domingo, 8 de novembro de 2009

Domingo


Aquela carta nunca chegou. Jamais certas palavras. A vida tem algo de trem, segue cadência constante e nos leva para onde quiser. É preciso ver a vida acompanhada de música. Na música é preciso flautas e saxofones lânguidos. Colorir nossas lágrimas com algumas notas de puro jazz. Os recados ficam cada vez mais curtos. Ou nós, cada vez mais surdos.

sábado, 10 de outubro de 2009

Zelador


É bastante claro:
o zelador zela a dor
varre
passa o pano de chão
mal olha nossos olhos
sabe ser invisível
para nosso olhar cego
o burburinho das salas
o farfanhar dos papéis

O que fazer?
A dor é surda
o homem com seu rodo
torna suportável o cheiro
e os pés descalços sempre
pisam sujos o chão limpo
a custo das horas
eternidades que cabem
no círculo do relógio

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Amor e Dependência III- Casamento


Casar com alguém que se ama pode ser maravilhoso: contanto que ninguém esteja alienado dos fatos que precedem a própria instituição do casamento. Casar não é apenas amar um ao outro ou conviver debaixo do mesmo teto dividindo responsabilidades.

Quando digitamos “o que é casamento” no Google encontramos nas primeiras páginas os seguintes títulos: “O Significado das Flores, Flores e Decoração no Casamento”, “Qual o significado do casamento para cada um de vocês?”, “Vida Social: Casamento”, “Significado da aliança de casamento, arroz, bolo, vestido, véu”, “O Significado das Bodas do Casamento”. O casamento é, numa vista rápida através do Google, antes de tudo um evento social coroado por flores, bolos, arroz jogado aos noivos e vestidos de casamento de gosto duvidoso- pelo que bem indicam as próprias páginas listadas.

Ainda tendo o Google em mente, nas respostas individuais sobre o significado do casamento, a melhor resposta considerada pelo autor da pergunta foi: “acredito na felicidade, casamento na igreja é apenas uma das tantas formalidades que a sociedade impõe e casamento no civil garante a salvaguarda dos direitos (no final do casamento toma o que é teu e me dá o que é meu), o importante é ser feliz e sem burocracias”.

Vale notar, que no nosso país, o direito de quem coabita- sem vínculos formais de casamento- é o mesmo de quem casa formalmente, logo naturalmente os direitos já estão salvaguardados pela própria constituição nacional. A maioria das pessoas sequer tem noção dos seus direitos e, entretanto fala-se em direitos e salvaguarda de direitos.

Já que os direitos naturais do cidadão e cidadã brasileira estão salvaguardados pela própria constituição, afinal, que garantia é esta que só o casamento traz?

No site The Heritage Foundation, há pesquisas sobre o aumento de abusos sexuais infantis nos Estados Unidos desde 1980. Numa pesquisa britânica feita pelo autor Robert Whelan, é afirmado que as crianças cujos pais biológicos estão casados estão mais seguras neste quesito do que as crianças cujos pais se separaram, especialmente quando as mães estão vivendo com um novo cônjuge.

Não há notícias, por outro lado, de nenhuma pesquisa fazendo a comparação entre o atual quadro de crianças filhas de pais separados e as crianças de antigamente, filhas de pais que se mantinham juntos a qualquer preço, muitas vezes num clima de violência semelhante. Entretanto, aqui eu pergunto: não seria este um quesito onde concretamente há algum benefício no casamento?

Mas se a maioria dos casais se separa, com os filhos ainda pequenos, qual seria então o tão falado benefício do casamento?

Casar é, além de um evento social, um projeto que tende a ter um fim- geralmente anterior ao crescimento dos filhos. Ao se pensar o casamento, é fundamental que se tenha em mente que o amor que une um casal costuma ser passageiro e que, após o casamento, costuma haver a separação. Dar de antemão as melhores soluções possíveis ao problema mais do que provável de uma futura separação seria uma das formas mais racionais de se encarar o casamento.

Mas será que podemos viver de verdade equacionando os problemas que advirão de nossa morte, esta ainda mais garantida do que as separações e perdas que temos pelo caminho?

Ninguém casa pensando nesta estatística tal como ninguém vive pensando no fato mais do que garantido de que um dia morrerá- tirante algum hipocondríaco mais severo.

Talvez o primeiro benefício do casamento seja o mais clássico e o mais desejável de todos: quem casa economiza o tempo e o dinheiro do deslocamento que faria todos os dias a casa de seu (sua) parceiro (a).

Casar sai mais barato que viver separado. Mas é melhor não pensarmos no preço dos antidepressivos que serão consumidos ao longo do casamento, exatamente porque este existe.

Complica demais e não quero ficar conhecida como a figura que desestimula os casamentos. Não e não.

Casar é formidável. Ponto final e definitivo.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Tua Foto na Minha Estante


Botei uma música, só em casa, cozinhei para mim, dancei e pensei. Você, minha amiga está ali, no mesmo lugar. Uma foto ali no móvel da sala. A foto é do passado, mas você está aqui, no meu coração. Entretanto, eu não estou no seu.

Amigo é, depois dos filhos, a coisa que mais levo a sério. Para cortar relações com alguém de quem me considero amiga, há de acontecer algo muito sério. Você cortou relações comigo. Para você algo muito sério deve ter acontecido.

Penso que está na hora de tirar sua foto do móvel. Guardar junto ao álbum. Não ver todos os dias este rosto que adoro, mas que sei que talvez nunca reveja. Coisa estranha. Tantas pessoas a quem desgosto e que acredito que reverei. Você, justamente você, companheira de tantas viagens, amiga das horas difíceis, você eu acho que não reverei jamais, salvo algum estranho acaso.

Você nunca veio na minha casa nova e agora estou prestes a mudar. Quantas vezes fui à sua? Mas este jogo é o triste jogo do quantas vai quantas vem do fim.

Eu poderia simplesmente tirar a sua foto da minha estante. Para quê escrever para quem não atende ao telefone, não responde emails e mora há tantos quilômetros de mim? Quando passei mal ao longo de todos estes anos você não estava ao meu lado. Quando me desesperei e quase enlouqueci, você nem sequer ficou sabendo.

Poderia pensar que você jamais foi minha amiga. Mas isso também é mentira. É provavelmente a mesma mentira que você conta para você mesma, quando tão facilmente me descartou porque não cumpri a alguma expectativa besta que você resolveu ter de mim.

Na vida, volta e meia acho que a gente foi muito mais longe do que deveria. Não só eu, mas a humanidade inteira, com tantas máquinas, tantos engenhosos inventos que não servem para a maioria das pessoas e para a maioria das coisas que realmente importam. Não há máquina que dê novamente vida aqueles que amamos, quando muito, elas postergam o sofrimento, mas não trazem vida novamente.

No fim, talvez tudo, toda a nossa vida, tudo o que fizemos, a gente pense que não foi mais do que um excesso, algo para se jogar no lixo.

Jogaremos nosso coração no lixo? Jogaremos nossas melhores lembranças no lixo? Perguntas sem respostas para vidas igualmente sem respostas.

Não vou te fazer perder mais tempo. Aliás, talvez você nem sequer tenha lido nada. Eu não consigo não ler o que me escrevem, mas eu sou poeta, sou aquela que se interessa por ruínas, rastos, restos, por tudo o que nos inscreve aleatoriamente neste mundo cada vez menor.

Será que só deveria andar com poetas? Poetas são tão chatos. Bons para nos inspirar, muito aborrecidos para se conviver.

Talvez você tenha razão em não atender mais meus telefonemas. Você não é poeta. Aliás, o que você é no momento? Dentre as várias coisas que gosto em você é você já ter sido secretária, contorcionista de circo, dona de cachorros, de gatos, dona de casa, dona de loja, dona de si. Tantas coisas numa só pessoa.

Você não me atende, mas eu tenho sua foto na minha estante, conheço sua voz de cor e posso muitas vezes adivinhar o que você diria se a gente estivesse conversando.

Você estará sempre comigo. Não é uma promessa. É um fato. Como estarão comigo todos aqueles a quem dou meu coração e chamo de amigos. Seja feliz, ou melhor, seja você mesma. Todos os que de ti se aproximarem saberão, como eu, que você é esta pessoa rara, esta pessoa imprevisível- que pode inclusive abandoná-los sem aviso, sem conversa, sem melodrama.

Você pode ir para o raio que a parta porque tenho seu retrato. E de qualquer maneira, não há raio que te parta. Você é quem parte os raios.

sábado, 22 de agosto de 2009

Amor e Dependência II


II. Descobrir qual é o gatilho desta autonomia feminina é fruto de um trabalho de auto-conscientização permanente. Muitas vezes é descobrir um trabalho onde a mulher se sinta valorizada ou que dele obtenha prazer ao realizá-lo. Outras são botar a raiva para fora, expressar a raiva para aqueles que a provocam.

A raiva é um sentimento quente e o calor, tal como o fogo, tem o poder de transformar aquilo que toca. Quem expressa sua raiva, quem dá voz às palavras que ficam engasgadas ou grita sua fúria sem pudor, retorna desta experiência purificado, centrado, pacificado.

Mas não são muitos os parceiros que aceitam que suas mulheres expressem sua raiva. A coisa pode acabar com a mulher sendo mais uma vez vítima de violência doméstica. Talvez por isso mesmo sejam as mulheres consideradas como seres vingativos “por natureza”.

Será que haveríamos de ser vingativas se tivéssemos a força bruta equivalente aos homens e se pudéssemos revidar os golpes físicos que deles podemos sofrer se expressássemos nossa raiva tal como a sentimos? Por que haveríamos de agir de uma forma tão tortuosa e oblíqua como a vingança se pudéssemos simplesmente dar uma surra no marido ou namorado traidor- como eles costumavam fazer até bem pouco tempo atrás conosco, quando éramos nós que os traíamos?

Considero que o provérbio basco que diz que ser feliz é a melhor vingança realmente a melhor forma de revide às situações limites onde nos vemos abandonadas, trocadas, traídas, humilhadas, aviltadas à condição de meros objetos descartáveis.

Mas por outro lado, como ser feliz quando muitas vezes já perdemos nossos escassos anos de juventude ao lado de um homem que nos abandonou?

Afinal, mesmo a medicina e a cosmética tendo evoluído muito, os recursos que são disponíveis no mercado não têm um custo acessível à maioria das mulheres, afora o fato simples de que, mesmo com todos estes recursos, ainda não podemos refazer nossas vidas e construir uma nova família tal como os homens o fazem.

