembrar de alguma coisa bem cabeluda pra contar pra psi. Nada. Vasta e inenarrável falta de problemática.

Logicamente, com a minha infinita capacidade de encher espaços com lingüiças metafísicas, acabei arrumando assunto pra aqueles 50 minutos. Mas se tivesse ficado calada, teria dado mais ou menos no mesmo. O único e derradeiro fato sobre este dia, esta semana, quiçá este mês, é que estou inapelavelmente feliz.

Todas as coisas que sempre sonhei, fiz. Parece estranho, mas é verdade. Só me dei conta hoje. Queria fazer discos, fiz CDs. 3. Queria escrever livros, escrevi, 3 também, partindo pro 4. Queria ser famosa, fiquei, tá lá no Google, quem não acredita, experimente digitar Cynthia Dorneles pra ver se não aparece. Aparece. Montes de páginas. Queria ter filho, tive. Um. Queria ter cachorro, tive. Um. Queria morar na General Glicério, moro. Fiz tudo.

E agora faço o quê? To jovem demais pra bater as botas. Tenho de inventar algum novo sonho? Reclamar de defeitos minimalistas que a vida não me trouxe estilo jamais fui à Jamaica? Preparar-me pra desencarnar? Tentar alcançar o Nirvana em sete semanas? Emagrecer 10 quilos até dezembro? Qual meta será suficientemente impossível pra me garantir ao menos uns três anos de psicanálise?

Ah, como é gostoso andar pelas ruas poluídas do Rio de Janeiro quando se sabe que há dinheiro na carteira pra tomar um taxi, se tiver vontade. Ah, como é gostoso dormir sozinha quando se sabe que arrumar companhia é só uma questão de telefonar. Ah, como é gostoso comer só um mamãozinho quando se sabe que a geladeira está cheia. Até a dorzinha no ombro não é lá grandes coisas. Dá um sabor à quinta feira.

Hoje vou ouvir samba na Urca. Aos pés do nosso cartão postal, em excelente companhia. Sinceramente, se reclamar? É porque sou uma chata. Chata redonda, a pior espécie de chatos. Abaixo às calcinhas e viva o beijo na boca. A vida é mais que bela. A vida é surpreendente. Reclamar só quando houver motivos. Este é meu lema. Sou louca? De pedra. Vontade das pedras de cair.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Por Que Não?


Por que não aparece um político tendo como plataforma celebrar todos os dias? Por que não é decretado que se deve, a partir de hoje, abraçar ao vizinho, ajudar os idosos, brincar com as crianças, dar alento aos doentes? Por que não se torna uma lei federal o direito ao pão e a alegria a cada dia?

Quero viver num país onde ninguém seja tão pobre a ponto de não ter dignidade ou tão rico a ponto de não ter fome de amor. Quero um país onde a escola, além de ensinar as matérias úteis à vida prática, ensine a gentileza, o cuidado de si e a perfeita noção de que somos parte de um todo e que ninguém será feliz enquanto todos não puderem ser felizes.

De que me adianta ler tantos livros se há quem nem saiba ler? De que me adianta ter tanta coisa se há quem abandonado a própria sorte, sem saúde nem esperança, não tenha nem um nada para se agarrar no momento de dor?

É preciso, urgentemente, que possamos acreditar que cada um faz diferença e que juntos podemos construir um mundo melhor. É preciso tomar as rédeas da própria vida e das próprias responsabilidades. Não desanimar frente aos obstáculos, mas principalmente, preferir agir a reclamar, preferir dar soluções a criticar, e preferir criticar a se acomodar.

Precisamos de uma injeção de coragem, mas principalmente, precisamos de uma injeção de civilidade e consciência de que hoje, somos muitos milhões de homens e mulheres, vivendo excessivamente próximos uns dos outros- de uma forma assim, tão extrema de proximidade- que acabamos por criar distâncias intransponíveis. Entre meu credo e o seu. Entre minhas coisas e as suas. Entre minha gente e a sua.

Precisamos nos unir. Não nos juntar. Juntos, já estamos. Só falta termos a consciência de que eis aí, um fato definitivo: vivemos amontoados, uns sobre as cabeças e os corpos dos outros.

Vivemos amontoados e sem termos mais a menor idéia de como funcionam os motores que nos levam para cima e para baixo ou como podemos cuidar de nós, sem precisarmos entregar nossa vida aos especialistas disso e daquilo.

Quero viver num lugar onde cada um busque saber mais e melhor sobre si, sobre o mundo e ninguém faça de conta que não é consigo esse papo de ter responsabilidade social.

Todas as fronteiras desaparecem quando surge o caos. É o Estado que é chamado a intervir quando o mercado enlouquece e quebra. Sabendo disso, é hora de nos tornarmos mais humanos e mais amorosos. Amor, este sentimento que cria pontes e faz novos entendimentos.

domingo, 19 de outubro de 2008

Definições Indefinidas de Sexo, Paixão e Amor num domingo de chuva


Sexo: é aquele negócio que temos entre as pernas. Há os pênis e as vaginas, popularmente conhecidos como pintos e xotas. Estes dois (pinto+xota) ao se encontrarem em alguns dias específicos do mês costumam resultar em lindos bebezinhos, que choram muito até uns 3 anos de idade. O Sr.Pinto funciona na base da estimulação visual+fricção científica. A Sra.Xota é encaracolada, invariavelmente imprevisível e pode vir no modelo 1.0 ou luxo- o luxo tem orgasmos múltiplos, que são ocasionados por variantes entre linguadas nos grilos (cessam todos os problemas femininos dessa forma, é garantido ou seu $ de volta), dedilhadas no violão e festinhas no parque.

Paixão: sentimento incandescente cuja origem ninguém sabe exatamente qual é. Pode ser provocado pela beleza física, mas igualmente pelo brilho da inteligência ou humor. Origem da palavra vem de pathos que significa doença. A paixão nos deixa obcecados, verdadeiros Ideiafix, o cachorrinho do Asterix. A paixão é o tesão elevado a milionésima potência. Mas a paixão também inspira lindas poesias, mudanças de atitude e muitas outras coisas cujo resultado é extremamente positivo. Por isso mesmo, apesar de ser escravizante e obsedante, a paixão é desejável. Porém, seja como for, paixão dá e passa.


Amor: sentimento delicado, afetuoso, enternecido, que inclui tesão e vontade de criar e viver coisas juntos. É um sentimento que constrói, que traz bem estar, alegria, tranquilidade. Apesar de forte, não deixa ninguém com cara de Ideixafix e podemos fazer outras coisas na vida além de amar nossos amados. O amor é primo em primeiro grau da amizade, do respeito, da solidariedade, da cumplicidade e é fruto do conhecimento: quanto mais se conhece alguém, se há amor, mais se ama este alguém. Amor pode mudar em suas formas. Ora quente, tesudo, ora morninho, gostosinho, ora frio e distante- seja como for, o amor não passa. Você pode largar o parceiro(a), mas se o(a) amar , amará para todo o sempre, ou melhor, enquanto viver, pois o amor é um sentimento dos vivos para os vivos.


A paixão pode tornar infeliz. Mas o amor? Jamais. O amor sempre deseja o bem estar e a felicidade do outro, seja lá como for, comigo ou sem migo. This is love. All you need is love.


É o amor, não a paixão quem remove montanhas.


nos tempos modernos
Onde as pessoas nem sequer se dão tempo para desejarem profundamente nada, a tendência é estes sentimentos (amor e paixão) desaparecerem para deixarem quando muito o objetivo sexo. Na contemporaneidade, não se deseja. Se tem impulsos. Trepa-se com o outro como quem compra uma roupinha no shopping. Como tanto a paixão quanto o amor precisam de um mínimo de tempo para terem sua gestação, o futuro é só sexo puro.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

O Professor de Italiano e a Dança


Outro dia conheci o homem da minha vida. Hoje também conheci o homem da minha vida. Acontece que tenho muitas vidas e, portanto, há muitos homens que seriam os homens da minha vida.

Aquele eu conheci numa loja de sucos. Tinha um rosto lindo. Era professor de italiano. Como descobri? Conversando com ele. E se ele for casado? Ele foi o homem da minha vida quando era solteiro. Mas como pode ter sido o homem da minha vida se eu ainda nem o conhecia? Não importa. Ele era o homem daquele trecho da minha vida, que como tudo o mais, está e estará sempre inacabado.

Hoje conheci outro. Era alto, forte, parecia protetor. Dancei com ele. Nós nos abraçamos, e em cinco minutos tínhamos uma intimidade de muitos anos. Foi assim que descobri que ele era o homem da minha vida- de hoje.

Minha vida de hoje foi assim: começou num dia de sol e terminou com música nos braços de um homem a quem não beijei nem namorei, mas sei. Sei de cor os dedos, a textura da pele, a temperatura da mão direita deste homem. Nada sei sobre a esquerda. Mas a mão esquerda deste homem já faz parte de uma vida que não é a minha. Sei que este homem, com quem tive um momento pleno, era o homem da minha vida de hoje.

Assim adormeci e sonhei árvores e serpentes.

Como sei que sonharei árvores e serpentes se ainda não dormi? Porque meu sonho é meu desejo. E meu desejo é pela frondosa árvore onde aos seus pés, depositarei uma maçã madura e fresca.

