terça-feira, 20 de dezembro de 2011

FELIZ 2012

No começo tudo era passarinho

Libélula era liberdade
cinco sílabas que de tanto dançar viraram 4

Há que sempre se dizer certas palavras
se não elas morrem coitadinhas

Inventar novos jeitos de soletrar uma solidão que seja um solzão acompanhado de maracujá côco e beijo na boca

É preciso ver: nada combina mais com a tinta negra do que a branca folha de papel

Amigos eu os saúdo e prevejo grandes luzes

os olhos abrindo a linha do infinito e nossos passos espaços de cores insuspeitadas

Quero-vos perto e desejo que cada um seja cada vez mais um bom tanto de si mesmo
o fogo que anima a vida

Agradeço-vos cada gesto e toda lavra larva de novos aconteceres

AXÈ!!!
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domingo, 13 de novembro de 2011

Divagações de Domingo


Sim, a vida é surpreendente e se por um lado rola a invasão da Rocinha pela coisa mais pop da atualidade que é o BOP, por outro nascem potrinhos appaloosa em distantes rincões do país, pessoas se enamoram, outras têm filhos, outras adoecem e outras morrem. A vida é algo que flui e vive em gerúndio e paradoxo permanente.

As coisas estão sendo. E as coisas não têm definição exata. Cabe a nós cabermos em nossa razão tamanhas imensidões- que volta e meia não cabem. Volta e meia tem alguém que surta, que se desintegra. E no fim das contas, poucos de nós se arrojam a viver com plenitude e criatividade neste mistério que consiste ser. Ser sendo de verdade é para poucos. A maioria se contenta em repetir rotinas, em fazer julgamentos permanentes sobre si e sobre os outros, em ecoar uma coisa besta chamada opinião e se dar por inteligente porque tem opinião.

Ora, opinião é natural, mas é nada mais que um eco de tudo o que a mídia nos oculta e que os jornais descontextualizam e de acordo com os interesses políticos dos donos dos jornais e seus financiadores publicam. Se há uma coisa que jamais é realmente independente e criativa é a tal da opinião. Quem opina não se compromete com o que diz. Quem opina não pesquisa sobre o que diz. Quem opina não questiona se há evidências ou distorções dos fatos. Quem opina apenas engrossa uma massa eternamente manipulável. Exatamente por não se comprometer, não pesquisar, não problematizar aquilo com o qual se depara.

É fácil confundir democracia com este fato trivial chamado dar opinião. Alguém pode se considerar democrático por permitir a si opiniões que julga independentes e por se julgar capaz de respeitar as opiniões alheias. Acontece que democracia era algo referente a ação política do cidadão na polis. E ação era ação, não era ficar pensando que pensa sobre coisas que ouviu dizer sem ter a menor noção de se aquilo sobre o que pensa pensar realmente se deu como nos contaram que se deu. Ação política era a soma de coisas como atitude, gesto, questionamento, comprometimento, militância, criatividade, ousadia. Ser cidadão era exercer seus direitos e deveres na constituição da polis.

Hoje ninguém é cidadão. E acham que exercer cidadania é dar opinião.

Francamente, reclamar não é ser cidadão. Achar que alguém deve ser responsável e não se sentir responsável por nada não é ser cidadão. Ficar na chorumela achando que o problema são os outros, os políticos são canalhas, todos roubam e são imorais é de uma incrível imoralidade. É imoral reclamar tanto tendo tantas possibilidades de atitude, de ação, de gesto, de tomada de posição. É imoral falar que estamos vivendo uma guerra sem jamais ter posto o pé numa guerra e sabendo o que é realmente viver numa guerra. E, principalmente, é muitíssimo imoral falar de moralidade e não ver quantas vezes se fura a fila, se molha a mão do flanelinha, do despachante e como cada um de nós, por nossa escolha, podemos estar alimentando a máquina onde a corrupção se engendra.