Com todos os recursos da medicina, não é possível para uma mulher gerar e conceber um filho após os 50 anos e mesmo aos 40 isto nos dias de hoje ainda é considerado como gravidez de risco.

Eis porque tantas mulheres que não querem simplesmente assumir a postura passiva de vítimas se dedicam a arquitetar incríveis vinganças para assim devolver aos homens o mal causado por estes.

Dentre as vinganças mais comuns estão a de arrumar um amante. Esta vingança raramente satisfaz à mulher porque se ela mesma não deseja outro homem, todo o evento se torna uma atuação, um teatro, onde tanto a mulher quanto o amante saem frustrados. Mesmo um homem ciumento, quando já decidiu abandonar sua mulher em favor da amante já não sente mais ciúmes.

Homens em geral não costumam abrir mão de seu casamento e quando tomam uma decisão como esta, de abandonar a esposa e talvez a família que com ela constituiu, isto só se dá porque o evento passou do limite do tolerável para o homem.

Por isso, arrumar outro homem como vingança geralmente não dá em nada, apenas em mais frustração para a mulher. Só há chance disto dar certo quando a mulher sinceramente se sente atraída pelo amante. Mas aí, ela já está feliz e não pensa mais em vingança alguma. É o novo amor que para ela se apresentou.

Arquitetar uma vingança perfeita, que faça o homem sofrer como a mulher abandonada, sem que esta sofra as punições da lei, é uma arte. Na comédia O Clube das Desquitadas, Bete Midler, Diane Keaton e Goldie Hawn encarnam as mulheres traídas/abandonadas e dão um show no assunto vingança perfeita. A frase pronunciada por Ivana Trump “Não peguem apenas, peguem tudo!” é o grande mantra destas personagens durante o hilário filme.

Conforme disse antes, a raiva é como o fogo, um elemento que transforma a tudo em algo diferente. A vingança é a raiva atuada de forma consciente e descobrir os pontos fracos de um homem com quem se conviveu por muito tempo não é uma tarefa tão difícil assim.

Pessoalmente, acho que bolar uma vingança inteligente, que não fira fisicamente nem incapacite ninguém para prosseguir com sua vida, algo bem mais digno do que passar o resto da vida sendo “a pobrezinha da Fulana”. Quem escolhe se resignar ao azar não é apenas traído uma vez. São milhares de vezes traídos. É traído a cada vez que se pensa como vítima, é traído a cada vez que recebe olhares compadecidos, é traída para todo o sempre, enquanto a memória do evento permanece.

Já o traído que se vinga de forma inteligente pode até se dar ao luxo de perdoar e, finalmente, esquecer o mal sofrido. Simplesmente porque o que realmente importa no fim das contas é ser feliz.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Amor e Dependência I


Dentre os que se desesperam diante da iminência da perda de um amor, estão aqueles que dependem daquele que pensam amar.

Quem imagina que só é possível viver se o outro estiver ao seu lado, na maioria das vezes é simplesmente dependente do outro. Depender é muito diferente de amar, mas as práticas são semelhantes.

Quem ama sofre por perder um amor, sem dúvida. Como haveria de ser diferente, já que o amor romântico é uma das formas de amor mais prazerosas e mais satisfatórias? Quem ama e perde um amor irá sofrer e de acordo com a intensidade deste sentimento, este sofrimento será maior. Mas quem ama e não depende do outro sabe que é capaz de viver sem ele. Mesmo quando está no fundo do poço, no auge da tristeza, está ciente de sua autonomia existencial.

Já quem depende do outro, como considera que sua vida por esta ou aquela razão está atrelada ao outro, não se sente capaz de viver sem este. Das dependências, talvez a menos nefasta seja a financeira. Um bom advogado pode dar excelentes idéias de como tirar proveito de uma separação ou, se não houver jeito, arrumar um novo trabalho ou mudar o estilo de vida resolve.

As piores dependências são justamente aquelas que a pessoa não sabe exatamente por que depende do outro, simplesmente só está tranqüila se está junto do outro- ou se imagina que está junto ao outro.

As dependências afetivo-existenciais são as mais complicadas de serem solucionadas até porque a cultura é cheia de filmes e livros que encorajam especialmente às mulheres para que só se sintam felizes quando acompanhadas por um homem.

Arrumar um namorado/marido vem sendo a meta universal da grande maioria das mulheres das mais diversas culturas e das mais diversas origens sociais ao longo de séculos no mundo inteiro. Não importa o homem, não importa a quê preço: tudo é válido para que ao fim a mulher tenha um homem para chamar de seu.

A estratégia para se trabalhar isso é antes de mais nada reconhecer que isto está ocorrendo. Não há como se mobilizar toda a força que é necessária a uma mudança deste calibre sem a consciência de que se está diante de um problema.

Em seguida, se possível, perceber quais as origens deste comportamento. Conhecer as origens de um comportamento evita que a mulher repita em novas circunstâncias de vida este mesmo padrão.

Por fim, reajustar a mulher aos seus próprios desejos, impulsos e pensamentos através de múltiplos engajamentos com atividades que a desafiem e que lhe tragam prazer.

sábado, 15 de agosto de 2009

O Vizinho e seu Violino


Ouço um violoncelo. Pelo basculante de meu banheiro, chega o som. Não é um cd. É alguém tocando sozinho.

Conheço todos os meus vizinhos.

Quem será este que anima minha solidão com um som tão belo?

Será jovem, será velho? Será um homem ou uma mulher?

Certamente é um profissional. Se for um amador, tocando tão bem, é um poeta.

Ouvi sua voz neste instante. Ao terminar um dos trechos da música que tocava, falou para alguém “Então acabou”. Portanto, está mostrando para alguém. O que? Não sei. Deve ser para só uma pessoa, até porque até agora não ouvi nenhuma voz além da dele, o celista. Talvez seja sua amante. Ou por que ele estaria tocando de forma tão sentida?

Ela deve estar como eu: extática. Quase sem respirar para que som da respiração não atrapalhe.

As notas se sucedem. Uma cachoeira de sons. Uma buzina lá fora desafina a harmonia.

Lembro de um jovem amigo com quem conversei ontem. Ele está tocando violino há três anos.

Tenho vontade de dizer pra ele que um homem tocando bem um instrumento é um Deus. Alça-se às estrelas e a uma categoria dos que estão além deste tempo, talvez deste mundo. Embora seja impossível fazer música fora deste mundo.

Os que trazem o belo para nós jamais deveriam adoecer ou morrer. Deveriam pairar incorpóreos sobre nós como as notas que extraem de seus instrumentos.

Vim ao banheiro para tomar banho, mas desisti. Escuto com devoção.

A beleza nos tira as tensões. Tanto é assim que me recostei aqui no assento da privada- donde ouço este meu concerto matinal. Sem querer, por relaxar as costas, acionei a descarga com o peso do corpo.

Não quero perder uma só nota. Reteso meu corpo para que as costas se alinhem rapidamente e o silêncio invade novamente o banheiro.

Ele, o músico, diz agora “Está errado” e sinto que houve alguma dificuldade na execução deste trecho.

Um artesão. Fazendo com que seus dedos se tornem cada vez mais precisos e as notas cada vez mais limpas. O que move alguém a fazer algo assim, de forma tão exata num mundo onde ninguém mais se importa com nada?

Sim, caro vizinho desconhecido, toque. Seja o Deus, seja você mesmo.

O telefone toca.

Contrariada vou atendê-lo. Volto correndo. A música não parou. E eu poderia ouvi-la até o fim dos meus dias. Fiel a ela como não fui fiel a nada do que fiz até hoje.

O telefone tocou novamente.

Já estou inquieta. Decido que vou tomar banho.

E a música? E a fidelidade imaginada eterna?

Penso aquilo que costumo pensar ao abandonar às coisas que me extasiam. Hei de ouvi-la novamente.

Mas o que sei eu sobre o futuro? O casal de passarinhos que se mudou definitivamente para o meu ar condicionado voltou. Mas as coisas belas não são sempre os passarinhos vadios da minha janela. E esta música, jamais a ouvi antes.

Muitas coisas belas eu as deixei e nunca mais as vi.

Ocorre-me aplaudi-lo.

Melhor não. O que ele faz, a forma como o faz, parece bastá-lo. E já deve ter ouvido muitos aplausos na vida- certamente é um profissional. Algum músico visitando alguém, de passagem por aqui.

Custa-me a crer que alguém, um simples mortal, toque assim, tão divinamente.

Agradeço em silêncio pela oportunidade de estar ali, ouvindo algo tão bonito. E vou tomar meu banho. Sou moderna demais para eternidades. Sou ansiosa demais para a contemplação.

Provavelmente sempre que entrar no banheiro daqui pra frente vou torcer para que novamente o vizinho esteja tocando.

O desejo de eternidade vem para o papel, depois para o blog. Neste mundo sem chão, faço a gravação deste momento.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Entre o Paraiso e o Abismo


Vesti meu terno, botei meu chapéu, peguei minha pasta. Como faço todos os dias, fervi a água, botei o café pra passar. Escovei meus dentes. Como todos os dias, fui trabalhar.


No meio do caminho, ouvi uma música maravilhosa. Não sabia de onde ela vinha. Olhei os carros que passavam procurando donde vinha aquele som. Não era de nenhum carro. Olhei em volta. Nenhum alto falante, nada.


De repente vi um pássaro com cores que jamais tinha visto. Logo depois outro. E mais outro. Eram tão belos como devem ser os pássaros do paraíso. E eis que a música vinha do céu.


Sem pensar em nada, entrei num prédio, o mais alto que vi, subi no elevador. No último andar, saltei. Subi uma escada. Lá em cima, vi aqueles pássaros, aquele céu. E fui em direção a eles.


Vi que aquilo era o paraíso.


Que importava se meus passos me levassem para o abismo? Que me importava se meu corpo não se libertasse junto a minha alma? Se agora eu sabia o que era o paraíso, nada mais me importava.


Simplesmente, estou lá. Em lugar algum. No canto do céu.
Em homenagem ao Nowhere Man

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Pássaros


Um pássaro desesperado na gaiola é idêntico ao coração quando diante de uma dor insuportável. Estar tão angustiado que respirar o ar seria igual a respirar água nos afoga- faz parte das metáforas que ajudam que um comunique ao outro aquilo que sente. Mas as palavras não passam nem perto do sufoco, apenas acariciam a superfície sólida e enigmática da dor.

Simplesmente não se explica. O desejo, a dor, a beleza, o milagre, a poesia. Na ponta da asa, o vôo é cego e o mergulho é um salto na imensidão.

