sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Seis Poesias Pornográficas e uma Breve Introdução


O erótico é considerado de bom gosto. O pornográfico é vulgar, considerado de mau gosto. Quando ouvimos hoje raps da periferia, o palavrão é usado geralmente de forma preconceituosa e o discurso sobre a sexualidade é machista. O povo costuma dar voz ao que se passa no mais primitivo de cada um. O fato de o palavrão ser usado da forma como hoje são colocados em músicas que talvez nem sejam músicas e deixando qualquer um ver que “são as cachorras”, “as preparadas” faz pensar que sexo ainda é visto como algo sujo. E mulheres sexuais são vadias. O erótico é mais artístico que o pornográfico? A visão sobre a mulher: mudou mesmo ou é só verniz?A poesia pornô será sempre considerada vulgar mesmo quando seu conteúdo for não-vulgar?

Eu faço poesia pornô. Não porque tal como uma criança queira ficar falando palavrão a esmo, mas porque para traduzir certos sentimentos só o palavrão. Igualmente porque gosto do corpo e do sexo, não vejo sujeira nem maldade no corpo nu.

Outra coisa que me leva a fazer poesia pornô é querer ultrapassar os limites do bom gosto e do bom tom que nossa mente pequeno-burguesa concebe. Mesmo já bem distante da adolescência quero mudar o mundo e se não puder mudar o mundo, quero ao menos ser livre para tentar.

Antes da palavra escrita, vale lembrar, o ser humano desenhava sacanagem nas paredes das cavernas. O palavrão a um só tempo remete ao mais primitivo e nos religa ao que há de mais profundo de nosso desejo. Agindo desta forma nos ajuda a transcender o momento macaco-pelado de nossa existência na terra.

Obscena é fome. Tirar as nhacas da caretice e os ranços do puritanismo estéril do ser é um excelente exercício. Alonga o pensamento e abre o coração. A suruba literária tem tudo a ver com os trópicos. Quem sabe o Zeitgeist tupiniquim não passe exatamente por uma espontaneidade que só nós, brasileiros, ainda temos.

TEIMOSINHO

Seu caralho é cabeçudo

Tal como o dono

Minha buceta é borbulhante

Tal xota tal mulher

Mas tenho cá meus absurdos

Como ter uma pele extremamente macia

E ser dura na queda

Visto azul e verde amarelo e azul

Não combino o léu com o creu

Por que?

ah sei lá

Tudo o que sei é que hoje andei com seu caralho na cabeça

E a cabeça no coração

O meu coração é minha xoxota que bate por você

Palminhas querido

Por me surpreeender

Faço festa para te receber

Chamo você com meus dedos aqui

Trazendo sucos e boas idéias

Numa bandeja de kiwis japoneses e pássaros tropicais

A côr da minha alma é ameixa e chocolate


Amor Foda e Respeito

À luz da razão parte de um mesmo cenário

no escuro entre quatro paredes

soberanos de diferentes critérios

O amor se torna respeito

no jardim por onde caminham dois companheiros

Mas a boa foda clama por outros efeitos

pede por outros mistérios que nem cabem em civilizados jardins

Quem esbanja em amor extrapola em pudor

e se atrapalha com os furores do corpo esquecido

Quem escolhe a sacanagem como guia

transforma o espírito em deserto árido

o corpo coisa na coisa do corpo sem voz

feliz é aquele que sabe

que os caminhos são muitos e são apenas um

caminha na companhia de todos

às vezes de nenhum

desses tiranos que só reinam porque pulsa o coração

Para Chamar Teu Nome

É preciso abrir bem a boca

Impossível a boca fechada

Ou estar entre dentes

Fundamental a seda o fogo e a água

Tua natureza de peixe não engana

Vontade de te esconder nas partes ocas

Morar no que é semente

Tenaz no que estira

Exacerbado no que aperta

Júbilo no que estremece

Caralho você é sempre mais

Que um mero pinto

E muito além de um complexo falo

Homem para sempre pássaro

Num céu de sangue suor e risos

Espero tua volta


Tudojuntonuminstante

O caralho orgulhoso afoito mergulha na direção de seu gozo

O caralho tímido reluta, faz que vai e não vai

O caralho em luto não sobe não sorri e chora

Na árvore onde balançam os passaralhos

É lá que quero estar

O coração de um homem

Fica na ponta sensível da glande

Uma falange de mistérios

Um mar de provocações

Grande é a alma do homem

Que sério se entrega ao coito

E alegre fica com fazer feliz a companheira

O melhor é sempre o desta espécie

Não importa se grande

PequenoMédioOuAtéMesmoBroxa

Homem bom é que deixa ela roxa

Por fora

E feliz por dentro

Homem bom é o que sabe nos amar

Sexo é feio?