Cada um de nós, na medida das possibilidades e impossibilidades de cada um, é mais ou menos corrupto. Se sendo pequenos e tendo poucas oportunidades de sermos mais corruptos, mesmo assim, enganamos, tripudiamos, nos omitimos e somos corruptos, como é que podemos ter tanta certeza que se estivéssemos em posições de poder não nos corromperíamos ainda mais que estes a quem chamamos de corruptos?

Pessoalmente, evito encher minha boca e falar de moral. E apesar de ser opiniática como toda minha geração FAcebook-compartilhe-o-que-está-pensando, não me levo a sério. Só me levo a sério quando ponho a mão na massa, quando pesquiso, quando me comprometo, quando estou realmente por dentro daquilo sobre o que digo. No restante, sou alegre. O que já é bastante bom.

Bom Domingo.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Pela Eutanásia


Dia 14 de julho de 2011 minha tia que era minha mãe (ou minha mãe que era minha tia) se suicidou. Pulou do 15º andar após ter tido recentemente um diagnóstico de Alzheimer.
Há muitos anos atrás, um padrinho, marido da irmã dela, teve esta mesma doença, então ela sabia exatamente qual o processo do mal.

Minha mãe-tia sofria de insônia e desde quando eu tinha dezesseis anos ela dizia que ia se matar. Entretanto, apesar de ela sempre dizer que iria se suicidar, foi a confirmação do diagnóstico desta doença- ainda no início- e o fato dela saber que não poderia mais levar a vida independente que levava e que passaria a ser um pesado fardo para sua pequena família- sou sua filha única- que a levaram a este ato tão violento. Sem este diagnóstico, talvez ela passasse mais trinta anos dizendo que ia se matar e não se matando, de fato.
Gostaria que ela tivesse conversado mais e confiado mais em mim. Eu a trataria. E, sem dúvida, obedeceria a seus desejos. Quando a doença estivesse mais avançada, se ela ainda assim o desejasse, eu a levaria ao Uruguai onde a eutanásia é permitida. Não sei como a internaria por lá, mas com certeza, daria meus jeitos.

Como não pude fazer isso, escrevo este texto em homenagem a esta mulher corajosa, determinada e bela que ela sempre foi torcendo para que de alguma maneira isto colabore para mudanças fundamentais na nossa sociedade e em nossas leis.

Alzheimer é uma doença democrática. Dá em qualquer um. Pretos ou brancos. Ricos ou pobres. Ateus e religiosos. E os torna, a todos, não apenas incapazes como dependentes de terceiros. O custo é altíssimo, em todos os termos que se possa pensar: existencial, emocional e econômico. Famílias se desmantelam, vidas desmoronam e quando o paciente de Alzheimer finalmente falece, é um alívio para todos- verdade seja dita. A morte dela foi muito triste, mas também foi um alívio para todos.

Não falar sobre isso de nada adianta. Preconceito também nada adianta. Sejamos claros, firmes e sinceros. É preciso falar sobre coisas que não gostamos de falar, porque a quantidade de idosos suicidas é tamanha que é fundamental que se criem políticas públicas condizentes com a gravidade deste problema.

O assunto suicídio é tabu e quem auxilia a um suicida tem como pena de dois a seis anos de reclusão.

Procurei na internet informações sobre o assunto: há relativamente poucas, comparadas a enxurrada de dados sobre outros temas. A síntese do que encontrei, em termos de estatísticas, entretanto é a mesma: a maior taxa de suicídios cometidos no Brasil são de idosos. Os velhinhos se suicidam como moscas. Suicídios de idosos barram longe qualquer outro tipo de suicida.

A pergunta que faço a seguir é: destes idosos que cometem o suicídio, quantos são os que receberam um diagnóstico de doenças sem cura, irreversíveis até o momento, como o Alzheimer ou outras semelhantes? E mesmo no público restante, pessoas de outras faixas etárias que cometem o suicídio: quantos destes na verdade não foram pessoas que receberam um diagnóstico de alguma doença muito grave e sem possibilidades de melhoras?

Feitas estas questões, outra se impõe: quem, exceto pessoas com fortes crenças religiosas, já não imaginaram que diante de certas dores, infligidas por alguma doença ou sequelas de sinistros a vida não mais valeria a pena e a morte seria a única coisa bem vinda?