Os que entendem, sorriem o pequeno sorriso, tão sério e tão rasgado da compreensão. Os que não entendem a maioria talvez possam falar - ou silenciar- que diferença faz? Não muda o fato de que a maioria não ousa, não arrisca, mal respira para que jamais seja confrontada com a incrível dor de viver.

Seja como for, felizmente faço parte do grupo de pessoas que não precisa de uma cama de pregos para lembrar que o corpo existe e que ele tem limites difíceis de transpor. Que todo limite que existe é feito para ser conhecido e que cada célula do nosso ser clama pelo impossível: estar tão viva que a morte não seja nada além do fim.

O fim não espera, o fim acontece. E acontece de tal forma que nunca sabemos que ele finalmente foi. Foi o quê? Foi quando? Jamais sabemos. Os outros sim, eles saberão. Mas nós? Só poderemos suspeitar. A morte é nossa vizinha suspeita, de quem controlamos os passos, mas ela sempre está onde não imaginamos. Nisso, de estar onde não se imagina a morte não é muito diferente da vida. Amigas inseparáveis as duas. Uma só existe, porque existe a outra.

domingo, 21 de junho de 2009

Dieta de Solidão


1 chocolate quente, 1 pastel de damasco com ricota, 1 torta diet de cheesecake de amora, 6 amanditas, 1 bombom de avelã, 1 bombom de café, horas e horas de conversas onde todo mundo finge ser inteligente, 5 telefonemas para ausentes e um filme da mostra do panorama francês.

No panorama do cinema francês a solidão tupiniquim não aparece porque a solidão francesa não tem bom humor. A nossa tem. Até nosso desespero tem graça.

Na tela muitos olhos azuis. Nas capas de revista também. Hitler ganhou a guerra, basta ver o salário das top models louras, legitimamente arianas.
Invente a sua.

domingo, 7 de junho de 2009

Caia 7 vezes, levante 8


Tem coisas que não acabam, param. Esta frase da peça vale a peça inteira. Porque há histórias que não terminam, porém subitamente desertam. Porque a vida estanca, a vida pára, sem aviso, sem uma única dor que dê o sinal. E resta a nós assistirmos o desenrolar da vida, como se nada tivesse acontecido. Desertar: o verbo mais exato para o deserto que resta quando certo alguém se vai.

Pequenas coisas. Asas de um pernilongo. O rio que leva tudo para o mar, não leva nossas lembranças. A cidade cresce, sai do chão e os possantes automóveis passam sempre raspando pelo desatento pedestre. Se pé desse, o pedestre voava. E ele voa de vez em quando, enquanto zunem seus ouvidos com a freada brusca.

Caia sete vezes, levante oito. Assim disse um peregrino urbano, um desses quinhentos mil seres que habitam os mais diversos pontos do globo. Abandona tudo e vai, porque sabe que ir é o destino do ser e repetir a sua derrota.

A gente diz sim, como quem oferece um diamante. O outro recebe e vê uma chupeta. O outro debocha. Raramente vê no diamante o brilho, que é o que realmente interessa da dureza cintilante do minério. A gente se faz palavra porque nos construímos pontes. Queremos tocar o intocável, ver o invisível, lembrar do imemorável, conviver com o impossível. Plantar sementes e colher estrelas. Assim somos nós, aqueles que cantamos os abismos.

Com uma pequena ajuda sua, eis que vôo e me torno a estrela em rota de colisão pela qual tanto esperavas. Sem você, por aqui fico, por aqui escondo as sementes de estrelas bem no fundo do meu poço sem fundo, meus olhos escuros, meus dotes escusos. Silêncio. E música. Vago cheiro de gerânios e jasmins. A terra e a doçura do dia. A quietude da noite. O caleidoscópio de mil pequenas vidas.

A menina com diamantes olha para você pelo buraco da fechadura. A bossa nova que canta os Beatles, Rita Lee. Nossa vida sempre cabe numa canção, ou em algumas. Mas o filme é sempre um só. Cada um tem o seu, único, insubstituível.

Meu olho foca a toca da foca. Coisa sem sentido, por certo. Mas o que é fazer sentido quando tudo é simples caos e dança?

Dou meu coração. E corôo um ato falho. Confio em você.

sábado, 30 de maio de 2009

NÃO LEIA A BULA


Ah, as maravilhas da modernidade... Você toma remédio para emagrecer, para engordar, para dormir, desentristecer, acordar, ter ânimo, não pegar gripe, ter tesão, ter memória, não ter rugas. Um remedinho para cada ocasião vendido a preços módicos em qualquer farmácia.

Coisa linda a modernidade... Um dia teremos remédios para desemburrecer, para deixar os neuroninhos mais espertos, remédios para desenfear, desenvelhecer, até um remédio para quem precisa urgente de um pouco de simpatia e nunca tentou nem dar um sorriso. Haverá remédio para tudo.

Só um remédio não foi criado até hoje e desconfio que jamais haja jeito para isto: remédio para não deixar bulas tão sinistras.

Quem lê bula até de vitamina C desiste da vitamina porque não há remedinho destes que não traga um bando de contra-indicações sinistras. Bando de palavra feia: cefaléia, tremor, tontura, agitação, ansiedade, boca seca, tumor no sistema nervoso central, reações anafiláticas, convulsões, hipertensão, taquicardia, substâncias inibidoras do metabolismo do citocromo. Caraca. Substâncias inibidoras do metabolismo do citocromo? Morri só de ler.

Saudades dos tempos que só tomávamos remédios quando estávamos com febre.

Saudades dos chás da vovó. Saudades do biscoitinho creamcracker. Saudades de ficar o dia todo na cama, matar aula, minha mãe me olhar preocupada e colocar um termômetro.

As salvadoras primeiras horas da manhã que determinavam que hoje eu já estava boa e pronta pra próxima. Ir pelo caminho do colégio cantando.

Saudades dos tempos que alguém lia a bula no meu lugar- ou talvez nem lesse. Entregar ao laboratório Roche à nossa vida sem medo que o laboratório Roche pudesse estar colocando substâncias a mais ou a menos que pudessem comprometer o remédio ou nossa vida.

Saudades dos tempos que as coisas funcionavam e não precisavam de PROCON. Bastava que o médico soubesse o que havia no remédio porque confiávamos nos médicos, da mesma forma que confiávamos nos laboratórios. E se nada desse certo, iríamos para o hospital e ninguém era barrado no hospital. Não haviam filas imensas, apenas pequenas filas. E se fosse emergência, em poucos minutos você era atendido sem pagar um tostão.

Quem diria: hoje o passado é utopia.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

As Relações Amorosas e o Reino dos Guarda-Chuvas


De todas as relações, as ditas amorosas são as mais estranhas.

Como o nome diz, uma relação é algo que acontece entre duas pessoas.

O que acontece com apenas uma pessoa não é uma relação. Por mais “pessoas” que existam dentro de apenas uma.

Não se começa uma relação sem algo que aproxime duas pessoas. No caso das relações amorosas seja a atração física, intelectual ou até financeira, algo dá impulso à relação.

Carinho, ternura, simpatia, gentileza, respeito são alguns dos muitos elementos que coroam e marcam o território do acontecimento amoroso.

Entretanto, apesar de mexer com os elementos mais profundos que existam numa pessoa, a relação amorosa para terminar basta que um o deseje.

Se um o desejar, aquela pessoa por quem se fantasiou uma vida inteira de mil possibilidades desaparece e sem deixar rastros, cria um rombo onde antes existissem expectativas. Os sonhos podem ser reduzidos a pó com menos do que um telefonema.

Diremos então que as relações são muito menos amorosas do que odiosas. Porque o ódio é fiel, ele quer manter sob sua guarda o objeto de seu rancor. Já o amor, para onde vai o amado que não ama mais? Que fim toma aquele que não deixa atrás de si nem uma pegada, que muitas vezes muda o número do seu telefone, bloqueia sua conta, corta o contato da forma mais radical possível, por simplesmente não querer saber nem da mais remota dor que possa ter plantado no outro?

O destino dos que decidem acabar com o acontecimento que costumamos chamar de amor é o reino encantado dos guarda-chuvas perdidos.

Qualquer um pode encontrar um guarda-chuva perdido, exceto seu dono. Um novo amor está ali, a espreita daquele que termina o evento amoroso: mas jamais será aquele a quem ele abandonou que será o eleito das novas ilusões a serem estas também perdidas, num futuro incerto que beira a última palavra e o próximo gesto definitivos.

Por que terminam as relações amorosas? Simples. Porque as relações amorosas dependem de dois para começarem, mas dependem apenas de um para terminarem.

Os guarda-chuvas, no reino dos guarda-chuvas, passam todo o tempo a voar. E só precisam de um pouco de vento e chuva para desaparecerem no espaço.

domingo, 17 de maio de 2009

ALEGRESCÊNCIA


17 anos, 1,88, olhos cor de mel e cabelos castanhos clarinhos. Branquinho pra chuchu (mas chuchu é verde, dirão alguns, seu filho é verde?), na praia protetor 60 nem sempre faz efeito. O bichinho (que bichinho, cacete, o cara não tem 1,88?) canta no banheiro. Faz piada. Assiste futebol no domingo desde a hora que acorda até a que vai dormir. Um Globo Esporte da vida embala seus sonhos.

Sonho da criatura? AHA! Um barzinho em São Januário, porque ele é Vasco. São nisso que se limitam as ambições do meu pequenote (mulher alucinada, o cara tem uma pata 44!). Mas e o Vasco que desceu pra segunda divisão! Até ele ter idade pra ter barzinho já acabou o Vasco. Rezo pra que o Vasco saia da 2ª porque se não vou ter um filho desenxabido em casa.

Na noite de ontem ele quebrou sua cama, que chegou outro dia aqui em casa, está ainda com os metais brilhando. Mas ele já a quebrou. Acho que não vou comprar outra. Muitas foram quebradas da mesma forma. Melhor ir pro chão. Ele que arrume uma cama quando tiver idade pra ser civilizado com as camas.

Anteontem fui numa festa e ontem tive de acordar cedinho pra ir numa reunião da escola: filhotão ficou em todas as matérias em recuperação. Nem bem começou o ano. Todos os professores o adoram. Se adorarem por que não o passam logo? Tenho lá eu de ficar indo em escola, explicar que o monstrildo tem déficit de atenção com hiperatividade e fazer aquela cara de mãe. Saquinho.

