quinta-feira, 1 de setembro de 2016

a primavera chegou mas as flores não sorriram
agosto não terminou
homens tristes arreganham os dentes
vorazes
e vazios

o dia de hoje trata-se de escolher
qual miséria lhe interessa mais
calar todos os gritos
sufocar todas as lágrimas
seguir em frente
quando o caminho teima em ir para trás

vivemos num labirinto
sem leste nem oeste
estibordo nem bombordo
não há nascer do sol
e as sombras tomam conta de tudo

nascem os pássaros
não se ouve um pio

só aprendemos a circular
nosso único norte
parece ser nosso próprio umbigo

o Brasil foi feito para ser brasa
mas é de cinzas coberto
não me falem em destino
quando um dia houve em que tanto poder
foi jogado no ralo

a mim parece um desatino
serem os juízes os maiores ladrões
e os réus não santos
mas muito mais probos

de que valem as leis?
de que vale a honestidade?
de que vale um voto?

aqui só sabem dar socos
chutes e pontapés
sabemos tantos palavrões
e nenhuma palavra
lavra teu buraco
verme que nunca viu a luz
lavra mais
voltas pro pó aonde viestes
criatura sem viço nem cor

volta pra tua cova
e que esta seja rasa
como tua vida
aonde jamais veio luz


domingo, 10 de julho de 2016

O Sorriso da Fotografia



aí você olha aquele casal feliz, com seus filhinhos rosados e bochechudos, cercados de amigos, morando naquele lugar super bacana e pensa, diante de seus 1001 fracassos amorosos e financeiros onde foi que você errou. E eu te respondo: errou muito em muitos lugares, mas sossegue, o casal errou também.

Há certas coisas que são assim: você apresenta a fotografia de um momento e acha que aquele momento foi sempre igual e será eterno.

Nada é eterno e as coisas não foram sempre assim.

É que nem estas fotos de ex obesos que a revista apresenta o cara enorme e depois a foto dele sendo triatleta com super corpo magro.

Quantas coisas acontecem entre a pessoa imensa da foto e a pessoa atlética? Quantas mil batalhas perdidas e ganhas até chegar no momento da foto? Nenhuma das noites mal dormidas saem na foto, nenhum dos momentos de angústia saem na foto. Até porque não se fazem fotos da angústia e da insônia.

O momento da foto é apenas isso: um momento. O ex obeso pode ficar magro e depois acabar engordando de novo, ou ainda deixando de ser obeso mas adquirindo depressão ou coisa que o valha.
A ideia de felicidade permanente é apenas uma ilusão. Ou você que fez a foto sorrindo permaneceu sempre sorrindo até seus maxilares quebrarem de tanta tensão pra manter o sorriso for ever? Só na foto o sorriso é eterno.

Entenda uma coisa: não existem romances de filmes na vida real. O filme é um filme. Tudo é produzido pra dar aquela impressão de coisa grandiosa e grandiloquente. A música, a iluminação, a preparação dos atores, a maquiagem, o enredo, o ritmo, a fotografia, cada detalhe de um filme é previamente pensado para ser algo que dará inveja em todas as mocinhas e deixará todos os mocinhos com tesão.

O amor na vida real é confuso.

O amor na vida real é gago, escolhe mal as palavras, derruba coisas que não podem ser derrubadas, a mocinha tem mau hálito, o mocinho tem espinhas e chulé. A gente se apaixona por figuras patéticas e quando a paixão vai embora a gente olha nossas paixões de mau hálito e chulé com toda generosidade porque nós próprios sabemos que de vez em quando temos gases, somos sujeitos e fazer foto com a casca do feijão no dente e queremos que os outros tenham compaixão de nossas próprias limitações.
A fila anda? Pessoas podem ser substituídas por outras de verdade ou trata-se da raposa dizendo que as uvas estavam verdes?

Cada vez que a fila anda é porque algo não deu certo numa relação e nós, raposas com alguma auto-estima dizemos então que a fila andou. Mas a real-real é que não há fila.

Pessoas não substituem outras jamais. Cada um é diferente um do outro e na memória afetiva guardaremos cada pessoa por quem um dia sofremos ou tivemos prazer. A fila andar quer dizer que existem outras pessoas com quem praticaremos o sexo e com quem faremos novos erros e acertos. Mas nunca serão substituídas. Felizmente, a dor pára de doer tal como o sorriso da fotografia se desvanece. A vida continua, exceto quando se morre.

O amor não tem um sentido, uma ordem. Tal como a vida. A vida é um caos mesmo. Nós damos um sentido à nossa vida porque precisamos destes sentidos, precisamos destas coisas significativas para nortearmos nossa cabeça. Mas em si nada tem um sentido. Ou se tem, ele sempre nos escapa.
Acredite numa coisa: ninguém é tão feliz assim sempre, somos felizes por instantes e estes instantes são o que faz valer a viagem. Precisamos todos aprender a sofrer sem nos desesperar, precisamos todos adquirir flexibilidade e lidar com a dor. Sem a dor, não saberíamos o que é o prazer. É porque a fome existe que o alimento tem sabor.