Amanhã será um dia dourado.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Maledetto Il Giorno Che T´ho Incontrato


Camilla, Bibila para os íntimos, era uma mulher muito alegre, mas infinitamente solitária. Tinha um rosto bonito, uma inteligência vivaz, não dependia de ninguém financeiramente, mas era gordinha e extremamente ingênua.

Camilla era descendente de uma família de italianos sanguíneos e contava-se que seu bisavô tinha cinco famílias de cinco mulheres- ninguém sabia quem eram estas mulheres nem quem seriam estes filhos, mas eram dadas como fato estas cinco famílias. Também era fato indiscutível que o fabuloso Senhor Giuseppe, hoje um pacato e redondo avozinho na juventude cometera um assassinato na Itália e que veio para o Brasil fugido.

Camilla era uma moça até bastante esperta, pois com o pouco recurso que tinha, amealhara um patrimônio razoável que a deixava com o tempo totalmente livre. Tempo livre e muito romantismo era a perdição de Bibila, diziam os amigos preocupados com a sanidade mental da moça que no momento encontrava-se envolvida de corpo e alma numa infinita [i]foda retórica[/i] constituída por uma relação com um homem que ninguém conhecia.

Para acompanhar o trajeto daquela neta meio desmiolada, Giuseppe fizera um curso de computadores para idosos e comprara um para uso próprio. Arrependera-se, pois Camilla agora quando ia visitá-lo mal comia e sentava-se na frente da máquina por horas e horas a fio.

Ás vezes vinha de lá com olhos vermelhos e os irmãos e as tias percebiam que a alegre Bibila estivera chorando. A mãe de Camilla estava sempre ocupada com os netos, filhos da irmã e do irmão de Camilla, já casados, separados e recasados. A avó, a docíssima Senhora Paloma falecera no ano retrasado. Giuseppe sentia-se responsável por aquela alminha eternamente desgarrada do corpo de sua neta, que já nem mais mocinha era.

- Estou apaixonada, vovô.
- Que está apaixonada já se vê porque todas as paixões costumam ter como resultado este passamento das almas em relação aos seus corpos. Já fui apaixonado por sua avó, pelo meu país e pelo meu trabalho. Dava no mesmo. Agora, quem é este homem que lhe tira o sossego, menina?
- Não sou mais menina, já tenho 39 anos. Ele é o homem mais fabuloso do mundo, o mais inteligente, o mais gentil e o principal: ele me ama, vovô.

O avô fez silêncio por um tempo. Como era parecida com Paloma esta sua neta. O mesmo ar sonhador, o mesmo sorriso, o mesmo cabelo cacheado e aquela mesma ingenuidade, que muitas vezes era confundida com estupidez. Não era estupidez, embora a própria Paloma dissesse de si que era uma tonta, uma parva, uma pateta.

- Quem é este homem, detentor de tantas qualidades? O que faz ele?
- Não sei ao certo. Ele faz um monte de coisas. Dá consultorias de economia, suporte de computadores e já fez cinema nos anos 80.
- Como ele consegue fazer tantas coisas... Deve ser mesmo um homem formidável. Qual o sobrenome dele?

Ernesto era um homem de cinqüenta e poucos anos, mas parecia sessenta. Barriga proeminente, pele cinzenta, olheiras, lábios carnudos- talvez tenha sido algum dia um homem bonito, mas sua beleza foi soterrada por uma vida obviamente sedentária. Mas não era a aparência física de Ernesto o seu pior defeito.

Ernesto tinha uma visão de si mesmo particular: apesar de ser um pobre diabo, via-se como um homem muito bem sucedido. Apesar de feio, via-se como lindo. E apesar de apenas inteligente, achava-se genial. Acreditava tanto nisso que fazia a todos crerem na lenda que ele criava, aproximando-se de muitas mulheres e seduzindo-as e aos homens, adulando.

Mentia de forma a jamais ser flagrado e mentia muito. Mentia de tal forma que todos a sua volta, até ele próprio, acreditavam nas mentiras que contava. Estudara leis, política e estratégia. Era um hábil sobrevivente das armadilhas de uma selva que ele próprio arranjava para viver.

Casado pela segunda vez, um filho já grande do primeiro casamento e filhos pequenos deste segundo. Traiu suas mulheres, mentia ser solteiro para as amantes e quando flagrado em alguma, mentia a todas saindo sempre ileso: mulheres antes de tudo são mães e protegiam-no, como mães protegem seus filhos, como mulheres fecham os olhos aos erros de seus homens.

Sua desculpa vinha na ponta da língua: esta mulher me persegue, é uma louca, tenho nojo dela. E dava certo, até porque o tipo de mulher que ele abordava era sempre a Patinha Feia, a mulher mais insegura, mais rejeitável. Óbvio que se abordasse um avião, a desculpa não colaria. Mas, abordando as mais velhas ou as mais feias, eis que sempre dava certo.

Dizia-se solteiro e que queria amar, namorar, relações sérias.

Para conseguir driblar as pretendentes, sempre muitas, simplesmente criava uma série de obstáculos para que as relações chegassem a bom termo.

Era dado a estranhas zangas sem razão ou inexplicáveis acessos de uma peculiar paranóia que do mesmo jeito que vinha, sumia na hora que convinha. Sentia-se perseguido ou dava um jeito de se dizer vítima de fofocas terríveis que a pobre mulher da vez houvesse feito.

Não havia fofoca, não havia motivo pra fúria.

O que de fato havia era uma esposa e, por ser já casado, não poder casar com duas. Ou três. Ou quatro.

Ernesto era voraz. Se pudesse, casaria com todas para poder trair a todas.

Com Bibila não foi diferente. Ele a enlouquecia e sabia manejar muito bem todos os humores da moça. Como de costume, não avisou que era casado.

Camilla, muito naturalmente, ligava, mandava torpedos, procurava. E um dia, a esposa de Ernesto flagrou um destes torpedos e principiou uma verdadeira investigação sobre quem era esta mulher.

Camilla Brachetti um dia foi encontrada assassinada a tiros. Ninguém sabe quem foi. Ernesto continua por aí e o seu casamento vai bem, como sempre.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

O Incrível Sex Appeal das Paredes


Cenário: uma boate chamada Crepúsculo de Cubatão, toda preta, no posto 6 de Copacabana, exatamente no point mais quente da cidade no meio dos anos 80.

Uma Cynthia de meias arrastão rasgadas, brinquinho de rã pendurado na orelha, dança ao som de um grupo irlandês ainda desconhecido o U2 e Titãs em começo de carreira.

O Crepúsculo era massa e mesmo uma mulher com peitos como eu adorava fazer de conta uma androginia cem por cento inexistente. A boa era ser andrógino então éramos todos andróginos. Andávamos de preto, cortávamos os cabelos espetados e fomos provavelmente os inspiradores dos darks.

Havia esse costume: a gente ia dançar, mas ninguém dançava com ninguém. Todos dançavam com as paredes. Tive um verdadeiro caso de amor com a parede do canto esquerdo do Crepúsculo. Já sabia de cor todos os buraquinhos que ela tinha.

De tanto dançar com ela, a Dona Parede, um dia ela me lançou uma cantada. Uma cantada descarada, pior do que todas as cantadas que já levei ou dei. Ela sussurrou no meu ouvido “você é um mulherão, larga desses baitolinhas dos seus amiguinhos e chega mais, vem aqui, esfrega esse teu pernão e rasga de vez essa meia arrastão. Vem ser a Madonna da minha existência no filme que ela só fará no futuro, na cama com.”

Fiquei sem fôlego. A parede estava requebrando toda nua para mim. Reta como uma parede, ostentava suas exatidões de uma forma inegavelmente lasciva. A parede me cercava, pela frente e por trás, eu não tinha como escapar aquele abraço frio e cheirando a tinta e gesso.

A parede safada pegou no meu peito, sim, aquilo tinha sido uma pegada tipicamente paredal. Só tinha bebido cerveja, não tinha fumado, portanto, era inexplicável aquela estranha conformação retilínea levantando minha saia de couro preta.

Qual o sexo da parede? Desconfiei que era feminino porque ela era cheia de buracos. Mas como era dura feito um cara de tudo duro, poderia também ser um homem. A parede era sexual, basta dizer isso. E quando vi, estava sendo apalpada no lustre.

Gozei vendo o mundo de cabeça pra baixo. Desde então peguei o hábito de abraçar paredes e das paredes passei pras árvores e das árvores para o universo inteiro, animal, vegetal e mineral. Só quem me entende mesmo é Schoppenhauer que fala da vontade das coisas. Não contem pro meu namorado, mas ontem mesmo eu vi: a poltrona do cinema bem que deu uma encoxadinha em mim.

Frio Quente


Não sei o que me deu

se foi um frio

ou se me transformei num rio

sei que não consigo ver nada

que não me lembre sexo

tenho tesão em navios

porque são grandes

tenho tesão em pavios

porque são cônicos


Meu tesão senhores e senhoras

é crônico

Por favor me dêem uma atenção

ou uma chuva de picas

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Mulher Em Si bemol


Nas palavras me refugio como o sonhador vai para a ponte olhar os peixes, as aves, as montanhas e às árvores.

As palavras são o que me liga ao outro, mas o outro a quem me ligo é um sonho, o brilho do meu anel.