Já ia preparando este discurso quando o professor de Biologia, justo a matéria que ele vai pior falou: eu até o sentaria na frente como à senhora está pedindo, se ele comparecesse às aulas, ele só chega aqui lá pelas oito. Vontade de matar a criatura só um pouquinho. Mãe pode, não pode? Acabou com meu discurso de mãe de filho TDAH em uma frase.

Tirante isso, ele é generoso, correto, obediente, terno, engraçado, bruto feito um neanderthalzinho dos bons e como o disseram seus professores muito bem: tem sempre um belo sorriso no rosto.

Eu que fiquei me preparando pra aborrescência, tudo mentira. Ele é a alegria personificada.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Tatuagens na retina




As nuvens no céu e as sombras no asfalto fazem a tatuagem da impermanência sobre a Terra. Eu, que as fotografo, sou o tatuador. Tatuo onde? Em meu coração.

É no meu coração que construo o palácio de tudo o que flui, acontece, é. Um palácio cujos tijolos são meus pensamentos, ventos que sopram por dentro.

O mar cobre meu corpo, minhas tristezas e alegrias. Olho o Pão de Açúcar, os peixes à minha volta e giro qual bailarina nessa água poluída da Baía da Guanabara. Um pouco de água entra pelo meu nariz: não é mais possível ser tão ágil. Mas quando foi que fui tão ágil? Nem quando era criança. Não fui uma criança ágil. Não fui uma mulher ágil. Não sou uma velha ágil.

Penso em tudo o que acontece comigo: não é diferente do que acontece com ninguém. Somos toda uma mistura de nossas vitórias e fracassos, acreditamos ser boas pessoas e preferimos falar de nossa boa sorte a das angústias que nos tornam o semblante nos metrôs e nos ônibus tão tristonhas.

O mundo gira e nossa sorte não o torna mais pesado. Se torna, é a galáxia que o acolhe. A galáxia de leite e vazio que mãe nos faz movimento e giro eterno.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

O ar condicionado


Quando fui montar o consultório no Centro, estava o maior calorão no Rio de Janeiro então peguei o ar condicionado que existia na sala daqui de casa e levei para lá.

Motorista de taxi reclamou (levei no taxi mesmo), mas eu, impávida feito Mohamed Ali não quis nem saber. Levei. No tranco. E planejei fazer o que fiz: no outono comprar um ar para minha sala que é onde fica o meu pc e onde eu me instalo durante muitas horas do dia. Por sinal, no outono isso aqui é bem fresquinho, mas no inverno é um inferno. Ok.

Então chegou a hora de comprar o ar. Cheguei até a dar um pulo nas Casas Bahia e no Ponto Frio Bonzão, mas vi que pela internet sairia mais barato. Fui às Lojas Americanas.com e comprei meu ar condicionado de 10000 btus, convicta que era um bom negócio que estava fazendo.

Numa tarde chego em casa e o porteiro avisa: chegou, mas é meio grande Dona Cynthia.
Eis que adentra A Coisa aqui em casa.

Uma monstruosidade, um elefante branco digno de entrar em qualquer cartoon: ar condicionado cai na cabeça do perseguidor do Picapau. Um trem absurdo.

Olhei para o buraco na janela. Olhei para o pacote intacto do ar: uma coisa jamais caberia dentro da outra.

Aí vieram as perguntas: por que não medi antes? Se não sou boa em medidas, por que não pedi para o Seu Claudio, porteiro, formado em Direito, meu santo milagreiro, por que não pedi ao Seu Claudio para medir? Por que não pedi ao filhotão dorminhoco para medir? Por que não pedi ao ex-marido e atual namorado para medir? Enfim, por que sou tão anta?

Nenhuma destas perguntas tem outra resposta que não a mais simples: porque vivo no reino encantado da sala gigante com janela gigante onde um ar condicionado gigante caberia muito bem. Simplinho assim.

Agora cá está o pacotão intacto. Todos os dias. Olha para mim e me pede para que eu fique rica e vamos todos morar num palácio na Urca. [:)]

domingo, 10 de maio de 2009

Menos Pausa, Mais Pausa


Pra mim a coisa começou assim: falo com o ginecologista ou com a psicóloga? Decidi pelo ginecologista. Maior gatinho, diga-se de passagem. E já me conhece a fundo, muito mais fundo que o mais fundo que tenham me conhecido namorados, esposos, amantes, ficantes, irritantes.

Medo de ficar feia, medo de ficar sem tesão, sem tesão como é que eu fico eu que sempre fui tesuda. Tomo remédio? Não tomo? Resposta do ginecologista: tenho uma cliente de setenta anos que tem três amantes. Não vai ficar feia. Não vou dar remédio. Isto é psicológico.

Lá vou eu então para a psicanalista. Psicanalista achou curioso eu ter primeiro levado para o ginecologista. Mas, expliquei eu, parecia tão físico, estou sem menstruar desde fevereiro. Vai que eu estivesse com um tumor, vai que eu estivesse em tilte sério. Tinha que saber com certeza que não era nada físico.

Psicanalista então me dá o toque da real: você está fazendo um upgrade. É hora de aprender a ter uma nova lida com o mundo, com a sexualidade.

Por que você sempre tem de ser a que toma a iniciativa, a que é cheia de tesão? Por que mostrar ao mundo que você é mais você? Hora de aprender a ficar na sua, a perceber que há outras coisas, que nem tudo se resolve pelo tesão genital e que mesmo a genitalidade tem muitas outras formas de ser. Não precisa ser sempre a mesma coisa.

O engraçado é que justamente tinha me queixado que ultimamente vejo altos gatinhos e ao contrário de antigamente não fico bolando jeitos de me aproximar deles; também tinha me queixado de não me apaixonar mais.

Naquela mesma tarde, fui tomar um café depois da terapia. E... surpresa... me apaixonei. Pelo dia, pelos homens, por um homem, por uma possibilidade, pela vida.

Continuo a mesma. Rumo aos cinqüenta. E que me venham mais dez. Mais vinte. Mais trinta. Estou feliz hoje.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Tudo Azul


No meio da noite, o caminhão de lixo uivava. Na rua, mendigos se embrulhavam nos jornais para espantar a friagem da noite. O caminhão ficou por muito tempo fazendo barulhos estranhos e uivando. Dormi antes de ele ir atormentar outros mortais. Na noite, meus sonhos se misturavam como comida no prato do almoço. Tudo acaba dentro. Dentro sonhos, dentro comida, dentro caminhão de lixo, dentro o lixo, afundo eu sobre eu mesma. E tudo acaba dia.

Correr no Aterro do Flamengo, olhar a maré. Hoje o mar estava extraordinariamente limpo e lindo. Fim da ressaca, só no cantinho ondas e contra-ondas ainda espocavam o aeroporto. Cada dia é diferente um do outro e os azuis não se misturam. Cada azul mais azul que o outro, vale a pena ver. Quantos tipos de azuis maio tem? As maritacas verdes têm sob as asas um outro azul, o azul maritaca. O azul céu de maio dia 6, azul asa de maritaca, azul dos olhos do professor de psicanálise judeu, azul do carro azul que não quis parar no sinal e atropelou lá na frente um ciclista. São muitos os azuis e são muitos os fatos.

A poesia fica no azul além. Porque o azul além me faz cantar makes me Wonder com Jimmy Page. Você ouve quando o azul te conta um segredo? Comentários sobre os segredos ou sobre os azuis na redação. Quero me lançar sobre um desses azuis.

O resumo de todos os sonhos e destes dias de maio se faz em vários azuis. Sou parte deles como faz parte de mim à comida que como e os sonhos que me sonham. E você que me lê está agora se dando conta que não tinha pensado ainda: não é que há mesmo um tanto disso tudo à minha volta? A função do poeta às vezes se resume a isso: fazer o outro se dar conta. Do uivo do caminhão de lixo, dos jornais que embrulham os mendigos que sempre são as notícias de ontem e os melhores dos milhares de azuis de maio.

Em todo o mundo, o azul comemora. Não há coisa mais linda que estas comemorações mundiais de azul sobre o ocre da terra, todos os tons da terra para cada tom de azul...

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Solução Solúvel




A solução para a questão da razão e do coração não é de natureza teórica, mas prática.

Quem duvida?

O coração é a des-razão.
Ou será o coração uma razão emocionada?

E a razão é o não-coração.
Ou será a razão um coração razoável?

Seja como for, procuramos caminhar unidos: a cabeça e o pé, o pé e a cabeça; o coração e a razão, a razão e o coração. Somos parte de um todo. E damos nomes a cada parte. Nossa parte, nós mesmos.

Somos o que somos. E somos inteiros- não partes. Porque do que é vivo, não basta somar as partes para acontecer um todo.

Pegue-se um fígado, um coração, par de pés, mãos, braços, pernas, some-se isso tudo: não resulta numa pessoa.

Uma pessoa é bem mais que a soma de suas partes, por mais exatas que sejam todas estas partes.

Foi bom ter te conhecido. Ou te re-conhecido. Acho que já te vi num dos meus sonhos. Aquele em que você era francês, recém fugido da Alemanha nazista. Mas não sei não me recordo bem. Acho que está na hora de botar seu nome na boca do sapo ou preferencialmente na do mosquito do dengue.

Meus seios em tuas mãos se espalham. Suas mãos vasculham cada intimidade do meu corpo- mas não encontram o que procuram. Surpreendem-se com minhas nádegas, mais firmes do que a fotografia. Descobrem meus beijos, espantosamente molhados. Mas não adivinham o principal: escrevo poesias no banheiro.

É entre os azulejos brancos que vejo meus cabelos, meus pelos. É ali que vou me aproximando da morte como da vida. O banho morno, o sabonete cheiroso, cada resíduo fétido, cada pingo mais molhado que o anterior. Sim, no banheiro todos temos nossos antecedentes e não há balança que nos perdoe. A cada dia, somos pura verdade em todos os nossos quilos. Em toda a nossa plenitude.

Afundo em trivialidades dentifrício. Fundamento cada instante no indizível ato de fazer xixi. Horror, beleza, sabe-se Deus, quantas taras. Quantos vícios. Todos nós somos isso.

Mais nossos sonhos.

É a Vida da Mulher Centopéia




Ontem coloquei aquela sandalinha linda que comprei em São Paulo por uma pequena fortuna- a prazo.

Ela é de couro, com a parte de cima dos pés desenhada em padrões mouriscos. Aparentemente flexível, eu a comprei exatamente por parecer confortável.