Citando o Alzheimer como exemplo, uma pessoa com esta doença não pode ser deixada só, mas tampouco deve ser internada num asilo- o que deixa familiares e responsáveis pelo doente numa sinuca de bico.

Nossas casas em geral não são construídas de modo a lidar com pacientes que eventualmente terão delírios e alucinações, não contamos com equipes de segurança que impeçam nossos idosos de fugirem, nossas casas não têm grades nas janelas para evitarem que os doentes saltem por elas, enfim, nas grandes cidades tudo concorre para tornar a vida de um doente deste tipo de mal algo extremamente difícil.

Por outro lado, o custo hoje de uma enfermeira profissional particular varia, mas o mínimo é de dois mil e trezentos reais- para uma que fique por doze horas diárias em cinco dias da semana. Para o acompanhamento permanente feito por uma profissional qualificada, é necessária uma equipe com no mínimo três. Só com a enfermagem o custo da doença chega fácil a seis mil e novecentos reais. Somados os remédios e a alimentação, não apenas do paciente, mas da própria enfermeira, teremos algo em torno de oito mil reais. Sem luxo algum, na maior simplicidade. Como neste orçamento não contei os gastos em obras necessárias para tornar uma casa comum num lugar que ofereça toda a segurança para um paciente com este tipo de diagnóstico, podemos imaginar que o custo total mensal desta doença não vá resultar em menos do que dez mil mensais.

Quem pode arcar com uma despesa destas? Como é que os pobres fazem quando seus familiares têm estes diagnósticos?

Ainda falando de como esta doença é cara, é característica deste tipo de paciente a instabilidade do quadro e que eles não se apercebam da gravidade de seu estado e resistam à colocação de enfermeiros para assisti-los. Então também é fato corriqueiro que a família seja obrigada a demitir profissionais por conta desta resistência, consequentemente também são comuns os processos judiciais de enfermeiros contra seus patrões particulares- o que faz com que surjam as agências e cooperativas que por um custo x se encarregam destes encargos sociais e oferecem seu quadro de funcionários. Estas agências lucram com este estado de coisas e cobram caro por seus serviços, naturalmente. Então, consequentemente, o custo do doente sobe e a insalubridade da situação atinge os píncaros do absurdo.

Hoje no Brasil, uma família brasileira gasta mais com uma doença irreversível e sem possibilidades de melhoras do que numa faculdade de um filho, porque uma faculdade pode ser deixada de lado ao passo que o familiar doente não. Famílias se arruínam se desentendem e se desfazem e o quadro permanece inalterado. Um diagnóstico de Alzheimer ou Parkinson é uma condenação não à morte, mas a vida dos mortos vivos, da ruína, da desgraça sem solução.

O correto seriam equipes multidisciplinares, com psicólogos, psiquiatras, cuidadoras e enfermeiras que dessem assistência às famílias dos doentes oferecidos pelo próprio Estado, mas isto não existe aqui. Com equipes multidisciplinares, o paciente poderia ser mantido em casa com segurança para si e para os seus. Não se correria o risco de esquecer-se de se colocar uma grade num apartamento que está no décimo quinto andar, porque estes detalhes seriam imediatamente vistos e resolvidos por estas equipes, que contariam com pedreiros e profissionais especializados em cada questão. E, de preferência, estes seriam serviços oferecidos gratuitamente, toda família teria direito a isto. Poderíamos cuidar de nossos velhos sem que para isto tivéssemos de esquecer nossos jovens.

Mas esta não é nossa realidade. Este é o sonho de muitos que lidam com esta doença infernal.

No atual estado de coisas, uma pessoa que se suicide por ter uma doença grave e irreversível torna-se automaticamente um fenômeno da ordem pública.
Seu cadáver será manipulado dentro das mesmas condições dos corpos de criminosos, mendigos, vítimas de acidentes e afins. O caso de suicídio é um caso de polícia, ficando a família da vítima sujeita aos mesmos tratos- e às mesmas suspeitas- que as famílias de criminosos.