Gostaria muito de saber o que há de feio num caralho

se é ele que nos faz aventura e sonho

gostaria igualmente saber por que se faz raso poço

o sonho da buceta ter seu pássaro alado, passaralho

já que todos somos frutos das estrelas


Por que tornar lodo o que é nossa herança de sangue e sal?

Por que tornar pequena a foda deslumbrante?


Por que não dar nome às coisas se cada coisa pertence a um nome

e soy ser o nome o malho pelo qual se transforma o pó em estátua (que depois vai para o museu)

e arranca suspiros das madames


O que faz determinar o bom gosto

o bom tom

a arte e a vulgaridade?


Amor é sacanagem

Corpo e pensamento


Bilau na perseguida

afoita perereca num rio de águas altas

tua porra salta na minha perna

e isso deveria ser bonito


Por que não é?


Me falta poesia ou te falta generosidade e maresia

para te transportarem em outras águas?

Falto eu ou falta você?

O que te cega se na minha perna você se esfrega

quando fica com tesão?


O que é poesia?


O contrário do simples relato?


Pois eu só faço poesia

porque jamais me atrelo a fatos


Que culpa tenho eu

da mesquinharia humana?


Eu sou poeta

muito antes de ser mulher

peço respeito ao meu estado

sempre grávida de luza lua

grande banquete em plena rua

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Um Sonho dentro do Sonho


Não sei se devo ficar ou se devo ir. Mas não saber tem sido uma constante em minha vida. Fácil me perco fácil me esqueço já me pareço com nuvem faz tempo, só falta pegar jeito.


Não há nenhuma praça aqui. Não vejo crianças, não vejo brinquedos. Não vejo namorados no banco. Vejo letras enfileiradas, muitas letras enfileiradas. Fazem sentido? Não sei. A letra sem nosso afeto não existe.


O cara que faz poesia para todas as mulheres e para nenhuma em específico está lá falando de uma morena agora. O exercício literário está coincidindo de ser feito com uma morena. Eu sou morena, mas sei que não é comigo esse papo. Como é que sei? Ora, o vento já sabe, então todo mundo já sabe também. E o vento levou.


A japonesa alemã escreve letras bonitas e se a leio não tenho nenhuma pergunta a fazer. Com uma escrita tão clara, só falta o sol nascente. Mas o sol nascente só acontece na hora certa, ele nunca atrasa nem adianta por mais que o ano seja bissexto.


Amanhã é o dia a mais que conta uma história que vem dos mais antigos calendários. Uma história feita de um grande sol e de um grande planeta, os dois sempre a girar.


O planeta sou eu. O sol? É meu filho, meus sonhos tornados em carne e osso. Lembro-me de como minha mãe tinha medo que eu andasse de pés descalços, ou que abrisse a geladeira e vejo meu filho rindo, livre, sem meus medos e sem os medos de minha mãe. Para mim, fracassar seria repetir minha mãe. Principalmente, ter repetido meus medos e os medos dela em meu filho. Ele é um sol. Portanto já é outra história. Parece que dei certo mesmo dando para tanta gente errada. O filho é o seguinte: não importa quantas vezes meus sonhos tenham sido espatifados, pois bastou um homem de bem para que tudo desse certo. Quanto aos campos que me esperam as flores que ainda não vi os pássaros que ainda não ouvi cantar- eles estão lá. Eu aqui.

Vamos nos aproximar lentamente, como continentes esquecidos, como ponteiros das horas num relógio enorme de catedral. Lentamente, tudo irá acontecer, já está acontecendo. E é no mundo, não aqui, que as coisas acontecem. Aqui, letras que muitas vezes parecem exercício de não deixar escapar nada. Uma da manhã. Hora de sonhar um outro sonho.

Uma Pseudo Escritora e as Tangerinas


A INSPIRAÇÃO


1º dia
As frases vinham à minha cabeça com a simplicidade da água que caía da torneira. O filme tinha sido ótimo, pensei nisso enquanto fazia pipi no banheiro. Chorei um pouco no escuro do cinema e isto funcionou como uma espécie de bálsamo para a ansiedade. Era um conto, quase certo, sem uma estrutura lógica obviamente, porque afinal de lógica eu nada tinha. Poética sim, lógica de jeito algum. A consciência era um fator estranho ao fluxo das palavras, que nasciam num canto como uma planta. E eu olhava esta planta acreditando que talvez esta fosse uma planta exótica e rara que finalmente me levaria a algum lugar no meu futuro artístico.