Confortável é tudo o que ela não é. Basta um dia com a danada para surgirem horríveis bolhas nos lugares mais impossíveis. Como é linda, sempre a coloco ali, na esperança que usando, o couro vá ceder. Mas nada. Quem cede ao desconforto sou eu. A sandália continua linda. E inútil.

É estranho porque ela é maleável e se só ficar com ela por uns quinze minutos, ela dá aquela ilusão de perfeitinha. Acontece que passada meia hora não é mais nada disso. E se caminhar três quarteirões bolha e vermelhão garantidos sem o dinheiro de volta.

Assim é a vida.

Quantas relações parecem facinhas, e aquela pessoa tão flexível, quando você a conhece mais intimamente: cadê a beleza, a tolerância, a parte que lhe pareceu tão a ver contigo, cadê? Nada, o gato comeu. E só o tempo é que dá esta noção.

Pessoas que amamos e que conosco seguem nos tornando cada vez mais bem dispostos e mais harmônicos, a gente quer mais é passar toda a vida ao lado e haverá sempre no nosso coração um lugar para elas.

Sapatos bons também. Aquele sapato que quase é seu pé, que tem não só a forma como a consistência do seu pé, estes sapatos podem ficar velhos: deles você só se desfará se o perder. Perder não é o mesmo que jogar fora. É que nós nos mudamos muito, muita coisa acontece e rola este “perder”. Coisas perdem-se.

Pessoas perdem-se? De certa maneira, também. Mesmo a pessoa mais querida um dia acontece e este dia é triste: mesmo estas pessoas, as que são adequadas a nós, as relações nutridoras da alma, mesmo estas pessoas fabulosas em nossas vidas, às vezes, perdemo-las.

De todas as coisas que usamos, sapato é sem dúvida a parte da indumentária mais difícil de achar.

Não o sapato errado.

Sapato errado tem aos montes.

Sapato bonito, mas desconfortável. Sapato feio demais para usar, que pode até ser confortável, mas a gente vai se sentir toda feia se usar um sapato tão mocorongo. Sapato bonito, bom de usar, mas caro demais. Ah, há muitos sapatos totalmente errados para nós...

Se juntarmos o sapato errado com o caminho errado, aí temos algo que não tem como dar certo. É o dia perdido. A vida perdida. Se der certo, bem, a vida também tem dessas coisas: fazer o tudo errado dar certo. Mas certo por quanto tempo? Um dia? Dois? Não há como fazer dar certo um sapato errado, um caminho errado e uma escolha equivocada por mais tempo do que o tempo que leva para cairmos em nós mesmos: eis aí o lugar onde jaz uma ilusão.

Milagre é sempre milagre. E custa mais caro.

domingo, 26 de abril de 2009

A Diferença Entre Gurus e Psicólogos


Dado que a maioria confunde tanto o poder do psicólogo quanto o significado de ser psicólogo, vale aqui explicar algumas coisinhas, a grosso modo, para que nós, pessoas letradas, não façamos a mesma confusão boba.

Guru é uma palavra que em sânscrito quer dizer Gu= Luz e Ru=Escuridão. O Guru é uma luz na escuridão, um exemplo vivo a ser seguido.

Gurus podem levitar curar gente só botando suas sagradas mãos sobre a pessoa e uma infinidade de outras coisas que os textos místicos nos contam.

Já psicólogos são apenas profissionais que estudaram durante uns cinco anos em média sobre o comportamento, a fala e a mente humana.

Como estudiosos disso, podem ajudar pessoas a passarem por seus períodos difíceis ou ainda ensinar a lidar com problemas relativos ao comportamento que eventualmente incomodem ao cliente.

Um psicólogo não é um exemplo a ser seguido, havendo inclusive psicólogos excelentes que não só são neuróticos como podem eventualmente ser psicóticos. Na minha faculdade havia um menino borderline (ou seja, com um pé na neurose e outro na psicose) que se formou com louvor.

Um psicótico sem estar em surto pode dar um excelente psicólogo, até porque é mais capaz de traduzir a fala do psicótico pela própria empatia que terá com pacientes em surto.

Sobre o assunto de como é ser psicólogo na contemporaneidade temos o Mentiras no Divã de Irvin Yalom ou Psicanálise, Profissão Impossível de Janet Malcolm, ambos muito úteis para desmistificar um trabalho que é como outro qualquer: me pague que eu te ajudo.

Talvez não seja tão simples ajudar uma pessoa que sofra de angústia, síndrome do pânico ou anorexia. Mas mesmo assim, a coisa é por aí- talvez só de uma forma menos objetiva já que a ciência da psicoterapia até hoje não conseguiu se provar uma ciência nos moldes clássicos da Física ou da Química.

Trabalhamos com o inexato, com o particular, com o subjetivo, com as individualidades, com nossa capacidade de traduzir o outro e termos por ele empatia. Não é simples. Mas não chega a ser coisa para Iluminados que meditam 18 horas por dia e estão acima do Bem e do Mal.

No mais, a pessoa do psicólogo pode ser sujeita a doenças mentais exatamente como seus clientes- o que não quer dizer que quando este esteja bem não possa vir a ser um excelente profissional.

O psicólogo só estará incorrendo em erro quando utilizar seu trabalho para influenciar politicamente seu cliente ou quando usar de seu lugar de suposto saber para de certa forma “desdizer” ou desqualificar as escolhas religiosas e/ou sexuais de seus clientes. Também estará incorrendo em erro quando se utilizar da paixão transferencial que provoca em seus clientes para benefício próprio, além do natural trato monetário que é previamente estipulado com cada pessoa com quem trabalhará.

E isto é o que é. Nem mais, nem menos.

terça-feira, 21 de abril de 2009

Inveja, Eu???


No Talk Show de Elisa Lucinda, “Parem de Falar Mal da Rotina”, a atriz pergunta num dado momento, para uma platéia de quatrocentas pessoas quem é racista e ninguém levanta a mão.

O racismo no Brasil é fortíssimo e travestido de muitas coisas. São tantos os mascaramentos do racismo que numa platéia de quatrocentas pessoas, ninguém admite que possa ser um racista.

Com a inveja sucede-se o mesmo. Sendo assim, a inveja traveste-se de sentimentos mais aceitáveis, como é o ciúme, primo feio da inveja- ou de admiração, primo bonito da inveja.

Uma pessoa pode admitir facilmente ser ciumenta, quando em verdade é invejosa. Também é mais fácil pensar-se ciumento do que homossexual. Muitas atrações homossexuais mal resolvidas também se mascaram de ciúmes- que não tem implicações de ordem social mais sérias como seria o caso de assumir-se gay ou lésbica- até hoje ainda muito discriminados.

Digamos que aquilo que as pessoas denominam de ciúme é um amálgama confuso de várias possibilidades, dentre elas a mais forte seria a da inveja.

Talvez por isso, o lugar comum da terapia do ciúme seja o reforço à auto-estima. Seja em se tratando de um ciumento como de um invejoso, o “remédio” da auto-estima tem o poder de minorar as dores deste sentimento que nem sempre se reconhece.

De fato, quem tem uma boa auto-estima não fica pegando no pé do (a) parceiro (a). Se acreditar que sou uma pessoa especial, que minha presença na vida do outro é razão de prazer e felicidade, por que pensarei que o outro irá me abandonar ou me trair?

Já estando na posição inversa, sentindo-me de menos valor, mais inseguro quanto às minhas potencialidades como homem ou mulher, todo instante é o momento certo para que me traiam e qualquer pessoa é um rival em potencial- porque não se vale nada quando se tem baixa auto-estima.

O ciúme é algo tão bizarro, que há quem tenha ciúmes do passado do (a) companheiro (a). Para o ciumento nem a morte é obstáculo para o ciúme, como era o caso de Joel que se enfurecia ao falar de um ex-namorado já falecido de sua atual esposa. Este namorado era campeão de velas, exímio instrumentista no violão, rico, levava Joana para viajar praticamente uma vez por mês a lugares os mais exóticos do globo. Aquela vida rica e movimentada que o outro proporcionava a Joana: era isso que ele sabia não ser capaz de fazer. Então, seria isso ciúme ou inveja? Difícil de saber, já que meu próprio cliente não sabia fazer esta distinção.

Para o ciumento, seu par não trabalha, não come, não dorme, não faz outra coisa salvo sair com outras pessoas e divertir-se muito. E isto pode ser inveja: inveja de uma vida movimentada e divertida que não se tem competência ou energia para realizar.

Gostar mais de si mesmo, tornar sua vida algo mais próximo e presente. Pensar que mesmo a mais insípida das rotinas pode tornar-se algo engraçado, curioso, mágico: este é o antídoto dos ciumentos, que muitas vezes, nem ciumentos de verdade o são.

Não há limite para a criatividade humana, então depende mesmo de cada um tornar sua vida, hoje mesmo, algo mais divertido e digno de ser vivido.

Agora, milagre é mais caro. Quem nada faz nada consegue. Não há uma receita de bolo pronta para incrementar sua auto-estima ou para tornar sua vida mais rica até nos seus aspectos mais repetitivos.

Se sua imaginação nada indicar, comece atravessando a rua e andando para o caminho de seu trabalho por outra calçada. Em vez de se limitar a subir e descer de elevador quando o chefe mandar suba de escadas e o faça dançando. Aliás, faça tudo dançando. Recupere os alongamentos perdidos de seu corpo, torne-o mais ágil e tonificado.

Recuse-se a fazer tudo sempre igual. Olhe para o mundo como um turista que chegou hoje ou como uma criança que vê tudo pela primeira vez- mesmo quando é a milionésima.

O segredo das pessoas interessantes é este: ser bem humorado, não por fora, como uma mera pose social, mas por dentro mesmo. Ria e dance com a vida. Logo verá que não há motivos para inveja. E que se o seu (sua) namorado (a) o (a) abandonar, quem sairá perdendo será ele (a).

Não há ninguém no mundo mais interessante do que você. Acredite.


sábado, 11 de abril de 2009

O Nada


Ela sonhava uma tristeza sem dor, ela sonhava que era normal. Sua vida era toda assim, mais ou menos, com sonhos sem luz e quase sem sons. Ela dizia que estava alegre, mas na verdade, sentia-se geralmente quase igual, numa coisa que se adaptava ao que lhe cercava.

Ela era uma criatura global. De uma normalidade normal, de uma falta que faltava a todos e que em ninguém nem nada excedia.

Não tinha motivos para fazer, não fazia. Sentava-se, por horas a fio diante do nada. Nenhuma vertigem. Só a sensação do tique taque do relógio que nunca dava trégua.