No Instituto Médico Legal, um corpo que chegue às seis da manhã só é liberado no mínimo seis horas depois. No Rio, em determinados dias, há apenas um médico legista para tomar conta de todos os corpos que dão entrada no local. Os trâmites burocráticos são inúmeros e a justificativa de tal fato é que há muitos fraudadores que podem se beneficiar de alguma negligência cometida pelos especialistas encarregados do processo de exame e liberação dos corpos. Consequentemente, a família já naturalmente enlutada e abalada pela violência de um suicídio é obrigada a tomar parte de um dos mais sinistros espetáculos que se pode ver: a permanência no IML.

A eutanásia, a boa morte, é permitida em poucos lugares no mundo. Se a eutanásia fosse legalizada no Brasil, quantas destas pessoas poderiam ter sido mais bem acompanhadas e assistidas no seu momento final? Se houvesse um meio legal de se assinar um documento e depois ter sua morte previamente agendada e assistida por médicos e familiares, quantos destes suicidas não poderiam ter sido poupados deste ato tão desesperado e solitário?
Uma coisa é certa: o quadro que temos hoje é caótico, cruel e ineficiente. A saúde pública não dá conta, a saúde privada também não.

E como seria diferente? Não podemos nos esquecer de que o nosso país, até poucas décadas atrás, tinha um altíssimo índice de analfabetismo e, portanto, até bem pouco tempo atrás nosso estado não dava conta nem dos que estavam com saúde, que dirá de seus doentes.
Mas estamos em momentos de mudança. Nossas leis estão sendo revistas, a condição de vida de todos está melhorando, nosso país está se tornando cada vez mais próspero e mais estável. Não seria hora de pararmos com a hipocrisia e lidarmos com sinceridade na questão da eutanásia ser finalmente legalizada no Brasil?

Claro que gostaria que a cura do Alzheimer fosse encontrada. Mas por ora não foi. Então, por enquanto, o melhor para todos nós seria que a eutanásia fosse permitida. Ou sabe-se Deus quantos velhinhos mais veremos se suicidando por aí.


sexta-feira, 15 de abril de 2011

Feliz Fim de Semana


Feliz fim de semana
Feliz mês
Feliz páscoa
Feliz tudo
Felicidade pode ser apenas uma idéia
mas sua prática, a alegria, nunca é demais

Nunca é demais abraçar o filho
falar com os amigos
ter paciência com a mãe
afinal, antes de tudo, toda mulher é louca
para parir é preciso uma dose de insanidade múltipla
mas é preciso mais loucura ainda
para simplesmente sair da cama todos os dias
e ser capaz de dar bom dia
ao nosso rosto no espelho
cada vez mais velhinho
novas marquinhas aparecendo
e nossas melhores lembranças desaparecendo

Nunca é demais a poesia
por isso mesmo
paciência com os maus poetas
roteiristas medíocres atores e atrizes incompetentes
pintores que nada pintam fotógrafos patetas
enfim tolerância
à toda esta cambada de desocupados que às vezes nos fazem sorrir ou chorar
por simples emoções

Sim, é preciso ir ao dentista uma vez por ano
ao ginecologista duas
tal como é preciso ser gentil com nosso gerente bancário
nossa diarista nosso porteiro
sempre
mas antes de tudo
é muito muito muito importante
ter carinho com nosso corpo
alongar nossos músculos
e se permitir respirar
tão fundo quanto o mais fundo dos profundos oceanos
ser- sem esperar nada de si
sem se julgar
sem se atormentar
apenas ser
uma exótica planta
nos jardins do universo

Viver é a única coisa fundamental na vida.