Não sabia quanto tempo esta fluência levaria para fazer crescer à planta, por isso, para não secá-la e terminar apenas com um punhado de terra seca nas mãos, peguei um táxi correndo para casa. No caminho, regava aquelas palavras murmurando-as baixinho, mas não tão baixinho assim. O motorista me ouvia, pensava que eu era maluca e isso me agradava. Conspirava a meu favor esta imagem da mulher louca dentro do táxi.

Queria chegar antes que Flavio, meu filho e Roberto meu marido voltassem. Rezei pelo caminho para que Flavio estivesse passeando com seus amiguinhos naquela linda tarde de sábado. Pelo menos tinha certeza que Roberto ainda demoraria um bom tempo naquele encontro de trabalho. No que dependesse de mim, ele poderia estar com dois outros marmanjos ou com uma loura de xoxota depilada ou até com toda esta turma. A única coisa que realmente desejava era chegar em casa, ligar o computador e começar a escrever meu conto. Aquele que finalmente me levaria ao corredor da fama com os tapetes vermelhos da glória.

Ao chegar, minha cadela me cumprimentou com seus uivos. Senti um cheiro ruim e logo me deparei com o fato que ela tivera uma diarréia. Ainda pressentindo as folhas de poesia da minha estranha planta, corri para achar pano de chão, Veja multiuso e papel absorvente. Ela ainda estava viva. Continuou viva até que eu terminasse de limpar tudo, mas não se manteve assim depois do telefonema de minha mãe que reclamava que eu não havia dado suficiente atenção à prova de Português de Flavinho, justo eu, que até queria ser escritora.

Fiquei arrasada. Não pude ajudar minha planta a se tornar a árvore ou flor que ela estava destinada a ser. Mal tinha conseguido perceber se aquela seria uma planta capaz de viver por si mesma, sem meus cuidados ou se era uma daquelas espécies caprichosas que escolhiam ter apenas um pouco de luz e calor para se fazerem desabrochar. Tudo o que pude sentir foi mais uma vez o fracasso, aquela visão de um bicho perdido, caminhando a esmo no fim de mais um dia.

2º dia
No apartamento, tudo era uma bagunça descuidada. Não me importava com a madeira cheia de cupins que cercava o ar-condicionado. O único lugar que realmente importava era um cantinho onde colecionava minhas miniaturas.

Eram zilhares. Um aparelho de porcelana branca para o chá. Bonecos de Vitalino. Uma girafa e um gato tailandês. Uma caixa de madeira trabalhada em marchetaria. Um par de bruxos. Cada coisa daquelas era uma vida, uma história. Na verdade, cada objeto daqueles remetia a um conto e cada conto era simplesmente a miniatura de uma vida. Todos ali no mesmo lugar do apartamento, esperando pela poeira dos dias ou por meu olhar aceso por dentro pela vontade de domesticá-los, compreendê-los em sua essência, descrevê-los com justiça e arte. Era surpreendente como podiam conviver tão bem deuses africanos com garrafinhas de cachaça Volúpia paraibanos. A vida era pura arte, bastava que eu tivesse o talento e a perspicácia de seguir seus movimentos.

Mas aquele dia minha agenda estava cheia. Passeio com o cachorro, ginástica, estágio, estudar para a prova de Flavio e ajudá-lo com a redação, cozinhar o arroz integral e a lentilha, além de ir ao hortifrutti para comprar duas beringelas, brócolis, bananas, mamões, abobrinhas, figos e shitakes.

Antes de dormir, sonhei com algumas outras frases daquele estranho conto, que cada vez mais se parecia com uma planta com suas folhas caídas à beira de um rio em que eu passeava de balsa.

Quantos dias mais haveria de aquela planta viver sem que suas palavras fossem registradas no computador?

3º dia

Acordei sentindo que aquele era um glorioso dia. Era o primeiro dia do resto da minha vida. Cumpriria minhas tarefas na manhã, mas me esperava uma tarde inteira livre, sem vivalma em casa para me demandar. Dessa vez conseguiria finalmente escrever meu conto.