Quando escrevo sou uma mulher de uma substância entre o diamante e a nuvem. A mulher para qual fui destinada, mas que por desatino e no desalinho das linhas da minha vida, não realizo.

A parede de pedras. Tento colocar as letras numa outra ordem e nem por isso cai a parede de pedras. A parede de pedras me antecede. Com adjetivos ou sem, segue até sem substantivos. Hoje, uma livraria, ontem e amanhã, quem sabe? Queria ser esta parede e seguir sendo parede de pedra, mesmo que mudassem minhas letras de ordem ou me tirassem todos os verbos e adjetivos. Sendo mulher, qualquer desvio é sempre fatal. Uma mulher desviada ainda é um perigo na estrada onde passa o boi e a boiada.

Por acaso alguém já te contou que estou separada?

Separada do quê, indagas.

Separada dele.

Que ele?


O ele que me dá passaporte para ser quem sou.

Te paga as contas?

Não. Paga a vida com a própria vida. Chama-se amor. É dele que estou apartada. Ele mora perto de mim, mas algumas ruas muitas vezes se tornam infinitos quando os passos estão descalços.

Passo a vida totalmente nua, pés descalços. Perigo pegar uma gripe. É sempre perigoso viver quando a coragem nos vem depois do feito. Eis que é sempre assim: é preciso arriscar primeiro para se medir o tanto de ousadia que nos resta. Passo a vida em festa.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Tem Dias que são assim


Já tomei frontal e minha vida continuou um caos. Já tomei rivotril e quebrei todos os meus discos de vinil. Nenhum haldol cura a falta de sol que faz aqui dentro da minha tenda. Pensei que só ia viver um mês. Por azar, vivi um século. Um século passa em poucas horas. Poucas horas passam em um milênio. Um milênio não é nada. Tem dias que acordo pensando por que afinal aprendi a taboada se na hora de dividir meu amor divido sempre com a pessoa errada. Tem dias que penso em suicídio, mas isso é apenas pra rimar com ofídios. Ou edifícios. Se tivesse que hoje pular, pularia pra dentro do filme que acabei de ver. Há sempre aquele instante que você se dá conta que quando nada presta é porque você é tudo o que resta e se só resta você mesmo não importa a direção. Importa que ainda se saiba uma canção e que esta dure tempo suficiente pra você não morrer de tédio ou de raiva.

domingo, 28 de setembro de 2008

Homenagem a Clarice Lispector


O espaço aberto de uma grande sala e seu silêncio convidam para dança e para música. Se dançar sou a música, se canto danço as notas numa pauta musical.

A mãe lê para sua filha pequena Clarice Lispector. Se o analisa de Clarice lá pelas tantas não conseguiu acompanhá-la, por que uma criança o faria? A sisuda menina já é totalmente misteriosa e secreta como o espectro de Lispector.

A escuridão da sala é própria para a entrevista da escritora e perfeita para dois homens enamorados, finalmente livres para o abraço e o beijo.

Escrevemos porque queremos testemunhas dos enormes mistérios que casualmente encaramos como se nada e como se nós, fôssemos outros.

Poderia passar o dia todo entre as inúmeras gavetas da exposição. Todo dia, abriria apenas uma e me deixaria inundar pelo oceano que contém. Uma loura desenxabida me indica que tem pressa de abrir a gaveta. Para ela, nenhum oceano. A pressa de todos impede a imersão nos mares em gavetas. Falta ao público presente um pouco do peixe no aquário, prisioneiro da vida num vidro.

Tornei-me parte da exposição porque tomei de assalto um banquinho e atrapalho todos os sedentos de mais um dado de biografia da grande escritora que preferia que as letras fossem penugem de criança ou qualquer outra coisa.

Mulher de saia de bolinhas faz de conta que escreve, escrevendo uma letra após a outra até um fim de página de um caderno imaginário.

Quem precisa de imaginação havendo sempre o silêncio das bisbiliotecas e a realidade em etapas de tempo e linguagem?

A exposição do silêncio de Lispector nos convida a todos a sermos nós mesmos parte com suas letras abissais. Pois como negar que a explicação do enigma é a repetição do enigma? Por que não pensei nisso antes? Vivo tentando dar conta dos labirintos que permeiam minhas estações. Que tola fui eu até este dia? A mesma que amanhã enquanto meu ar for todo ele poesia e eu preferir sempre a declaração de amor feita por escrito, lavrada e assinada na pele, as mãos dadas em público. Ou o vento me aniquilaria com sua rota.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

saudades




Você foi embora ontem. Hoje já morro de saudades. Ligo para você para falar bobagens. Simplesmente para ouvir tua voz.

Quero saber que você respira, que você se move, que você existe. Perto de mim ou longe. [i]Nessuma cosa si puó amare nè odiarem se prima non si há congnition di quella[/i]. Não se tem o direito de amar ou odiar qualquer coisa da qual não se tenha conhecimento profundo. Você já viu meu ventre dando a luz e minhas angústias trazendo as trevas. Você realmente me ama. E eu a você, pois não há gesto teu que eu não adivinhe, nem palavra tua que eu desentenda.

Nós dois temos um tesouro que não há ladrão que roube nem nuvem que turve: nossa intimidade mais que profunda.

Mesmo que eu decidisse começar a gritar a plenos pulmões que te odeio, sei que você jamais acreditaria. Mesmo que mil demônios fossem ao seu ouvido para falar de mim, sei que você não acreditaria. Mesmo que eu mesma mudasse de tal forma que não mais me reconhecesse, você sabe mais que eu mesma o caminho do meu coração.

Somos um amor eterno. Cobiçado, invejado. Podemos foder outros corpos, até mesmo amar outras pessoas. De nós dois, nós jamais nos perderemos. Por isso, na verdade, é só a ti que pertenço. Só você me interessa.

Fazes-me uma mulher rica e feliz. Posso rir à toa. Meu coração é milionário.

Quem dera que todos um dia pudessem encontrar o amigo e amor verdadeiros como sou eu para você e você para mim. O mundo seria outro. Em vez de imitações bregas e melosas de amores alucinados e não vividos, em vez de filmes bobos ou declarações de amor vazias, a obra de arte: ser feliz sempre por um tris, mesmo que na ponta da navalha, um no prazer da companhia, real, do outro.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Mulherismos e Delicadezas




Vocês homens pensam que nós mulheres quando choramos por vocês estamos dependentes da sua boa vontade para sermos felizes? Já ouviram a expressão popular “quem não chora não mama”?

Como vocês pensam que conseguimos o direito a pensão para nós e nossos filhos em caso de separação? Mantendo os olhos secos?

Parecendo frágeis, galgamos de volta na civilização um lugar que em verdade, sempre foi nosso por direito: o de junto aos homens- vocês, os bravos e os fortes- decidir os destinos das nações e do mundo.

Foi chorando e falando grosso quando precisamos que aqui chegamos. Nós, as tão frágeis. Nós, as donzelas. Nós, as carentes.

Nosso lugar hoje não é o melhor do mundo, mas não há tal coisa como o “melhor de todos os lugares” ou a “melhor de todas as condições”. Há o lugar onde os passos levam. Nunca este é o ideal. É o lugar mais próximo ou mais distante de onde queríamos chegar. E nós, mulheres do mundo, chegamos.

Vocês homens realmente acreditam em nós quando dizemos que não podemos viver sem vocês?

A natureza nos proveu de corpos que são suficientemente fortes para encararmos tudo o que for necessário. Se precisarmos dormir ao relento, dormiremos. Se precisarmos trabalhar no sol ou na neve, trabalharemos. Seremos capazes de cuidar de nossos lares e de nossas crias. Talvez nossa maior dependência seja justa recaia justamente sobre nossas iguais: outras mulheres. E, mesmo esta, quando queremos, superamos.
Não temos um saco escrotal que precise periodicamente ser esvaziado, provocando urgências na busca de parceiros sexuais ou alívios imediatos pela masturbação. Sim, nos masturbamos. Porque queremos, não porque tenhamos urgências da espécie dos machos. O sexo em nós tem particularidades que nem mesmo nós somos capazes de entender. Mas certamente, qualquer mulher é apta a se dominar. Numa guerra, jamais se estivéssemos no poder, violentaríamos homens em busca de satisfação imediata.

Mulheres estuprando homens indefesos e não desejosos de sexo? Só mesmo homens para imaginar tais feitos. Nós, quando escrevemos personagens ou histórias, fazemos outras tramas e outras imagens. Claro que numa brincadeira poderemos fazer este papel, mas ele é só um papel.

Nós somos todas Dominatrixes. Simplesmente porque antes de mais nada, mesmo quando nossos corpos envelhecem nunca nos tornamos as cínicas que vocês quando velhos se tornam. Nós, nunca deixamos de amar ao semelhante, coisa que vocês homens, por qualquer tranquinho amoroso, já se tornam definitivamente incapazes. Somos sempre adolescentes, buscamos amor, queremos sonhos.

Nossa força soberana vem de nossa fragilidade e de nossas flutuações hormonais. Do sangue que se esvai todo mês, nosso corpo se limpa e nossa energia se renova. É de nossas agruras e padecimentos que vem toda nossa força.