Faça a si mesmo um favor: não leve as coisas tão a sério. A vida é o que nos acontece quando estamos distraídos. Mesmo.

O Sorriso da Fotografia

aí você olha aquele casal feliz, com seus filhinhos rosados e bochechudos, cercados de amigos, morando naquele lugar super bacana e pensa, diante de seus 1001 fracassos amorosos e financeiros onde foi que você errou. E eu te respondo: errou muito em muitos lugares, mas sossegue, o casal errou também.

Há certas coisas que são assim: você apresenta a fotografia de um momento e acha que aquele momento foi sempre igual e será eterno.

Nada é eterno e as coisas não foram sempre assim.

É que nem estas fotos de ex obesos que a revista apresenta o cara enorme e depois a foto dele sendo triatleta com super corpo magro.

Quantas coisas acontecem entre a pessoa imensa da foto e a pessoa atlética? Quantas mil batalhas perdidas e ganhas até chegar no momento da foto? Nenhuma das noites mal dormidas saem na foto, nenhum dos momentos de angústia saem na foto. Até porque não se fazem fotos da angústia e da insônia.

O momento da foto é apenas isso: um momento. O ex obeso pode ficar magro e depois acabar engordando de novo, ou ainda deixando de ser obeso mas adquirindo depressão ou coisa que o valha.
A ideia de felicidade permanente é apenas uma ilusão. Ou você que fez a foto sorrindo permaneceu sempre sorrindo até seus maxilares quebrarem de tanta tensão pra manter o sorriso for ever? Só na foto o sorriso é eterno.

Entenda uma coisa: não existem romances de filmes na vida real. O filme é um filme. Tudo é produzido pra dar aquela impressão de coisa grandiosa e grandiloquente. A música, a iluminação, a preparação dos atores, a maquiagem, o enredo, o ritmo, a fotografia, cada detalhe de um filme é previamente pensado para ser algo que dará inveja em todas as mocinhas e deixará todos os mocinhos com tesão.

O amor na vida real é confuso.

O amor na vida real é gago, escolhe mal as palavras, derruba coisas que não podem ser derrubadas, a mocinha tem mau hálito, o mocinho tem espinhas e chulé. A gente se apaixona por figuras patéticas e quando a paixão vai embora a gente olha nossas paixões de mau hálito e chulé com toda generosidade porque nós próprios sabemos que de vez em quando temos gases, somos sujeitos e fazer foto com a casca do feijão no dente e queremos que os outros tenham compaixão de nossas próprias limitações.
A fila anda? Pessoas podem ser substituídas por outras de verdade ou trata-se da raposa dizendo que as uvas estavam verdes?

Cada vez que a fila anda é porque algo não deu certo numa relação e nós, raposas com alguma auto-estima dizemos então que a fila andou. Mas a real-real é que não há fila.

Pessoas não substituem outras jamais. Cada um é diferente um do outro e na memória afetiva guardaremos cada pessoa por quem um dia sofremos ou tivemos prazer. A fila andar quer dizer que existem outras pessoas com quem praticaremos o sexo e com quem faremos novos erros e acertos. Mas nunca serão substituídas. Felizmente, a dor pára de doer tal como o sorriso da fotografia se desvanece. A vida continua, exceto quando se morre.

O amor não tem um sentido, uma ordem. Tal como a vida. A vida é um caos mesmo. Nós damos um sentido à nossa vida porque precisamos destes sentidos, precisamos destas coisas significativas para nortearmos nossa cabeça. Mas em si nada tem um sentido. Ou se tem, ele sempre nos escapa.
Acredite numa coisa: ninguém é tão feliz assim sempre, somos felizes por instantes e estes instantes são o que faz valer a viagem. Precisamos todos aprender a sofrer sem nos desesperar, precisamos todos adquirir flexibilidade e lidar com a dor. Sem a dor, não saberíamos o que é o prazer. É porque a fome existe que o alimento tem sabor.

Faça a si mesmo um favor: não leve as coisas tão a sério. A vida é o que nos acontece quando estamos distraídos. Mesmo.

quinta-feira, 30 de junho de 2016

o lugar certo do amor

Amor. Amor é bacana. Amor é lindo. Amor é algo fantástico. Mas tem algo que me incomoda, não no amor, mas na forma como muitas pessoas- aliás, talvez toda nossa cultura- vê o amor.

O primeiro absurdo: que não se pode viver sem amor.

Se você não respirar por alguns minutos de fato morre. Se você ficar sem comida por algum tempo de fato morre. Se você ficar sem água por algum tempo de fato morre.

Estas são as únicas coisas que sem as quais alguém morre se estiver sem. Todas as demais são "plus" na vida, coisas que se por alguma razão você ficar sem a vida será mais sem graça, ou mais desconfortável, ou mais monótona mas você continuará vivo.

Falo isso porque pessoas matam porque um belo dia vêem seu amor indo embora com outra pessoa. Falo isso porque pessoas se matam quando são deixadas pelo seu amor.