O nada em nada se parecia com o nada.

O nada até parecia com uma Revista Caras, com as decorações da Casa&Jardim, com o jornal O Globo. O bonequinho aplaudia de pé o nada. Que nada era, mas ficava na sua, sem brilho, nem amor. Amor dá trabalho demais. Então, melhor sem.

O nada parecia cheio de coisas. Só ao se olhar no detalhe é que se percebia: nada daquilo tinha a menor importância, o nada é evanescente. A moda que é hoje e que amanhã é cafona, depois brega, depois out. Depois, nada. O nada é cheio de armadilhas aos que afoitos acreditam num sentido da vida fora de si mesmos.

Eis que ao nada lhe apetecem as almas jovens e descarriladas.

Nela doíam coisas, coisas que eram ela mesma. O fígado, o cotovelo, a cabeça. Doía ao andar, doía ao levantar. Mas tudo o que doía ela esquecia porque assim ela vivia: a esquecer. Esquecia-se. Das tristezas, que nem bem eram tristezas. Das alegrias, que mal e mal. Dos amores, que nunca acompanhavam. Dos desafetos, que nem se afetavam.

Se ela sumisse seria como se nem tivesse estado. Pobre criatura quase borboleta só que com vida muito mais comprida que os dias de uma semana inteira das borboletas.

Como num eletrocardiograma da alma, ela se coisificava e ela até o fim, nunca reclama. Nunca reclamou. E se foi. Como se jamais tivesse chegado. Uma criatura que habitou o seu corpo, entre o ombro e o pé, mas que jamais deu por si.

domingo, 15 de março de 2009

O Bom Leitor


Lê o texto mesmo que haja um título que ele odeie. Afinal, o título detestável pode ser apenas para provocar e o autor defender idéias opostas ao que parece ser pelo ângulo do título ou das primeiras linhas.

O texto de desenvolvimento imprevisível é o melhor texto.

Exatamente por isto, a leitura deve ser feita linha a linha, palavra por palavra. Quando houver muitas palavras e muitas linhas, melhor voltar num momento mais propício. Ou não ler.

Não há qualquer obrigatoriedade de leitura. Mas ao fazer uma leitura, que esta seja feita no modelo tradicional que vem a ser linha a linha, palavra por palavra.

Há autores que primeiro dizem o oposto do que pensam para só depois darem a sua verdadeira opinião. Não há como fazer atalhos porque os atalhos costumam empobrecer o entendimento dos textos.

Quando o autor inventa palavras ou Coloca Em Caixa Alta Alguma Coisa, ou usa artifícios-como-hífens-em-lugares-incomuns estes recursos de escrita indicam que o texto ou será de humor ou será um texto criativo. Dificilmente quem escreve com a intenção de ser levado a sério irá fazer experimentações desta natureza em seu texto.

Porque o texto sério é reto, tradicional, faz citações, traz números de pesquisa de campo e o tom mantido é semelhante ao do Sergio Chappelein (que Deus o tenha) no jornal das oito.

O bom leitor pode detestar um texto ou adorar. Não há qualquer contra-indicação neste sentido. Tudo é válido.

Entretanto, um bom leitor antes de mais nada tenta entender e só comentará aquilo que entender. Quando não entender deixará claro que não entendeu- o que para o escritor é um bom sinalizador.

O bom leitor é uma espécie em extinção porque na contemporaneidade o indivíduo está permanentemente sujeito a tantos estímulos simultâneos que é cada vez mais raro o leitor que de fato lê. A maioria passa os olhos, se chateia quando um texto é longo e pensa que time is Money.

Resta ao escritor tentar adestrar todo o leitor para que este se torne enfim um exemplar ímpar de bom leitor.

sábado, 14 de março de 2009

TODO HOMEM É CORNO


Sim, todo homem é corno. Os que ainda não foram, serão um dia. E tanto mais corno quanto mais revoltado contra esta condição tão natural ao homem contemporâneo. Os homens feios serão traídos por serem feios. Os bonitos, por serem bonitos. Os inteligentes por serem inteligentes, os burros por serem burros. A cornualha é democrática. Atinge aos pobres, aos ricos e aos remediados. Para não ser corno só há um jeito: a solidão total e absoluta. Solidão sem pausa, sem cura, sem entretenimento. Pois se o solitário num belo dia apelar para uma velha amiga carente, neste momento, já estará sendo corno. A cornice é tão fatídica que basta que o homem tenha contatos com mulheres do sexo feminino que a coisa já começa a se desenvolver...

Pois não é de puta que uma mulher é xingada sempre que faz qualquer coisa que irrite a alguém? Então, toda mulher é puta. Até as virgens e as freiras. Todas estão equipadas para a putaria- ao menos é o que se atesta pelo uso coloquial sem restrições da palavra puta. Dirigiu mal? É puta. O juiz marcou errada a falta? A senhora mãe do juiz é puta. Bobeou, respirou? Se for mulher, é puta. Puta por dar e puta até por não dar- aliás, principalmente por não dar. A mulher que não dá para um homem, não é de puta que ele a xinga em sua raiva de homem rejeitado?

Se toda mulher é puta, todo homem, por conseqüência, é corno. Ser homem e ser corno é uma redundância. Não há porque ficar aborrecido porque este adjetivo cai como uma luva aos Robertos, aos Henriques, aos Sergios, aos Franciscos- o corno é uma unanimidade.Enganam-se os que pensam que se for fabuloso no sexo se interrompe este fluxo. É uma lenda acreditar que ser bom de cama impede de se lhe crescerem chifres. O bom de cama pode incomodar da mesma forma que o ruim de cama e ambos serão traídos igualmente por razões opostas. Não há riqueza no mundo que desfaça esta realidade. Aqui se trata de aprender a lidar com o fato com toda a consciência e humildade que este requer. Os que chamam seus coleguinhas de cornos, estes serão os mais cornos. Afinal, quem torna chacota um assunto tão comum e ao mesmo tempo tão delicado, típico da condição masculina, o que poderá ser este se não um baita corno revoltado? Felizes os que se descobrem cornos percebem o quão comum é a situação e aceitam com galhardia e bom humor aquilo que para se ter basta um pênis. Sim, porque não há a palavra “corna”. A mulher traída é simplesmente a mulher traída. Desde os tempos imemoriais mulheres são traídas. São traídas e bem ou mal aprenderam a lidar com isso sob condições históricas e econômicas superiores às suas vontades.

Chega finalmente à vez do homem realmente encarar de frente este fantasma da traição, do abandono, da humilhação suprema de saber que definitivamente sempre haverá alguém melhor que você- ao menos para passar um par de horas. E este alguém não necessariamente será melhor. Pode até ser pior. Contanto que seja diferente. Isso é o que basta. Não foi sempre assim? Não justificam de tantas formas, até apelando para a Biologia e Evolução das Espécies o fato de que todo homem um belo dia sai com outra mulher?

O ciclo ideológico que gera o controle sexual da mulher, o conseqüente peso da palavra “trair” significando ter relações sexuais com outras pessoas que não seus parceiros usuais e a visão da sexualidade como algo obsceno termina exatamente na putaria e cornaria generalizada, democrática e inconteste.

Aliás, para ser corno basta ler este texto. Leu todinho? É corno, sem sombra de dúvida ou sequer pausa para meditação.

domingo, 8 de março de 2009

Contradições Mundanas- II


Se observarmos bem, a cada dia, a vida nos floriu como um buquê. Um buquê de sorrisos, de imprecações, de lágrimas, de sustos. E este buquê não é constituído por grandes eventos, grandes afetos, grandes coisa alguma. São pequenas conquistas, um passo a mais, um dia a mais. Bom dia, o primeiro bom dia que recebemos logo ao sair de casa.

Não há como mensurar as coisas. Mas quando um homem me dá uma informação de como chegar a algum lugar e me diz algo gentil e sorri, isto é uma pequena vitória do que há de mais simpático em todos nós e que nos constitui como humanidade. Afinal, um sorriso não custa nada, mas uma agressão também não.

Quando a atendente da loja de Xerox comenta algo engraçado com uma cliente a quem ela jamais viu na vida, eis aí outra pequena graça. E se o garçom fizer questão de me dar à garrafa mais gelada do meu refrigerante predileto meio a uma onda de calor, o que será isso se não mais uma benção do acaso e confirmação de nossa civilidade?

Sem dúvida, a felicidade é a soma de pequenas felicidades. Da mesma forma como a infelicidade é o agrupamento de pequenos desastres.

Ao longo dos nossos dias, temos amostras de cada um desses fatos que nos fazem sorrir ou xingar ou chorar. Cada um de nós se movimenta para o centro onde acontecerão estes eventos. Cada um de nós experimentará de forma diferente ao que o circunda. De acordo com isso, diremos que estamos bem ou mal.

Meu filho, torcedor fanático do seu time de futebol, rumou para São Januário à uma hora da tarde de hoje para comprar ingressos para o jogo e cozinhar até a hora em que começaria a partida. Debaixo do sol a pino, num verão senegalês, ele e um amigo tomaram ônibus e cantaram os hinos das torcidas que lotam as conduções até o bairro onde se localiza o estádio. No mesmo ônibus, outras pessoas, talvez até indo ao mesmo jogo, encaravam com mau humor ao sol, ao barulho, a tudo em volta, inclusive a estes jovens bem humorados. Quando não estamos bem, a felicidade dos outros incomoda quando deveria nos exaltar à mudança.

Não temos como escolher o que nos acontecerá, determinar a ordem dos fatos futuros. Ao mesmo tempo, pretensão seria acreditar que podemos controlar os humores que nos impelem dentro das situações. Por mais controladores que sejamos as emoções acabam por nos tomar. Então, deixamos de ser os cocheiros para sermos os cavalos atrelados numa carruagem a toda velocidade.

Entretanto, é opção nossa retribuir à vida os sorrisos que as gentes nos oferecem. Também é opção nossa valorizar aos sabores ou aos dissabores que carreiam as marolas nas marés de nossas existências.

Viver o hoje, pois a vida é agora, estar aqui porque aqui é o único lugar onde se está. Perceber que para o ser humano não existe tal coisa como a eternidade, esta é apenas um conceito, pois temos vida curta. Entender que não há nada absoluto, a absoluta felicidade, o absoluto amor, a absoluta abnegação- pois cada fato é precedido por motivos conflitantes e nossas reações são recheadas destes enfrentamentos.

Ou esperar para ser feliz quando o aumento for dado, quando os filhos saírem de casa, quando a galinha criar dentes, quando tiver emagrecido dez quilos. Ter tais posturas, isto sim, é escolha de cada um.