Precisamos de vocês metaforicamente. Precisamos de vocês para serem os cavalheiros de sonhos, príncipes encantados. Ao contrário de vocês, podemos ter profundo e verdadeiro tesão mesmo num corpo barrigudo, pelanquento, fedido, careca: basta que o desejemos. Se quisermos, se precisarmos se nós sentirmos amor, nós teremos tesão no mais tenebroso macho.

Qual de vocês homens pode realmente ver o pau subir sem Viagra em condições tão adversas?

Cuidem-se homens. O tempo de vocês passou. E, por mais que pareça que a mulher nunca esteve em piores condições, pensem bem: são somente na liberdade que se podem construir os verdadeiros castelos, os castelos de nossa existência.

Nossa verdadeira força sempre vem de nossa fragilidade. Somos românticas, somos frágeis. Quanto mais românticas, mais frágeis. Quanto mais frágeis, mais verdadeiras e mais tenazes.

Homens olhem os lírios do campo, já lhes disse o maior de todos os homens e o maior de todos os filósofos: Jesus. Talvez sejam lírios do campo que resistam as cagadas que estamos fazendo no planeta e durem mais do que todas as grandes e fortes espécies. Aprendam um pouco com os lírios e deixem vossa empáfia de lado que de nada vos serve.

Ou será que num embate existencial com uma mulher vocês homens estão reduzidos a vossa empáfia?

Triste sina a do cínico e a do orgulhoso. Viver a vida protegendo-se dela. Viver dias e noites do lado do oásis sem poder dele retirar o que mata a sede. Pois tudo o que o ser humano precisa é de amor, amor verdadeiro. Solidariedade profunda e real, muito além das gentilezas sociais.
RESUMINDO:
2/3 dos lares brasileiros hoje são governados e bancados por mulheres. Obviamente, isso teve alguma repercussão no comportamento geral da família brasuca. Um destes é que hoje as mulheres traem também. Não só os homens.

Isso quer dizer que somos iguais aos homens? Não. Quer dizer que podemos hoje exercer nossa sexualidade com maior liberdade que antes. Liberdade que resultou da nossa própria capacidade de trabalho e autonomia geral.

Nossa sexualidade é particular. Nosso tesão igualmente. Nossa urgência sexual é de uma natureza diversa da do homem. Nós precisamos urgente de romances, de relações.

O fato de estarmos par e par com os homens em vez de resultar numa melhor relação entre homens e mulheres resultou no homem médio ficar extremamente inseguro, talvez porque na sociedade e na economia o papel deste mudou. No engraçadíssimo Ou Tudo Ou Nada, fica patente a situação do homem moderno, desempregado e sem noção de qual é o seu lugar histórico na sociedade contemporânea. Alguns homens, inclusive preferem ser cruéis e sacanear mulheres nas suas fragilidades (necessidade de romance) do que em viver com elas.

Isto tudo está dito no texto de uma maneira mais poética, falo sobre esta frase "eu não vivo sem você". Esta frase a tradução é a seguinte: meu amor faz com que eu não deseje viver sem você.

Cadê a falácia? Poesia não é falácia.

Para muitos homens, isto é acreditar em Papai Noel. Curioso pois eu convivo com um homem que me engravidou, me assumiu, casou comigo, separou de casa e continua comigo. Gosta de mim como eu sou, me respeita, e só abre mão de mim se existir um outro homem como ele na minha vida. Acho que homens assim existem. Muitos. O suficiente pra cada mulher que realmente deseje uma vida suficientemente honesta.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

provas de amor?


Se só existem provas de amor, eu nunca amei. Nunca provei que amava porque pra começar não sei quem ou o quê é o amor. Aliás, alguém já viu o amor andar por aí? É um senhor grisalho ou uma senhora negra? É baixinho ou é altona? Gosta de Chet Baker? Gosta de salsa? Maracatu? Merengue?Eu amo sem saber o que é o amor nem como é o amor. E obviamente, não dou provas de amor porque nunca soube amar. Eu amo sem saber amar.

sábado, 30 de agosto de 2008

Noiva de Patins


Há coisas que não sei fazer e nunca pensei em fazer. Abrir um champanhe fazendo a rolha pipocar longe. Andar de patins, isso sonho de vez em quando. De patins, vestida de noiva, chego num bloco de carnaval. Não bebo champanhe e gosto de carnaval assim-assim, às vezes adoro, outras acho uma chatice. Mas de patins, vestida de noiva, lá vou eu, Vieira Souto acima e abaixo, com uma grinalda drapejando ao vento.

Já fui mais feliz nos carnavais. Hoje vejo mais gente bebendo o carnaval do que brincando o carnaval. Vejo gente se pegando, muitas putas, muitos viados, muita gente se pegando. O carnaval cheira a xixi e sexo. Quem samba tirante a porta bandeiras?

Lembro do baile do América, quando um menino rodou o salão comigo. Era tudo tão lindo. Não havia este cheiro. E o menino não pegou no meu peito, nem me agarrou. Ele foi um príncipe e eu sua princesa em apenas uma volta no salão, vestida de havaiana, provavelmente.

Já fui uma moça delicada, que não falava palavrões. Já fui muitas coisas. Tal como esta cidade, toda trapos e alumínios, lixo e cheiro de gasolina. Cidade cã, eu cã. Nós, eu e a Baía da Guanabara atolada em histórias que vêm desde as bravias tribos daqui até estas outras tribos, também bravias, talvez mais, porque insanas.

O Rio pára na hora que as crianças saem dos colégios. Voluntários da Pátria, Senador Vergueiro, Avenida Nossa Senhora de Copacabana, Laranjeiras. Pára tudo. E na saída dos pais e mães das crianças de seus trabalhos. O que aconteceria se as pessoas decidissem sair dos carros e gritarem a plenos pulmões? Quem nos ouviria? São rios de carros, ônibus e caminhões. Escorrendo entre sinais vermelhos, lentamente como rios que carregam cadáveres de outros tempos.

A todo instante, alguém enlouquece no Rio de Janeiro. Alguém se dá conta da sua medonha solidão e pira. Pega fogo em si mesmo. Sem o refúgio das palavras. Pois se palavras houvesse, nunca tão grande a solidão. Quem faz uso das palavras, nunca está tão só. Tem a companhia daquele que as ouve que as compreende. O eco de outro que liga as palavras tuas, com as dele e mais outros eles, que a si se conectam num dilúvio de significados e vidas. Todos por um fio, a linha que faz as letras que compõem as palavras.

Mas há coisas que não têm palavras, apenas gemidos, gritos, ventania. Fazem-nos andar em círculos. Bater com a cabeça na parede procurando o outro lado do crânio. Para estas, só mesmo a dor.

Os velhos sobrados do Rio de nada disso sabem. Tornam-se lojas, bares, lugares para dançar ou grandes edifícios. Nossa cidade não é uma cidade difícil porque tudo segue o fluxo das praias e do mar. O Rio é uma linha entre as montanhas e águas. Quando a gente se perde aqui é porque viramos crianças, o tempo em que tudo é sempre grande demais. Essa história é enorme. E não tem um ponto final.

O moço na bicicleta sem as mãos no guidom. Isso eu também queria saber, o segredo entre o céu e as bicicletas. Os moços que devem ainda ser gentis e as meninas que com eles passeiam sonhando amores. Tudo sem ponto final.

Quem inventou o ponto final nada sabia de histórias compridas, cujo fim deveria estar sempre nas reticências... Numa noite de sexta feira, me acreditei ser minha cidade e a lágrima não veio, nem o romance. Quem dera declaração de amor. Não. Veio o Haiti, acabou aqui. E ainda sou, lá em algum canto, a noiva do Rio. Com ou sem amor, sou tua eternamente. Tuas esquinas serão as minhas memórias. E eu, como toda noiva, acreditarei que serei a mais feliz das mulheres.

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Dar certo


Dei tão certo dei tão errado
A vida é tanta que não dá
Pra se definir
O tanto certo e o tanto errado
Dessa estrada que varia até o fim

Coisas certas são as que dão alegria no coração
Errado é ficar num mar que não dá pé
Sem saber nadar

Todo vento tem sua porta e janela pra bater
Toda porta e janela tem um mundo pra se olhar
Mundo que dá voltas
Voltas dá
E nunca termina num mesmo lugar

terça-feira, 19 de agosto de 2008

O Ciúme


Sinto ciúmes de você. Ciúmes- palavra que cabe em todas as línguas e que igualmente mata em todas as cores.

Dizem ser um monstro de olhos verdes. Não creio. Qual é a cor dos pântanos? A cor do sufocamento? A cor do abandono?

A cor sem cor da morte. A morte aos pouquinhos. Quando se abrem os braços, quando os olhos endistanciam presenças. O pensamento encorpa águas e sereias malvadas cujos cantos têm o poder de roubar os corações.

O que dizer sobre o ciúme? O que nos enche de palavras cujo sentido se perde ao alcançar o ouvido do outro?

O ciúme é a palavra inútil, esvaziada de suas possibilidades. Sons que se atropelam e extinguem todos os significados.

A pedra no peito que viaja até a língua inutilmente. O gesto que foge do próprio corpo que o executa. A presença que se desfaz como fumaça por mais pedra madeira ou papel que seja.

Eis um monstro que tem uma cara boa e um sorriso irresistível- posto que assim o sejam todos os que traem. E tem a lógica própria dos pesadelos quando surgem nos olhos despertos.