Animada, fui cumprindo minha agenda. Passeio com a cadela, ginástica para manter o corpo saudável numa mente saudável, três telefonemas de retorno aos clientes, um artigo de 10 parágrafos para a revista da minha amiga Dora que contava comigo para fazer de sua revista algo agradável e variado, uma ida rápida ao supermercado para comprar sabonete e pasta de dente, fazer uma salada e despachar o marido para o trabalho. Liguei o computador, mas de repente entra Flavio com quatro amigos. Eles precisariam fazer um trabalho de grupo e eu não poderia usar mais o computador.

Tentei escrever no caderno algumas frases que surgiam como os últimos espasmos daquela planta que nunca tive sequer a chance de ser apresentada. Adeus fama, fortuna. Adeus grandes mudanças. Adeus raio de sol. Restava uma vida cordata à sombra de meus homens.

Não consegui dormir. Por cinco dias, passei a ter insônia, adquiri a mania de medir minha pressão e sentia, permanentemente, aquela sensação horrível de morte eminente.

4º dia
Consegui fazer um conto de duas páginas em vinte minutos. Não alcancei fama e fortuna, mas pelo menos, aprendi a espremer o suco da minha imaginação em duas páginas. Neste dia, também descobri que não se batiam tangerinas no liquidificador para se fazer suco e sim que o suco de tangerina era feito das tangerinas pocans. Estas devem ser espremidas como laranjas. E pronto, você tem um suco de tangerina.

Deus fez o mundo em seis dias, errou um monte. Em quatro, aprendi a fazer suco de tangerina e a ser a tangerina. Era emocionante ser uma tangerina numa pradaria de asfalto no Rio de Janeiro.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Gotas de Luar




Peguei a bicicleta e saí de manhã, bem cedo, catando as gotas de luar da noite anterior. As guardei conchas na minha mão e espalhei outras pelos cabelos e por todo o corpo. Dobrei a Paissandu, segui pela Pinheiro Machado. Elas eram tantas e cada uma contava a história de um namorado. As gotas de luar são mocinhas em botão que espalham beijos pelo caminho.

Gota de luar acontece em todo lugar. Elas estão nas guerras e na paz, no jardim e na Avenida Nossa Senhora de Copacabana ou entre os quiosques novos da praia. Mas é entre namorados que elas gostam de estar.

Foi a gota de luar que me ensinou que mesmo que o destino seja sempre o chão, é no ar e no infinito de céu acima que se compõe uma canção, que se dá sentido a uma vida.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Homem Fresta


Já sei que você não presta
tudo em você fresta
e faz frio quando venta
molha quando chove
Você é cheio de esquinas
dobras sem pisca pisca
e não há pisca alerta
pras tuas milhòes de arestas
Minha língua quebra
quando te chamo pelo nome
Você se recusa a entrar pra gaveta
usar uma etiqueta
fazer um sentido
qualquer que seja
E quando penso que finalmente te entendi
você salta da lata
faz uma festa
e me arrebata
sem susto
no seu mar bravio

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Uma Mulher Sem Sentido Algum


Ela simplesmente nunca usava calcinhas. Achava inúteis. E gostava de sentar de pernas abertas. Fazia desenhos que sempre eram falos, seios, bucetas mesmo sem jamais ter visto um falo e só ter visto seu próprio sexo e o peito de sua mãe. Ela não pensava em outra coisa que não sexo. Muito antes de saber o que era o sexo, muito antes de desconfiar que sexo, dinheiro e poder movem o mundo, ela já era completamente fixada em sexo.

O tempo passou e não demorou muito para que ela simplesmente se perdesse pelo caminho. Largou a escola no primeiro grau e aos 16 anos foi internada numa casa de saúde. Dali para diante, sua vida era sempre esta: internações, remédios, mais internações, mais remédios. Seu rosto foi se deformando pelo uso de drogas tão pesadas. Seu corpo inchou. Aos 20 anos, parecia uma matrona de 50.

Continuava detestando usar calcinhas. Seus dedos sempre estavam cheirando a sexo. Ela era uma xoxota ambulante, seus cabelos lisos, escorridos, sempre em desalinho. Sua respiração arfante. Suas mãos tremendo.

Um dia fez um desenho. Ela adorava pintar, era seu único momento de paz. Neste dia, as cores a chamaram e ela se perdeu num infinito de coisas sem nome e de nomes que não diziam ao quê pertenciam. Para sorte dela, no desenho, finalmente, um lindo falo a desvirginara. Aos 22 anos, finalmente, abraçou e lambeu a um falo verdadeiro, que morava no centro de uma de suas lindas pinturas sem sentido. Seu nome era Maria Pia Batista. Aquela que a si mesma benzeu nos caminhos duros do mundo.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Historietas Sem Pé Nem Cabeça




Saltitando livre num mundo sem pé nem cabeça, se apaixonou o sapato pelo chapéu, que voava enfim livre pelo céu.