Pessoalmente, não preciso do futuro para autorizar a existência do meu presente e vejo o presente literalmente como um presente, uma graça ou uma conquista por ser boa. Afinal, a palavra bom vem de bonus que significa guerreiro e eu sou uma guerreira. Ou melhor, sou uma guerrilheira do prazer, uma hedonista kamikaze, uma contradição ambulante que se permite poesia, loucura, humor, profundidade, estudo- tudo num mesmo pacote.

Mas não são assim todas as pessoas? Ronaldo o Fenômeno, hoje fez o gol que fez a reviravolta do jogo para o seu time. Isto depois de anos contundido, fora de forma, gordo mesmo. Envolvido com travestis, chamando a si todos os preconceitos da sociedade. Simultaneamente, batalhando para seu retorno ao futebol, mesmo já tendo acumulado uma fortuna que durará até a sua próxima geração.

Eis que quando odiamos ou amamos alguém, estamos sempre odiando ou amando aquilo que sabemos existir lá no fundo de nós mesmos. Uma sorte que a nós também pode caber. Então resta saber de quê lado estamos.

Neste momento de glória para este homem, Ronaldo, atentar para esta trajetória cheia de tombos e tão humanas do atleta. Mas também, lembremo-nos de Cínara, a travesti que foi encontrada morta no Piauí, nua e cheia de facadas por todo o corpo, além de sinais de violência sexual.

Qual é o tamanho da frustração pessoal que faz alguém destruir algo de belo de forma tão violenta? Qual o tamanho do engodo que rege alguém a denegrir o outro até o aniquilamento?

Ah, são tantas coisas...

quarta-feira, 4 de março de 2009

Contradições Mundanas I


Estranha a sociedade que vivemos onde impera o individualismo, mas ao mesmo tempo, uma das principais metas traçadas é a da conquista/sedução do outro.

Movimentam-se milhões de euros e dólares em busca do remédio perfeito para emagrecer, o xampu que deixe seu cabelo mais macio, a tintura que cubra seus cabelos brancos. Aliás, envelhecer? Jamais!

Botox, cirurgia plástica, drenagem linfática, liftings e quantas outras mais técnicas que são destinadas única e exclusivamente a evitar não a velhice em si, mas a aparência de velhice.

Por que tamanha preocupação com a aparência, se na hora de pensarmos as metas de vida somos encorajados a pensar apenas em nós mesmos? Família, namoradas, tudo que impeça a carreira é descartado como inoportuno. Casamentos e relações são descartados como roupas são trocadas. Em nome do indivíduo.

A palavra “privacidade”jamais foi tão usada. Tudo o que remete ao isolamento é visto como valor positivo. Depender do outro é coisa feia. Quem assume que depende do outro é visto como uma espécie de aleijão social. Bom é ser independente bom é ser autônomo.

Sim, muito bom ser autônomo. Mas que estranha autonomia é esta que procura de todas as maneiras espantar a velhice? Por que o momento de ter uma pele enrugada, seios murchos, pintos flácidos, são vistos como obscenidades? Ora, é natural envelhecer. Tal como depois da vida, sempre se seguirá a morte, democraticamente.

Por que não buscar a dignidade da velhice em vez de tantos meios, todos tão ilusórios, de rejuvenescer?

Neurônios não rejuvenescem. Fígados, baços, pâncreas, intestinos, ovários, gônadas, nada disso rejuvenesce. A coluna cria osteófitos. O corpo verga. Com botox apenas vergará de forma mais patética. Pois é patético o velho que quer ser jovem a todo custo.

A jovialidade, uma característica de humor e pensamento, esta nada tem a ver com peles esticadas a força e cabelos pintados e repintados. E a morte, esta convidada sempre tão circunspecta chegará para todos, sendo ou não esperada.

Pessimismo? Não. Definitivamente não.

Quem encara com naturalidade a morte procura fazer da sua vida, a cada dia, algo mais rico e pleno.

Dá prioridade ao que realmente importa.

Sabe que é melhor investir numa boa viagem do que numa cirurgia plástica. Deixa para só entrar na faca quando realmente precisar. E, se cair nesta tentação, de parecer jovem sem mais o ser, saberá reconhecer, com lucidez, a total falta de bom senso de atitudes inúteis como a de tampar o sol com a peneirinha do botox.

Sou pela vida, por saber que é sagrado o instante, cada um deles.

Godot nunca chegará. Então, vamos à vida!


terça-feira, 3 de março de 2009

Por Que Falamos Mal do Outro


Fulana é loura, linda e burra.

Falo mal dela porque é burra.

Mentira deslavada ou lavadinha, não importa. Fato é que falo mal dela porque é loura e linda. Ela pode até ser burra, mas ser burro não é o pior dos defeitos que alguém possa ter. Eu sei disso, todo mundo sabe disso, mas na hora de maldizer, vale a burrice porque quem relativiza os defeitos do outro acaba perdoando tudo e todos.

Quem pode ser mais chato do que aquele que não tem nenhum desafeto pra chamar de seu? Quem pode ser mais insuportável do que aquele que não fala mal de ninguém e só tece loas em homenagem a todo mundo? Socialmente, falar mal dos outros é virtude porque a maioria fala muito mal de todo mundo.

Ao se relativizar situações e pontos de vista, chega-se a conclusão de que a maioria das coisas que se fazem usualmente é perdoável. Quem tem uma visão mais larga de si e do mundo percebe claramente que poucas são as coisas feitas com o único intuito de ferir, poucas são portanto as coisas imperdoáveis.

Imperdoável. O que é imperdoável num mundo onde todo dia se caminha por ruas onde há meninos abandonados, gente cuja única posse muitas vezes é seu próprio corpo, vivendo abaixo de qualquer condição que o identifique como humano e não um bicho?

Se fôssemos realmente não perdoar alguma coisa, deveríamos antes de mais nada não perdoar qualquer sociedade ou sistema que permita uns com tanto e outros sem absolutamente nada.

Mas nós perdoamos. Chegamos a nos acostumar com o desumano. Passamos por gente maltrapilha, fedida, dormindo nas ruas, comendo com as mãos o prato de comida que lhes caem no colo- todo santo dia.

Beltrano é um babaca. Beltrano é de fato um babaca? Não é ou até às vezes é mesmo, mas o principal defeito de Beltrano muitas vezes foi tocar num ponto de nossas vidas sensível, consciente ou inconsciente deste ato. Ou ainda mais simples: Beltrano não gosta de nós.

Ora, não existe tal coisa como a unanimidade. Mas por outro lado, quem é que não gostaria de ser amado por todos, judeus e palestinos, gregos e troianos, comunistas e capitalistas, flamenguistas e vascaínos?

Em geral, somos movidos a carências.

Carência sexual, carência material, carência afetiva, carência intelectual, carências. Em nossos melhores momentos, somos movidos por ideais e deixamos de lado o nosso mundinho para abraçarmos causas maiores que a largura de nosso umbigo. Mesmo assim, quem já não entrou para um determinado movimento político ou religioso para paquerar alguém que achou bonito? Eu já, desde logo admito.

Raramente nos importamos com os outros, considerando a própria alteridade do outro. Estamos imersos, quase que permanentemente, em nossa própria incompletude, tentando, por todos os meios, dar vazão às nossas ansiedades. Temos raiva, sem razão alguma que justifique, daquele que externou opinião diferente da nossa ou simplesmente demonstrou ter algo que nós não temos.

Ninguém falaria mal de ninguém se todos estivessem satisfeitos consigo mesmo e com o mundo. Como o mundo é cruel e em geral vivemos ansiosos e entediados, eis então que rapidinho assumimos que Sicraninha é uma grande filha de puta. E eis que Sicrania é uma pessoa generosíssima em verdade. Mas eis que hoje, tal como me sinto, fulana é uma grandecíssima cretina porque só ela, a idéia do que ela representa no mundo, dará vazão ao meu desconforto existencial.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Carnaval, a Grande Festa






















Serpentinas
Purpurinas
Violetas, douradas, prateadas, azuis, vermelhas e rosas
Não há cor que não caiba no carnaval
Não há música que não se cante
Não há história que não brilhe
Não há chuva ou sol que nos impeça
De até ao fim
Seguir nossa alegria

Até de muletas vale a pena sambar. Mas não é só em mexer o corpo que se resume o carnaval. Nem na cuíca, no surdo, no tamborim ou mesmo na cerveja, no confete, na serpentina e no carro de som.


O carnaval começa no sonho. Sonho de colombina, bailarina, odalisca, mulher maravilha, Zorro, Pirata, Homem das Cavernas ou Super Homem. Começa nas sombras dourada, rosa, azul, violeta, nas estrelinhas e na purpurina. E o carnaval não acaba na quarta feira de cinzas porque a purpurina e as estrelinhas ainda rolam pelos tapetes, grudam nos lençóis, nos tacos de madeira, nos azulejos do banheiro, nas coisas da casa por muitos dias. Ás vezes se encontra uma estrelinha carnavalesca que por pura teimosia grudou num sapato que nem se usaram no carnaval muitos meses depois.


Carnaval não se explica. Como não se explica a magia do cinema, do teatro, do balé ou dos desfiles de alta costura. Tudo isso se sente, se experiencia.


O carro de som atrapalha o carnaval? O calor atrapalha o carnaval? A cidade fede e fica imunda no carnaval? Sim. E a cidade canta, dança, fica colorida e vira sonho por quatro dias e noites inteiras. Estranhamente, quem sabe um dia poderá associar os cheiros desagradáveis ao carnaval e isso tudo virar parte da nostalgia da coisa num ponto do futuro objetivo e anticéptico.


Quantos meninos e meninas deram seu primeiro beijo no carnaval, graças a sabe-se Deus qual artefato de desejo e vida que se planta nos corpos? Mulheres feias encontram seu Príncipe Encantado, desesperados encontram esperanças, aleijados andam, fazem-se milagres seguidos de ressaca e até de esquecimento. Será mesmo que fiz isto, questionam-se os foliões ao fim. O que vale é no ano que vem estar de novo lá.


Seguir o bloco, bater fotografias, acompanhar o samba e não se esquecer que um dia houve corsos e marchinhas, frevos e sombrinhas. Mais uma vez, leva um ano inteiro pra sair toda a purpurina e é muito difícil se acreditar no discurso racional e moralista que tenta inutilmente espantar para o além a alegria infantil que nos caracteriza como povo brasileiro. Sonharemos, todo ano em sermos a rainha da bateria ou o mestre sala da folia, quer achem certo ou errado, bonito ou feio a força que nos arrasta aos cordões.