De quem se sente ciúme, se para cada instante de existência, o ciumento se perde de si mesmo? Desfaz sua história, desmancha sua cama, enforca-se nos lençóis antes macios daquilo conhecido como amor?

O ciúme mora num lugar de fim do mundo e não há como se crer possível voar com tamanho peso. O ciúme é o medo sem a poesia das lágrimas. É sempre uma imensidão constituída de nadas e ferocidades cegas.

A única coisa que se vê, por este ponto de vista sempre desesperado, é o corpo do outro, o amado, desejando e sendo desejado por alguém que não somos nós. O relógio pára naquele exato minuto que se percebe que nunca mais se será feliz.

Falar sobre o ciúme é necessariamente falar sobre o lado mais sombrio da alma e o mais feio companheiro do amor. Contra ele nada se pode. É a luta inglória contra o leão e uma fuga igualmente sem efeito. Pensando bem, quem dera que o ciúme fosse como os leões e tivesse um corpo fora de nós, uma existência de savanas. Mas não. Meu ciúme sou eu. Contra mim, nada posso. De mim, jamais a fuga é completa. Sentimento sempre selvagem e deslocado nas modernas urbanidades.

Não se escolhe vivê-lo. Ele é quem nos encontra e faz com que a cada pensamento ilumine uma traição. Maldita luz que desencava de vez a nossa permanente incompletude. Dele me escondo e faço de conta liberdades que jamais senti ou vivi. Talvez assim, iludindo a mim mesma, consiga dele me livrar. Quem sabe.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

filho, a poesia suficiente

só precisa de uma palavra: filho

e pronto, tudo está dito, tudo significado, tudo poesia.

http://www.youtube.com/watch?v=VG4JZC_JnCE

Há dias que não acontecem.


Dias que se está perdido, que nenhum mapa te guia.


O corpo aqui padece. Gripe. Água por todos os lados. Um beijo contaminado de vazio. Quero estar, quero querer – e não quero nada. O que fazer? O mundo nem sempre cabe em palavras. O próprio amor, não cabe em suas quatro letras – pois se às vezes é ódio, é caos, outras é a ordem dos objetos, cada um ensolarado de sua presença. Talvez o amor seja a medida do absurdo ou vice-versa. O amor foi feito para versos, canções, tudo o que é passarinho. Bichos feito de plumas, carne e sangue, carregados de milagres onde fazem seus ninhos, eles que são vôos.


A memória se esvai. O céu fica. E nos cobre a todos – o céu que se estrela fosse, seria estrela guia. A mãe está sempre à esquerda de todos os nossos medos até porque é ela que nos reza. Nem sempre a vida faz sentido. Ela passa. Sem que a gente sinta. Um anjo dita o silêncio das coisas. Para que estas apenas sejam. Pequenas ou grandes. Suas vontades de coisas que são.


As melhores coisas sempre serão inacabadas. Um dia, apenas um dia – e nunca mais. Parece absoluto. Ás vezes até é. Mas se espremer um pouco, ainda sai lágrima, ainda é vento, ainda está vivo. Por isso nunca se aproxime demais das coisas mortas. Elas são pó. Pó cheio de dúvidas e dívidas. O pó enamorado. Tocado pela vida e pelo milagre. Como é que agora vou dar beijo na boca estando tão gripada? Te quero. Mas estou fazendo água. Desejo adiado será que afunda navios ou emerge ilha deserta onde finalmente, o corpo se entrega ao mar onde apenas a letra A lhe completa?

domingo, 27 de julho de 2008

Inacabado


Meu sexo. Esquenta esfria. Esquenta. Estou só. Inabitável. Não constituída. Pra quê tatuagens quando a vida sempre nos marca?

Sou uma vaca sem meu sininho, perdida... Sem minha paixão, não existo. Porque todas as palavras têm outro gosto quando se está na beira do abismo. Apaixonada. Irremediavelmente. Sempre é irremediável a paixão. Paixão com remédio é prozac.

Política? Coisa insuportável como assunto. Boa como prática. Mas como assunto literário? Não me convence. Prefiro pensar em pintos e xotas. Donde viemos e para onde iremos. No fundo do cu. Redondo. Reluzente diante da luz que nunca bate.

O homem que você realmente é não me importa. Nem a mulher que em mim resiste. Isso é assunto pra análise. Meu papo é outro. A construção, palavra por palavra, gesto por gesto, do homem que me conhece mais do que a mim mesma e me pega por trás, sem uma única palavra. Desconhecido e rude. Ancestral.

Não quero saber das suas opiniões. Nem das minhas. Não valem grandes coisas. Não mudam o mundo. Achismos não mudam nada. O país no caos. Ora, e quando não esteve? Aliás, qual o país que não está mergulhado no caos da civilização em decadência? Decadência. Que sei eu da decadência? Ou da ascensão? Sei de mim, de você quando respira ao meu lado, quando pega meu peito e enfia a língua na minha boca. Aí sim, falamos a mesma língua.

Qual é a sua língua? Qual é a sua resposta? Sua resposta não me interessa. De verdade. De mentira. A mentira eu sei, é apenas o lado oculto da verdade. A verdade quando sonha, amanhece no jardim da mentira. Assim construímos nossas ilusões de coisas absolutas e tangíveis.

A única hora que deixo de habitar minha mente é quando tenho medo. O corpo coça, arrepia, o sangue circula mais rápido que o sentido. O sentido passa a ser sentimento. E finalmente, as lágrimas. Nelas me desfaço, desato meus nós, me purifico. O mar de Iemanjá, suas flores, tudo enfim exato.

Amontoar palavras junto às roupas, desnudar finalmente o ser. Deixá-lo livre, como nunca foi nem será. Por mais homens que me penetrem, meus segredos ficam além do fundo onde o fundo do pinto aponta. Ou assim quero crer. Prefiro acreditar que sou um pouco além do que minhas vísceras, mas tenho certeza que se aqui houvesse uma barata, tudo o que eu conseguiria fazer seria gritar.
O nojo plantado em mim das coisas que simplesmente como eu, respiram. Criaturas de carbono. Somos todos. A barata inclusa. A buceta inclusa. A buceta inclusa como o dente. O dente incluso, a buceta inclusa. Arrancar meu dente amanhã. Gostaria de fazer um diário ao contrário. O diário do futuro, onde só escrevesse aquilo que ainda está por vir. Agarrado ao instante presente e ao futuro incerto. Sendo criado. Ainda inexistente. A vida vista por um espelho. Parapluie. Que linda palavra. Tudo é sempre

quinta-feira, 10 de julho de 2008

show de julho no luigi´s

Estas imagens foram captadas no meu show de julho no Luigi´s, RJ, 06 de julho/2008

Sapatinhos: letra: Cynthia Dorneles, música: Bruno Tavares
http://www.youtube.com/watch?v=2YVO6-a60oM&feature=related

Amantes: letra: Cynthia Dorneles, música: Bruno Tavares
http://www.youtube.com/watch?v=x_0I4yZwo4o

Cordeiro de Deus: Zeca Baleiro
http://www.youtube.com/watch?v=08R4g6H2OB4

quarta-feira, 14 de maio de 2008

meu show dia 06 de maio no Luigi

Meu show no Luigi, dia 06 de maio, de 2008. Músicas Cordeiro de Deus, de Zeca Baleiro e As Velas do Mucuripe de Belchior.

Cantar? Cantar é bom pra caralho. O resto é fila.

Link do Youtube: http://www.youtube.com/watch?v=oFg2KzezDmQ



segunda-feira, 14 de abril de 2008


Hoje sonhei com um homem que já foi sonho um dia. As coisas que perdemos quem as acha? Movi uma pedra, movi um graveto, movi o véu que cobre o rosto da montanha. E o que vi é um lugar onde ninguém jamais precisaria dar adeus. Para quem quer voar, a única bagagem possível é o sonho. Mesmo pétalas e plumas pesam demais.

Cada vez que você vai, vai contigo meu coração e minha paciência. Aqui sozinha, me pergunto do que são feitas as lágrimas e só sei qual gosto elas têm. Nenhum livro de ciências sabe por que afinal se ama ou por que afinal se esquece de tudo o que é inesquecível.

Bem que gostaria de estar num outro lugar, viver uma realidade Matrix onde nenhuma bala me acertasse e tampouco um olhar de desprezo ou a tua indiferença diante do meu desconcerto: por que você não vê que só existe cor por que existe o sol? Por que você não admite que felicidade seja poder amar e ser amado- por mim?

Em vez disso, um dia já teremos passado anos sem nos ver e teremos construído nossas vidas em outros apartamentos, conheceremos outros corpos e nada do que eu ver será a paisagem que te acompanha. A maldição do amor é sempre a ausência. Tudo é doce, mesmo a mordida fatal.

Você acabou de sair daqui e eu já choro. Até quando? Já fingi gostar de peixe, posso fingir que a culpa é das cebolas- mas será que dessa vez você ainda vai acreditar? As paredes já cansaram de mim. Já ouviram tudo o que tenho para dizer. E tudo, foi coisa nenhuma.

sábado, 5 de abril de 2008

um pouco de nuvem, de flor e de impaciência com tudo




Como seria bom ser flor e ser só cor. Como seria perfeito ser vento sem palavras, levar alívio e nuvens pelo mundo afora. Infelizmente, sou uma mulher. Falo e faço bobagens, coisas estúpidas que não fazem sentido algum nem quando eu as faço e muito menos quando delas lembro.