Que muita vida nos possua sempre
e a cada instante sem descanso
de maneira que quando finalmente a morte acontecer
não faça a menor diferença quantos irão ao nosso enterro
quantos nos insultarão ou quantos nos sinceramente prantearão
se deixaremos muitos ou poucos bens
não é isso que fará diferença
O que faz diferença
é o aqui
é o agora
tudo o mais é fumacinha
ilusão de nossas cabecinhas neuróticas
acostumadas a viver num mundo de instituições
mais bestas que a mais besta besta
que ao menos está sossegada no seu pasto
sem fazer mal a ninguém

sábado, 9 de abril de 2011

o quadro diante do beijo na boca


Eis que passeando pela vida
chegamos à arte
viver é arte

o olhar artístico é a arte das sinapses

tiramos muito peso das costas
a cada instante que nos permitimos
ter prazer
viver bem
ficarmos contentes com tudo o que é bom

dois mil anos de civilização judaico cristã não valem
um único beijo na boca

as tintas que compõem a Gioconda
não são a própria Gioconda

dirás: a tela sobreviveu à mulher
trouxe-a para a eternidade

e eu então te mandarei ouvir os pássaros
e seguir a rota dos avezagões do mar
não há eternidade que valha
uma única vida
a grande poesia é
viver a vida
e deixar-se ir
coisa que tão bem faz qualquer gaivota

hoje acordei mar

domingo, 3 de abril de 2011

Se Me Perguntares


Por que não amar?

Amo.

A tudo o que é amável.

Amar não gasta.

Amar multiplica.

O que consome é a vaidade.

O que tiraniza é a doença.

O que divide é o medo.

Amor não é vaidade. Não é doença. Não é medo.

Amar é dar linha ao horizonte

e asas ao coração.

Amar é achar graça no teu nariz torto

e perdoar sempre perdoar

a tua palavra tão azeda.

Amar se faz

Não se promete nem se pensa.

Amar é.

Abismo sobre abismo.

Um nos olhos do outro.

Intransponíveis e mansos.

Confusos e lúcidos

Presentes.

Generosos.

Tudo o mais
amar não é

e em não sendo
há de ser uma outra coisa

mas se me perguntas
minha resposta ao amor é sempre sim.

Cyn-thia.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Sobre As Belas Paisagens e eu

Não gosto de olhar paisagens por muito tempo. O azul é lindo, as pedras são lindas, as montanhas são lindas, o mar é lindo, as praias são lindas: mas além de serem lindas, não acontece nada.

Sim, viajo milhões de quilômetros em busca destas paisagens ideais, maravilhosas, dignas de poesias. Mas depois de olhá-las por uns cinco minutos, já presto atenção em outras coisas. Sou uma herege por natureza.

Se ao menos as pedras abanassem o rabo, se as montanhas sorrissem para nós, se os céus chorassem de verdade, se o mar dançasse, se as praias falassem talvez conseguisse ficar por mais de dez minutos olhando.

Penso que talvez as pedras abanem o rabo, as montanhas sorriam, os céus chorem, o mar dance e as praias falem- se justamente os olharmos por séculos. Talvez algumas horas bastem, mas para isso teria eu mesma de ser pedra, céu, mar ou praia. Na pior das hipóteses, uma árvore. Ficar parada por horas só olhando: é coisa de árvore.

Um iogue é quase uma árvore. Eu sou gente. Logo, me distraio.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Mais, mais, mais

É preciso algum dia transgredir alguma lei. É preciso surpreender a si próprio ao menos uma vez na vida. Ou então, tentar os esportes radicais, ler Nietzsche ao pé da letra ou Neruda ao pé da alcova, qualquer coisa que dê ânimo ao eterno retorno das contas a pagar, a fome na hora do almoço, o lanche no jantar, o sexo cheio de pudores e sem odor nenhum, a indefectível fila na hora do rush do metrô, o eterno aniversário dos dias sem sol, das noites sem lua.

É preciso mais do que mágoas para fazer rolarem as águas que nos levam, velas grávidas de vento. É fundamental atravessar o deserto da vaidade para se chegar ao oásis da beatitude. É sempre preciso mais para se multiplicar conquistas e chegar a potência do desvario. Eu que me rio, ao fim, da mediocridade dos incompetentes, da inapetência dos burgueses, antes de tudo, uns chatos.

Salve a odisséia.