É preciso que se diga e até que se diga muitas vezes: amor não é tudo na vida. Há muitas outras coisas boas, bonitas, fantásticas no mundo.

Estar só e ser feliz é possível sim.

Não é porque não se tem um amorzinho, aquele par para se olhar estrelas que se deva desistir de ter amigos, de fazer coisas bonitas ou boas. Quantas vezes vou eu fotografar estrelas sem par algum. Olhar estrelas não depende de termos namorados. Basta ter olhos de ver. E, se quiser fotografar, uma máquina e a técnica de fotografar estrelas e depois editar a foto. Simples. Indolor.
Não estou aqui fazendo pouco do amor. O que estou é escrevendo para estas pessoas- que são legiões- desesperadas porque perderam o amor, porque não têm amor, porque não encontram amor e se desesperam- que amor definitivamente não é a única coisa gostosa que se faz na vida.

Só pensar no amor ao outro como objetivo e razão de viver chego a ousar dizer que é falta de imaginação e criatividade.

Talvez realmente fundamental seja o amor a si mesmo. Ou gostar das próprias rotinas.

Por amor a si mesmo, a própria pele, se inventar coisas divertidas, boas, dignas para se fazer.
Mas jamais matar ou morrer por amor. Isto é um pouco over. Afinal, se Mariazinha Josefina foi embora, há tantas outras Marias, há tantas outras Lúcias, há tantas outras Beatrizes, há tantas outras Carolinas. Vai matar por que uma não lhe quer havendo outras tantas? Ah, mas Mariazinha Josefina é a única que sabe fazer pinturas com a fumaça do seu cigarro. Ok. Eis um talento raro. Mas não se esqueça que Lúcia sabe falar na língua dos Elfos. Que Beatriz sabe nadar com os golfinhos. Que Carolina entende bebês que não falam. Todos nós temos algum talento raro. Então perder uma namorada não quer dizer perder a habilidade de se fazer gostar e de seduzir.

Se só Mariazinha Josefina caiu na sua cantada, está na hora de se tornar alguém mais interessante e aprender novas cantadas. Não de matar o cara por quem Mariazinha Josefina se apaixonou.

Hora de se reinventar e ser feliz.

domingo, 19 de junho de 2016

como eu odiava a Glaura Maria

como eu odiava a Glaura Maria. A Glaura Maria era a outra afilhada da minha madrinha. Nunca conheci a Glaura Maria pessoalmente. Só via uma foto e a madrinha citando a bendita Glaura Maria toda hora. Meu coraçãozinho infantil odiava profundamente à esta menina de quem eu nada sabia salvo as coisas que a Madrinha falava sobre ela. Eu odiava tanto à criatura que às vezes quando brincava de boneca havia aquela boneca que a outra boneca tratava muito mal e torturava que era a Glaura Maria. Puxava os cabelos, enfiava na água e afogava. Mil torturas de bonecas que eu não poupava na boneca da Glaura Maria.

O próprio som do G com o L e o A me dava gasturas. Tanto que quando na escola tive um coleguinha chamado Glaucon eu não gostava dele por extensão. Era o Gla da Glaura Maria atacando onde não era chamado.

E Glaura Maria jamais foi Glaura. Foi sempre esta coisa que leva horas de nome composto. Glaura Maria. Hoje em dia eu teria compaixão de uma pessoa com nome tão esquisito, mas na época ela era a personificação do meu horror.

Curioso porque na vida real eu encontrava crianças que não gostavam de mim mas a quem eu não nutria sentimento particular algum. No primeiro dia de aula, uma garota chamada Cassandra olhou pra mim e me acertou uma pedrada na testa que me levou imediatamente pro hospital e daí pra casa a quem eu temia, mas não odiava. Eu era gordinha e as outras crianças faziam chacota comigo e eu não as odiava. O mais perto de ódio que tive foi por uma professora de matemática, a Dinah, que me dava notas baixas, mas era mais uma raiva grande do que ódio. Ódio era todo pela Glaura Maria.
Muitos e muitos anos depois quando fui ler livros de Sociologia na minha 1a faculdade que estudavam estes fenômenos sociais de ódio ao diferente eu podia sempre internamente referendar estes ódios com meu ódio à Glaura Maria. A quem eu jamais conheci e que nunca me fez nada de mal mas que me provocavam sensações fortes negativas.

Hoje penso que se algum dia a menina Glaura Maria tivesse se apresentado a mim pessoalmente talvez eu acabasse gostando dela. Ou não. Mas provavelmente não a odiaria. Tenho pra mim que certos ódios muitas vezes se dirigem exatamente às pessoas estranhas, desconhecidas por serem estranhas e desconhecidas. São raivas infantis que tomam dimensão tão mais distantes sermos de certas pessoas.
Então dou meu brinde à Glaura Maria que me ensinou como são pouquíssimo racionais todos os ódios.

domingo, 12 de junho de 2016

meu namorado

meu namorado tem cara de tudo
de príncipe de gato de leão
de macaco de céu e até de sapo
meu namorado é tão bacana
que me ama
e eu não sou nada fácil