Cansei de explicações que dou quando quero pedir perdão ao mundo por existir assim tão imperfeita. Cansei de sofrer pelo mal que fiz que sou e que não controlo. A vida é maior que nossas explicações ou que nossos erros. E mesmos nós, tão imperfeitos, carregamos nosso destino. A força de resistir, apesar do mal feito e um dia acertar, depois de tantos tropeços, é que nos faz humanos.

Por certo, não tão belos quanto flores, nem tão necessários quanto nuvens, águas ou ar. E mesmo assim, ainda presentes. Provas vivas de um milagre que jamais precisou de um Deus, mas que precisa sempre de calor.

Eis que te peço perdão. Por falar o que não devo, por sentir o que não é certo, por fazer o que não é direito. Peço-te perdão, por puro hábito já que sei que de boa não tenho nem as sobrancelhas. Peço-te que nada me dês, porque de ti nada preciso, salvo talvez que saibas que sei muito bem que errei, e que poderia errar de novo.

Já que desconheces o como me fazer feliz e já que eu tampouco pretendo facilitar-lhe a vida, mantenha distância. A mesma sagrada distância que existe entre nossas cabeças e as nuvens que passam no céu. Elas, como eu, também não sabem aonde irão parar. Elas, como eu, um dia deságuam furiosas montanha abaixo.

Não sou nuvem nem muito menos flor, tudo o que faço é lhes imitar o despropósito. A beleza mesmo em meio ao mais feio espetáculo.

E então, o comentário de amigos : 1. Eliane: "Seria tudo tão mais perfeito se perfeito fossemos a quem perfeito nos é.

Tão mais perfeito se perfeito fosse o momento que nos apresentassem a quem de igual nos fosse e igual tivesse.Tão diferente seria não fosse o descompasso de ser.Tão maravilhoso seria não houvesse na vida tantos destinos desiguais que num instante tão igual ao nosso se faz. Mas tão distante de poder ser!E dizer que se quer apenas o quanto tanto é o que o outro quer!Mas, é a vida".
2. Águia: "Mas, Cynthia, saiba que você é um jardim.Um jardim com pragas, insetos, vermes. Um jardim com humus, ervas daninhas, cogumelos. Um jardim ornado com plantas e flores. Um jardim coberto de luz e muito perfumado, Que atrai belos pássaros e borboletas coloridas. Aliás, para ser belo, Um jardim precisa de tudo isso, Precisa desses seres vivos, interagindo nele todo...Você é mulher, é bela.Você é inteligente, culta.Você é sensível, sensual.Orgulhe-se de você, Cynthia.Eu me orgulho muito...Por você, viu?
3. Elizabeth: "o que somos nós?
mutáveisadoráveisimperfeitoslíricossonhadoresrealistasmezza machistas/feministas
quer lógica?..."
4. Tche: "Um parágrafo
... Aquela pessoa que você se apoiava foi embora? Sinal que não te merecia... Tem mais de trezentos milhões de pessoas sozinhas, pessoas maravilhosas como você e você vai ficar ai chorando... Pelo menos hoje, seja simples, pinte os cabelos de verde, sei lá... Pelo menos vai chamar atenção pra caramba... Tá rindo? É pra rir mesmo, a vida é assim alegre,... Acompanhe a vida aceitando você como você é, com todas as suas qualidades e seus defeitinhos (tudo coisinha pouca)....eu sou mais você!"
5. Antigona: "Mulher minha, minha metadeAgradeço o gozo e o afeto, agradeço o braço e a cama,Agradeço tudo o que esse verbo grato pode conjugar em você. Em qualquer tempo verbal, na eternidade. Sua roupa que é primavera, e sua boca que é um poema. Tudo canta a você. Que eu agradeço, e digo benvida, bem-chega, bem-fica, bem-minha. Mulher do cabelo em revoada, De ancas largas, poesia concreta. Da boca aberta e a nota solta, olhos fechados e coração aturdido. É você o melhor e o pior que essa natureza geminiana nos permite. E é linda, sob todos os ângulos, a cada capítulo, até o fim"
6. Maria: "para Cyn
Palavras de um poeta de aço e flor.
Erra uma veznunca cometo o mesmo erroduas vezesjá cometo duas trêsquatro cinco seisaté esse erro aprenderque só o erro tem vez(Paulo Leminski)Beijo, querida!"
7. Itamara: "Li seu tópico e como bem diz o Tchê, se foi embora é pq não te merecia. Há sempre um dia após o outro e o tempo tudo cura. Não esquecemos mas, não dói mais como antes. E como bem canta o Zeca Pagodinho, Eu já passei por quase tudo nessa vida Em matéria de guarida não chegou a minha vez Confesso que sou de origem pobre Mas meu coração é nobre, foi assim que Deus me fez E deixa a vida me levar Vida leva eu Tô feliz e agradeço por tudo que Deus me deu Só posso levantar a mão pro céu Agradecer e ser fiel ao destino que Deus me deu Se não tenho tudo que preciso Com o pouco que tenho, vivo De mansinho, lá vou eu Se a coisa não sai do jeito que quero Também não me desespero O negocio é deixar rolar E aos trancos e barrancos, lá vou eu E sou feliz e agradeço por tudo que Deus me deu Deixa a vida me levar Vida leva eu "
8. Mauro: "Conheci (virtualmente, é claro!) a Cyn através e uma sua identidade fake. Na verdade eu nunca soube porque ela tinha esta identidade, pois não conseguia ver diferença entre ego e alterego.
Já se falou que ela é "bocuda", mas bocuda porque não esconde segredos. E é aí que ela se rala. E se ralou. Ouviu (leu) coisas que não deveria ouvir, coisa que não se fala para ninguém. Fiquei constrangido, mas este constrangimento sumiu pois Cyn deu a volta por cima.
Pensando no jardim poeticamente descrito pelo Águia, talvez ali esteja o maior "defeito" da Cyn: ter a alma aberta ao mundo.
Alma, uma alma divina dos guarani, é a boa personalidade, o que a pessoa tem de bom. É o Ñé é da Cyn, escancarada, que faz com que tantas pessoas passem a gostar dela, mas que também deixa caminho aberto para os muitos Angüery soltos por aí.
Não estou me referindo a ninguém da comunidade, mas ao mundo e às pessoas de alma aberta como a Cyn. Ela se torna aquela pessoa que todos passam a gostar com todas as suas virtudes e os seus defeitos. São os defeitos que dão a medida exata das virtudes.Portanto não vi a Cyn pedindo desculpas para o mundo, mas o uso da desculpa como um fiel de balança para equilibrar o que não gostamos com o que gostamos.Desculpar-se então, não foi como uma submissão ao que se pensa a respeito, mas como uma orientação (ou auto-orientação) no mundo em que vivemos.É assim, Cyn, que todos gostamos de você."

quarta-feira, 26 de março de 2008

NÃO-NAMORADO


Meu querido não-namorado
Meu achado
Preciosa descoberta

Não te verei aos fins de semana
Nenhum drama
Nem contigo irei casar

Serás meu sem me pertencer
Me terás sem compromisso

Teu beijo tem um gosto
De uma coisa sem nome

Teu abraço é um laço
Que me prende
Sem querer

Talvez o nosso fim
Seja apenas um começo

Talvez esse começo
Seja o fim visto do avesso

Te quero hoje
Amanhã me desespero

Sempre te venero
Na soma dos instantes

são os anjos que nos pedem silêncio

quarta-feira, 19 de março de 2008

CANÇÃO CONTRA O ÓDIO


Tão perto

Tão distante

Odiar o diferente

Acatar o semelhante

Como você vê

aquele que você não conhece?

Como você vê

você mesmo mudando a todo instante?


Você torce para um time que não torço

Acredita no Deus que não é o da minha igreja

É pobre é rico

É homem é mulher

É jovem é velho

É o estrangeiro

que não controlo

A quem espanco

porque tenho medo


Medo medo medo

Qual é o segredo

de ser macho sem porrada

de ser mulher sem maquiagem

ser humano

ser verdadeiro

ser sempre novo

Tudo começa saindo do ôvo

segunda-feira, 17 de março de 2008

Pelo Fim da Violência das Torcidas Organizadas Dentro e Fora dos Estádios

Hoje às vinte e duas horas, meu filho de quinze anos foi atacado no Largo do Machado por três indivíduos adultos da chamada “Raça” rubro-negra, uma ala radical da torcida flamenguista. Meu filho estava voltando de um aniversário de um amigo, vestindo uma camisa do seu time, o Vasco.

Estes três covardes o seguiram e em pleno Largo do Machado, na frente da Igreja, o atacaram a socos e pontapés, atingindo principalmente o rosto de meu filho.

Fui chamada às vinte e três horas pelo celular por pessoas que o atenderam. Por sorte, estava com um amigo que tem um carro e pude me dirigir rapidamente para o bar Bumerangue, na Rua das Laranjeiras.

Lá chegando, encontrei meu filho muito nervoso, com o rosto desfigurado, chorando. Fomos correndo para o Miguel Couto onde ele foi atendido e para nossa sorte, sem nada mais grave além de uma fissura no nariz.