Para o marido, contou sobre o amante. Para o amante, contou que nunca deixara de amar o marido. Como explicar que finalmente se apaixonara por suas próprias mãos?

Chorava noite e dia. Depois dia e noite. Foi levada por uma enxurrada de lágrimas.

Depois de chorar cem dias e cem noites, transformou-se em sereia e foi viver no meio do oceano de suas próprias lágrimas.

Tinha medo de tudo. Medo de estar só. Medo de multidões. Medo de lugares fechados. Medo de lugares abertos. Um belo dia se jogou do décimo andar, pois só não tinha medo de cair.

Brigava com a mãe. Brigava com o filho. Odiava os vizinhos. Detestava a conjuntura nacional. Furiosa adentrou as portas do inferno. O grande anjo decaído lhe apaziguou a alma servindo-lhe um cálice de fogo.

Por ter medo de morrer, inventou a vida após a morte. Por ter medo de viver, acreditou na sua fantasia.

Só cuido do que é meu. Não cuido do que é seu. Quanto mais coisas tenho, mais perco o sentido da vida.

Lembrete do dia: aprender com os cães a amar sem mágoas. E com as borboletas, a voar de flor em flor.

Passou onze meses sonhando com as férias. Durante as férias, dirigia para lá para cá, ia daqui para acolá e não havia paisagem que não merecesse uma fotografia. No fim das férias estava exausto.


Adorava todo o tipo de pontes. Ia a todos os lugares do mundo e estudava cada uma com imenso carinho. Numa de suas viagens, o carro enguiçou sobre uma que se encontrava sobre um rio, que naquele exato local, formava uma imensa cachoeira. Atônito descobriu que as cachoeiras eram as pontes de água que ligavam o rio ao seu próprio salto. Viaja agora mundo afora em busca de cachoeiras.

O que é o que é, dorme se acorda, acorda quando dorme e nunca está livre de sua ansiedade? O que é o que é, é mais louco quando se pensa normal e muito mais normal quando se pensa louco ? Se a vida é uma grande charada, o que vale mais: uma boa pergunta ou uma boa resposta?

O menino adorava vídeo game e achava muito chato ler. A menina de quem ele gostava também adorava vídeo game e achava chato ler. Os dois se gostavam muito, mas nunca desconfiavam que o afeto fosse recíproco. Quando se viam, faltavam palavras.

O menino e a menina começaram a se encontrar. Substituiram palavras por beijos. Ficaram juntos até terminarem os beijos. Os beijos duraram toda uma vida.

Duas mulheres começaram a discutir a propósito de um trabalho. Começaram a brigar todos os dias. Nenhuma das duas lembrava mais por que havia começado a briga. Mas jamais se esqueciam de permanecer em atrito.

O marido todos os dias traía sua esposa. Cada vez com uma mulher diferente. Um dia chegou a casa e sua esposa estava de malas prontas, amava outro homem e ia embora. O marido furioso com a atitude da antiga companheira, todos os dias traçava ardis e planos diabólicos para desgraçá-la. Já não saía com nenhuma mulher e passava dias e noites em completa solidão. Viveu assim o restante de seus dias, sem jamais alcançar seus perversos objetivos. Seu ódio era muito mais fiel que seu amor.

Um furacão passou por uma cidade. Morreram muitos homens, mulheres, crianças e velhos. As criações ficaram arrasadas e muitas colheitas foram perdidas. Na igreja, os habitantes da próxima cidade no caminho do furacão rezavam implorando a Deus que este tornado desviasse seu caminho e lhes poupasse às vidas. Mal sabiam que o seu Deus era o mesmo Deus dos furacões, era o criador tanto dos homens e dos bichos quanto dos ventos e das tempestades. As preces dos furacões eram feitas em súplicas serenas de brisas. Deus ouvia ao palavrório humano e sentia o frescor das brisas.


Deu preferência às preces do furacão. A vontade do furacão era girar numa velocidade estonteante, sem limites, sobre o chão. Assim o fez, sob as bençãos de Deus. Que cuidava de homens, bichos, mas também de pedras, rios, ventos e constelações. Não seria justo cuidar de uns e abandonar os outros. Era o Deus de todos, era muitos e era um só. Quando os homens e bichos morreram pela dança do furacão, era inclusive o mesmo Deus dos vermes, que comiam os corpos de homens e bichos.