Este ano, quem sabe, aprendo pandeiro. Ou a andar de patins. Porque tudo combina com esta festa da carne, do suor, da alegria chamada carnaval.


No carnaval, finalmente entendemos e tiramos doutorado em democracia. Qualquer arlequim ganha um beijo da rainha de sabá.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Alô Elizabeth Maria


Veja meus cabelos pintados
Sou uma criança endiabrada
Minhas rugas cicatrizes
São caminhos pro coração
Imperatrizes fazem mapas
Dos territórios ocupados
E dos que ainda estão por conquistar
E a vida é assim

Pra saber de mim
Prefira histórias a números
Minha alma não cabe nos fatos
Sou mais do que meus documentos
E menos do que meus botões
Somados a todos os boatos
Eis que sou uma mulher

Sei fazer bolinhas de sabão
Durarem um minuto todinho
E o meu minuto nada assim tão diminuto
Cabe o sol e a terra inteiros
Rio de Janeiro de inverno a verão
Sou o bondinho do pão
Sou o trilho do trem
Areia de Copacabana
Friozinho de Terezópolis
Coisa linda é viver
Quando se sabe sonhar

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Não me Arrependo de Nada

Azar ou sorte:
A vida é sempre
nossa consorte

Vai-se o amor:
Vive a lucidez

Abandonam os amigos
Permanece a vontade

A beleza se consome
A autenticidade sobra


Nossa obra está sempre além
do que entendemos
do que esperamos

Nós vamos
os significados ficam.

Ou talvez
A cada passo
Surja um novo desafio

Desafino e é ali
Que mais canta
A minha melodia

Quando fico no meu canto
É quando a viagem começa

Aceito o paradoxo
Acato a transgressão
Recato dos que perdem
O olhar na imensidão

Os anéis se vão
A memória fica
Acaba junto conosco
O desenho do nosso rosto
Que não fez fotografia

Qual o sentido de estar
Onde não se respira?
Qual o sentido do arrependimento
quando tudo o que se fez
ficou tão bonito?


video

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

A Cabeça e o Pé


Qual é o pé da coisa? E a cabeça? Por que todos dizem que algo está sem pé nem cabeça se jamais alguém soube qual era o pé ou a cabeça das coisas?


O mundo gira mal, comigo nele ou sem. Aviões caem, a ONU foi bombardeada, absurdos acontecem:a cada instante. Tenho um filho de 16 anos, e gostaria de deixar para ele uma herança melhor do que buraco na camada de ozônio ou do que crenças estranhas de que o mercado é algo racional que regula a si mesmo.

Se todos nós estamos fazendo o melhor possível, por que tudo parece tão errado? O ar cheira mal, era para o ar nem ter cheiro, mas tem. A água está acabando, mares e rios imundos. Dizem que em cinqüenta anos se todos continuarem no ritmo de consumo atual, a Terra sozinha não dará conta: precisaremos de cinco iguais a esta. E no entanto, a maioria mal tem seu quitinete pra chamar de seu. Seu lugar ao sol. Sol que dá câncer.

Alguém está fazendo de menos e gastando demais. Serei eu, será você, será o presidente? A culpa é sempre do outro? Minha vida me pertence? As escolhas, sou eu que as faço ou eu acredito fazer escolhas porque me levam a acreditar que isto que aqui está sou eu?

Temo ficar maluca e nunca chegar a canto algum. Maluca já sou. Cantar já canto, um canto já tenho. O que me falta? Nada. Sobra. Sobram quilos, gordura, bobagens na cabeça, bobagens no corpo.

O sol lá fora. Tomara que meu filho esteja bem e que esteja no Aterro jogando futebol. As melhores coisas não custam um tostão. Por isso mesmo, mal damos a elas o valor que estas têm. Salvo quando acabam. Daí que a sabedoria invariavelmente chega tarde demais.

Como dar estas notícias para meu filho?

Ele não precisa destas notícias. Eu sim. Preciso desfazer o nó que me prende a este grande circo de mentiras. A mentira do eu. A mentira do outro. A mentira do mundo. Só existe aquilo em que toco, aquilo que vivo, o momento presente. Tudo o mais são suposições e notícias de segunda mão. Quem lê tanta notícia? Sem lenço nem documento? Não dá para chegar nem na esquina. Tempos muito estranhos estes nossos.

Encontrei uma rádio legal on line. Foo Fighters, Sound Garden, a lot of English is spoken. Que posso fazer? Adoro rock. Sorry preciosistas da cultura nacional. Eu sou metade eu, metade The Beatles, na sua versão atual, bem mais hard.

Vi a foto do atual líder espiritual dos sufistas. Eis que é um bonitão. Como a bonitona da Gurumay. Vivemos num tempo em que o apelo é todo visual. Cantoras são jovens, gurus são jovens, todos os que aparecem na mídia são jovens e praticamente não importa o que você faz e sim que você apareça na mídia. E portanto, juventude para sempre, morte jamais. Estranho, muito estranho mundo.

Tomara que meu filho jamais pense tanta bobagem como a senhora mãe dele. Mães são sempre putas porque em algum momento todos somos os filhos da puta. Pra ele, tudo isso é natural e ele não precisa pensar para saber das armadilhas do pensamento, da língua e da cultura.

No tempo das cavernas já existia a neurose ou a neurose veio junto à palavra? Se a neurose veio junto à palavra, meu filho vive num mundo melhor porque a palavra tem cada vez menos valor. A neurose vai acabar quando acabar a palavra? Quando acabará a palavra? Quando não houver mais sentido em falar?

O começo está próximo. Não o fim. Felizes os que verão o regresso do mundo. Tomara que alguém tenha anotado o DNA dos pandas, das baleias. Alguém anotou a placa do carro que me atropelou?

Um dia eu fui. Depois será você.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Faixa de Gaze


Quando o amor acaba, é como se Deus me houvesse abandonado. Sinto-me tão irreal que tanto poderia matar quanto me matar. Se não sou real, nada tem conseqüência, nada tem substância, portanto, ninguém se fere, eu pulo do alto da ponte e simplesmente o chão não chega. O tempo não passa, o tempo pára no momento de espalhar todas as pedras que um dia construíram meu ser. Não sou um edifício. Sou um ninho. As pedras? Não são mais pedras. São galhos, são folhas. Não existe mais mágoa. Existem quando muito penas, que se fazem asas, que se faz um pássaro que cai de um céu que se estilhaça quando o sol nasce. Uma voz canta na distância, uma imensa distância que se faz entre aquilo que aqui digito e aquilo que foge de mim e mal tenho como avistar.

São felizes os que amam ou justamente estes são os mais desgraçados sobre o planeta? Os cínicos nunca se apegam, são cínicos. Riem das desgraças alheias, desrespeitam a si mesmos e a todos porque em nada acreditam. Por que agem assim, por que não acreditam na própria dor? Porque não a sentem. Morre-lhes o filho único e eles irão para o bar beber. No máximo um porre atesta a morte. Foge-lhes a mulher com o vendedor de biscoitos? Ora, há malas que vão para Belém. O amigo que se vai? Nunca esteve não faz diferença.

O cínico é um canalha. O cínico é um monge zen. O que sei eu dos canalhas, dos monges ou do zen?

Em algum lugar, agora neste instante, uma velha senhora assiste a morte de seu filho único. O pavor nos olhos do filho. Nenhuma canção jamais embalará estes dias que lhe sobreviverão. Esta senhora manterá os olhos arregalados e sua dor é tanta que não cabe em suas lágrimas. É dela que ouço o gemido e aqui deixo o traço. Há dores que preferimos jamais parar de sentir. Se pararmos, será como se aquele que amamos tanto e que não mais existe jamais houvesse.

Ela sou eu, a Faixa de Gaza está em todo lugar. Será que os passarinhos cantam por lá? Aqui sim. Lá não há quase passarinhos, pois é um deserto. Será que vale a pena lutar por um deserto? Deserto povoado de crenças sobre um Deus que a todos abandona. O Deus dos desertos, muito diferente do Deus das cachoeiras. Nosso Deus, Tupã. Talvez aqui, o amor seja mais do que pó. Ou seja pó, mas um pó apaixonado. Cubro minha nudez com gaze. Uma só faixa. Será que valho à pena? Eu sou o pássaro e seu vôo.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Definitivamente Indefinível


Estendo minhas pernas e estico meus pés em ponta. Estico meus braços até o alto. O espaço que ocupo na cama é muito maior do que qualquer poema que escreva. Se nós dois estivéssemos sobre esta cama que aqui ocupo agora, teríamos de escrever um livro e mesmo assim, não caberíamos nas letras.

O vigor com que te abraço não cabe na palavra vigor. O silêncio que pesa hoje sobre meu coração não há verso nem frase simples que contenha. Por mais belos que sejam livros e poemas, os corpos dos amantes sempre serão alheios a isso. Devoraremos outras coisas, que não são palavras.

Não há exercício literário que faça jus a um único e simples olhar. Por mais proezas que um escritor faça, nenhuma delas chegará nem perto do mais bem comportado gemido.

Os que falam enquanto amam sempre se calam. Até os que fazem só sexo também silenciam. O olho no olho enquanto a mão acaricia sua testa suada: há palavra que traduza este gesto simples que ocorre no meio de uma foda? E a palavra foda, será capaz de ter a força e a indecência do meu peito em tua boca ou das minhas mãos acariciando seus culhões?

O vento passeia pela casa e pequenos sinos tocam. Logo depois, o grande sino da igreja.

Em todo o corpo há alegria e fatalidade. Ainda não sei de cor teu cheiro. E o bem te vi canta. Eu sei que você já foi embora. Aliás, acho que você nem chegou.

Será que a alegria dos encontros compensa a tristeza dos adeuses? Cada um terá uma resposta, mas nenhuma resposta que se dê caberá no instante da dor indizível ou da alegria, igualmente intraduzível. Palavras, toscas palavras. Fotografias, meras vãs tentativas de imortalizar o instante. Filosofias, filósofos, poetas- mania do ser humano de tentar fazer caber tudo em uma coisa que vire bagagem.

Há coisas que nos marcam. Mas nunca serão contidas, seja em pensamento, seja em objetos. Por um segundo, vi algo parecido com amor no escuro dos teus olhos escuros. Você, dentro de mim, me amou. Mesmo que por um único instante. Aquilo não era exercício filosófico nem aeróbico. Aquilo era uma vastidão.