O Brasil sempre foi caracterizado por ter um povo alegre e aqui nunca tivemos tradição de um povo radicalmente agressivo fosse por questões de religião ou raça. Nossa colonização foi uma das poucas onde os colonizadores se misturaram aos colonizados e a tônica do país foi o de uma receptividade inteligente junto à variedade racial e cultural.

Nos últimos tempos, tem proliferado o comportamento “pitboy” e as torcidas que antes quando muito tinham um ou outro incidente isolado, hoje recorrem à violência como uma constante.

Hoje é um perigo de vida um jovem usar a camisa de seu time e as torcidas parecem tão mais violentas, quanto mais medíocre o futebol tem se mostrado na atualidade.

É necessário que a população acorde para estes fatos e não espere apenas da polícia e do Estado providências para acabar com a onda de violência das torcidas organizadas. Temos que fazer mais do que reclamar ou nos amedrontar diante deste comportamento imitado dos Hoolingans ingleses.

Civilidade é antes de tudo fruto de educação e consciência. Cidadania por sua vez é ação direta e concreta de todos nós.

Pelo fim da violência das torcidas organizadas dentro e fora dos estádios. A escolha do seu time, tal como todas as outras escolhas, só é possível com a verdadeira liberdade para que isto aconteça. Por uma sociedade responsável e sem medo.

Repasse este texto a todas as suas comunidades do orkut, a todos os seus amigos e faça você também a sua parte. Vamos debater estes temas e encontrar solução para isto. Que nenhum outro jovem seja brutalizado como foi meu filho nesta noite de 16 de março de 2008.

sexta-feira, 14 de março de 2008

Típicos Delírios Femininos


De novo é sexta feira. Tenho aula das seis às dez. Mas e depois? Chamo um moço lindo que sempre quis comer e que reencontrei quando passeava em Ipanema com a Beth, arriscando ele só querer saber de mim como amiga e ficar arrasada ou fico solitária entre meus queridos fantasmas que tomarão conta da cama nesta noite ansiosa? Fantasmas nunca dizem não, é fato. Mas não contam piadas.

Quando revi este amigo, depois ele veio me visitar. Jurei me comportar bem, consegui. Prometi a mim mesma que só daria pra ele com cinco quilos a menos. Ele é belo demais para eu apresentar esta barriga. Só de pensar naquele corpo de homem harmonioso com nada a mais nem a menos, vejo que desisto.

Em tese, era para ser o contrário: eu, como mulher, a bela. Ele como homem, poderia ser feio, porque homem pode sempre ser feio. Acontece que ele é lindo, rosto, corpo e pensamento. Mas também era para ser ele a me telefonar, não eu. Num filme que vi, a mulher mais experiente dizia para a outra, mais jovem “quebre seu dedo, mas jamais ligue você primeiro para um homem”. Quantos dedinhos eu vou ter que quebrar. Um monte. Vai faltar dedo.

Ouço um cara chamado Jacques Brel, francês, brinca comigo e diz que na luz da lua todos os amantes amam pela primeira vez. Ou seja: com sorte, a barriga não é parte do cenário. Coisa que duvido, pois onde quer que eu vá, ela chega primeiro. Esqueço de tanta coisa. Por que não me esqueço dela? Esqueci coisas muito mais importantes que a barriga. Esqueci como era o pau maravilhoso do primeiro cara que me fez gozar. Mês passado esqueci-me de pagar meu seguro de saúde. Se tivesse viajado, iam ter me segurando na fronteira porque estou sem seguro. Esqueço tudo. E nada de esquecer este detalhe íntimo anatômico. Atômico. Penso que poderia existir uma bomba atômica localizada, que só fizesse sumir barriga. E queria que sumisse hoje, até as dez.

Apelo à minha cara de pau. Ele também pode estar sem saber o que fazer hoje à noite. Quais as chances de um cara lindo, morador de Ipanema, estar sem programa para sexta feira? Meus dedos tremem, o celular salta da minha mão e me desafia lá embaixo do emaranhado de fios e pêlos de cachorro. Levo um choque, ele ri. Puxa, por que você ri? Aposto que ele também me acha bonitinha e só não me telefona porque imagina que eu já tenho programa. Não pode ser isso, não? Vem cá, porcaria, me deixa discar o número dele. Se eu cantar Dulcinéia para você, será que você dá uma facilitadinha e chega mais pertinho de mim, longe dos fios e dos choques?

De repente ocorre-me que choques elétricos devem tonificar a barriga. Arrisco. 100 mil voltz me atacam ferozmente. Ela, nada, impávida, continua lá. Mas o celular finalmente está na minha mão.

Olho, olho, os números dele 98920596. Vontade de me desintegrar. Quebro o dedinho como a moça do filme disse? Socorro, eu clamo aos céus. Nada vai me salvar de pagar este mico? Nada? Mal conseguindo olhar para o teclado, finalmente disco. Fora de área, graças a Deus.

quinta-feira, 13 de março de 2008

Dia Internacional da Poesia se comemora com...uma poesia desesperada!


Se eu rimar angústia com alguma coisa
Do tipo angu
Ou Rússia
Será que a angústia vai embora?

Talvez o mal da angústia seja a falta de rima
E a sina da palavra tão deserto
Tão ferida que não cicatriza
Seja apenas a prima cretina
Que nunca coube numa poesia
Mas sobrou em estrepolia
Por isso nos maltrata
E nos fascina
Poetas bichos esquisitos
Que querem transformar tudo em palavra
E todas as palavras em poemas
Que ninguém lê

No meio da dor de dente
O corpo sofre
E rumina no guardanapo
Onde cospe sangue
Um mangue imaginário
Onde um dentista sem anestesia
Dele tudo arranque
Dente dor angústia e poesia
Melhor folha vazia
A lágrima pendurada no olho
Furado no meio da cara
Torcido em sorriso forçado
Um arado de boi que se faz gente
Uma gente que se faz pasto
E o mundo sem fome nenhuma

Sem pestanejar
Arranco meu coração do peito
Só pra te mostrar
Veja
Que verso bonito!

quarta-feira, 12 de março de 2008

Para todos os Mistérios Só é Necessário Três Versos


O que é a vida?
Um suspiro da eternidade sem rastro
Um cometa que passa

O que é a morte?
A face oculta da lua
A noite de mala vazia

O que é a verdade?
A planta que nasce entre o asfalto e o muro
Algo que resiste

O que é a mentira?
A tristeza da ilha filha da terra
Prisioneira do mar.

Quem sou eu?
Uma paisagem impressionista
Pintada por um cubista.

domingo, 9 de março de 2008

Pessoas de Moral Ilibada


Ilibada: sinônimo de não manchada, pura, não tocada, incorrupta. Todos estes adjetivos não combinam com saia mostrando as pernas, pílula anticoncepcional para se fazer sexo sem ter risco de engravidar contrariando a mamãe natureza e a dona Igreja, orgasmo para todos, homens e mulheres.


Quem trepa, se toca. Mancha-se.


Quem usa minissaia induz ao desejo, projeta-se para o sexo. E quem goza, ora quem goza sabe que o prazer sempre tem algo de inclemente, absoluto, voraz que não se ajusta às leis, aos bons costumes, à civilização, sempre tão limpa, anticéptica, insípida, entre os frufrus das rendas das senhoras vitorianas e os modernos automóveis brilhantes.

Nem minha avó era assim e ela era a pessoa mais cândida que conheci sobre a face da terra.


Dócil feito um carneirinho, boa feito só as avós podem ser tão boas, jamais usou minissaia e passou toda sua vida dedicada ao trabalho e aos seus seis filhos, netos e bisnetos na cidade grande.


Minha avó foi tocada pelo meu avô, foi tocada pelo desejo. Quando meu avô morreu e a deixou tão jovem ela seguiu a vida, ocupada demais para arrumar outro homem, mas mesmo assim, sempre sonhadora de outro romance que em vida jamais conheceu. Só em novelas. Vovó era uma grande fã de novelas, não perdia nenhuma, mas o fato é que de pura nada teve. Incorrupta? Talvez.


Será que alguma mulher que conheceu o desejo e o orgasmo consegue realmente ser incorrupta?


Não será o prazer justamente nosso primeiro corruptor, já que é contra o prazer que se fazem as regras de bom comportamento? Não sei, mas me pergunto. Quem nunca errou nunca experimentou nada de novo, já nos disse Einstein. Quando pensamento foge dos trilhos é que começamos a errar, a duvidar, a nos corromper.

Os incorruptos seguem por caminhos mil vezes traçados por isso mesmo são incorruptos: eles seguem às normas e as cumprem à risca. É preciso jamais ter vivido com intensidade, jamais ter arriscado o novo, jamais ter arredado um centímetro da estrada para se levar o título de ilibado.

Se você vive com intensidade, se sua cabeça é que o norteia, se você decide o que é que lhe faz feliz e age apenas conforme seu próprio limite acredite você já é uma pessoa manchada, fora do trilho. Usou minissaia, camisinha, pílula? Esqueça este título. Você enganou a mãe natureza, aos padres e os padres é quem fundaram toda a ética que, mesmo caduca, é o que delimita se alguém pode ser chamado ou não de ilibado.

Eu trepo, não tenho relações sexuais porque ter relações sexuais me parece o sexo que se faz sem sujar lençol e jamais transpirar, então eu trepo porque suo e mancho lençóis aos montes.

Eu arrisco porque faço até o que não sei.

Eu minto porque justamente nem sempre sei o que é o certo e, no entanto não quero abrir mão das coisas que sei que não devo jamais abrir mão.

Não sou uma pessoa de moral ilibada.
Entretanto sou capaz de amar. Posso dar minha vida pela felicidade do próximo sem esperar retorno. Sou então uma pessoa de bom coração, dirão alguns.
Dado que saber amar não é amar e amar é não saber e tudo o que se refere aos sentimentos é incerto, poderei pensar a meu respeito que simplesmente sou gente e tenho de aprender a ser mais humilde com tudo o que desconheço e mais tolerante com todos os que não vejam à vida como eu vejo. E certamente ter a mais clara noção de que definitivamente não posso me considerar alguém de moral ilibada.

Fui manchada pela vida, tocada pelo amor e pelo milagre.



sexta-feira, 7 de março de 2008

Nós, Mulheres


A mulher de carne que todas passeamos
Somos também vertigem e incêndio
A louca da varanda que ri da lua e sonha com cavalos
A mulher naufrágio que sereia muda no corpo do namorado
Sim somos todas estas
E mal temos tempo para passar um batom
Na boca da madrugada
Nossa dimensão é absurda e vai da sala de aula
Professora aos gritos
Até a executiva top
Pés massacrados pelo salto
Pulando de abismo em abismo
Nossa alma é mais vasta do que o rótulo que nos dão
Esposa mãe irmã tia namorada nada
E nosso abismo é maior que nosso medo
Somos a flor terna do segredo
De sermos tantas em apenas uma só
Quem é mulher cedo aprende
Que ninguém jamais nos entende
E que passaremos a vida a rir da revista que diz que é fácil
Trabalhar estar bela ser apaixonante ser feliz e ganhar pouco


Não, não é fácil ser mulher
É questão de treino
Insistência e talento
Nem todo mundo consegue
Ser simplesmente

Uma mulher

quarta-feira, 5 de março de 2008

Paixão ou o Fogo da Bacurinha


Como é que a gente explica para um homem que mesmo que a gente chore baldes de lágrimas ainda há dentro de nós um oceano inteiro de outras lágrimas possíveis e que estas, tais como as risadas são infinitas como as vontades? Faz até bem chorar, melhor do que comer chocolates ou ver Big Brother na tv.

Como é que a gente traduz para um bom Português que meia hora depois de chorar cântaros, a gente canta, fala bobagem, liga para as amigas e a vida segue? A gente pode chorar mais do que em enterro, mas nem por isso nada nem ninguém morreram. Quando muito, morrem esperanças que daqui a pouco estarão vivas novamente por um outro cara, por um outro assunto ou simplesmente porque o dia amanheceu de um outro jeito – obviamente se a gente não morrer antes disso por puro acidente.

Uma outra coisa que acho interessante descobrir é como é que a gente faz para que um cara perceba que é metáfora quando a gente diz “não vivo sem você”. Ora, a gente vive sim. Viveu antes, viverá depois. Salvo impedimentos de outra natureza, nós sempre sobreviveremos à morte do amor. Aliás, quem morre é a paixão, pois o amor nunca morre. Amores reais não são na base do ama/desama. Amor não acaba porque amor é um sentimento infinito e, se tem fim é porque a palavra está errada, salve Nelson Rodrigues.

Por que tanto espanto e consternação com um “estou apaixonada”? “Estou apaixonada” não quer dizer quero casar contigo. “Estou apaixonada” não quer dizer que acho que você esteja igualmente apaixonado. Quando há dois apaixonados, ninguém precisa pronunciar a palavra porque ela está ali, voando como borboleta. Relaxem, pois “Estou apaixonada” definitivamente não quer dizer que pretendo largar meu caminho para seguir o seu, ou que daqui para frente serei sua carcereira.

A paixão vale definir melhor, é um nada que acontece quando os hormônios fazem carnaval na cabeça. Também poderíamos chamar a paixão de alucinação temporária por um ser que tanto faz se existe ou se é invenção da cabeça. Aliás, nove entre dez paixões são, de fato, alucinações. É o cara que você seria se você fosse um cara e vivesse fora de você. Você imagina as melhores qualidades num sujeito que tanto pode até ter alguma qualidade como nenhuma.

A paixão desacontece quando a órbita do nosso objeto do desejo é finalmente entendida. A paixão nunca resiste ao entendimento. Razão e paixão andam para lados opostos. A paixão é uma chatice. Mas dá um tesão danado. A chatice vai embora? Resta aquele marasmo do corpo apenas corpo, corpo que nada é – salvo um corpo no meio de zilhões de outros corpos, piores e melhores. De outras inteligências, melhores ou piores. Paixão? Ruim com ela, pior sem.

Alguém por favor, bote um grande letreiro em néon explicando que berimbau não é gaita, que por mais que as palavras sejam falhas elas explicam melhor às coisas do que os silêncios. Contratem teco-tecos para levar de um lado ao outro da praia um dizer em letras de fogo bem assim:

"A ausência jamais foi de nenhuma serventia para fazer nascer à compreensão entre pessoas. Esteja presente quando causar dor esteja presente quando magoar e ame exatamente quando é mais difícil amar. Quando é fácil, ninguém precisa de amor".

Depois que o teco-teco rodar São Conrado, Leblon, Ipanema, Copacabana, Botafogo, Flamengo você volta aqui ao blog para terminar de ler o texto.


Pois a pergunta que não quer calar é: por que há homens que odeiam quando uma mulher fala sobre seus sentimentos? Por que designam com tanta presteza à mulher que publicamente fala de si e de suas carências como a mal-amada? Ser mal-amada é palavrão?

Pois se a grande maioria das mulheres é de fato mal amada, a fantasiar homens carinhosos para chamar de seu que jamais acontecem. A mulher costuma só ser bem amada por um breve tempo: o tempo da paixão. Homens que são homens não costumam ser carinhosos, nem tampouco pacientes.

A paciência é coisa de mulher, bicho feito para esperar nove meses. Carinho também é coisa de mulher: animal estruturado para dar tudo que o mundo irá negar ao seu rebento.

Sim, há as que não são nenhum pouco assim. Que delas se ocupem os homens que adoram mulheres que em nada dependem deles e que nenhum pouco se ressentem de sua ausência.

Aqui eu penso mulheres que nunca têm tempo para fazer tudo o que mulheres precisam fazer e que sempre ganham muito menos do que merecem. Nós, as carentes. De um tudo. E cheias de fogo, elemento que a tudo transforma.


Paixão, em mulher, é o fogo da bacurinha transcedental que transforma a Amélia conformada numa Messalina ardente, que esconde na bolsa o perfume e a meia de seda para um happy-hour com o sonho.

terça-feira, 4 de março de 2008

Se Não Aconteceu, Pior para os Fatos


Meu ventilador respira no calor úmido da sala. Desnorteado, gira sua cabeça para lá e para cá.

Tive um momento pornográfico e afirmei que mi culletto es su culletto e só depois me dei conta que sou um ser suculento de cabo a rabo. Mas tirante isso, o zig zag dos mosquitos é poesia e a torradeira salta seus pãezinhos queimados bem debaixo do meu nariz.

Eu queria ser Copacabana, mas quem nasceu laranja não vira praia assim do nada.

É preciso ousar temeridades e ligar o farol do carro na frente, em vez de atrás. Um cara muito careta hoje me telefonou, por sorte não atendi porque estava de óculos. Os caretas dominaram o mundo desde o finado Marco Aurélio ou tudo teria sido Cleópatra.

Não consigo entender a graça de viver a vida lendo jornais em vez de fazer você mesmo a notícia. A notícia é objeto direto de fazer, é ou não é? E fazer notícia só depende de criatividade e espírito cosmopolita.

Cosmopolita é nome de fogão. Eu gostaria mesmo era de ter uma geladeira chamada Cleópatra.

James Stewart e Kim Novak abraçados em Vertigo. Nasci vendo heróis cinematográficos e procurando estes personagens nos homens que conheci. Filme que vi, romances que vivi, nunca soube a diferença: salvo nas sextas feiras em que fiquei só.

Espero que meu amor me encontre, tenho deixado todos os dias pegadas.

Sempre adorei homens barbudos, desde quando me apaixonei por Papai Noel. Tinha quatro anos. Quatro décadas depois, ainda prefiro os cabeludos. Mesmo que eles estejam carecas e seus cachos tenham ido parar em seus pensamentos, igualmente barrocos.

Separei os parágrafos, num resquício último de civilização. Esta semana começo o Francês.

sábado, 1 de março de 2008

Mar do Fotógrafo


Em teu corpo passa um mar
Cheio de dor e fúria
Não sei quais peixes abissais
Tão coloridos e cheios de pinças
Pontas lanças estiletes agulhas farpas
Teu sorriso tão bonito
risada vibrante
olhos meninos
E os gestos de um príncipe
Tudo fica molhado
E os peixes bizarros navegam
E rasgam tua pele
Peixes não são maus nem bons
Mas eu queria um peixe lambida
Pra secar tuas feridas
E te fazer descansar no meu colo sem dor alguma