terça-feira, 3 de maio de 2022

Não posto há séculos. Endereço perdido, solto, totalmente vácuo. Sensação de liberdade.

domingo, 5 de novembro de 2017

A Borboleta Azul, a Tartaruga e o Sanhaço

A Borboleta Azul, a Tartaruga e o Sanhaço

Tem umas histórias que conto umas mil vezes porque adoro lembrar delas.

A primeira se passou quando eu era criança. Estava no Parque da Cidade. Já tinha dúvidas existenciais nos meus sete gorduchos anos. Me perguntava sobre a existência de Deus e principalmente sobre a minha. Estava muito impressionada com a foto da menina nua vietnamita correndo. Pensava que não era possível existir Deus se aquilo acontecia com uma menina que devia ter a minha idade. Aí eu vi uma borboleta azul. Saí correndo atrás dela. Nada de pegar. Aí sentei e pensei: se Deus achar que eu tenho uma missão no mundo a borboleta virá sozinha pousar na minha mão. E fiquei lá bem paradinha. Depois de um tempo a borboleta azul veio por si só e pousou de fato na minha mão. Desde então eu sei que tenho uma missão importante.

A segunda história que gosto de contar era uma em que eu tinha acabado de correr no Aterro e vi ao longe um homem na beira do mar com alguma coisa redonda e grande. Fui até a areia, tirei o tênis e era um cara com uma imensa tartaruga marinha. Ele era um pescador e a tartaruga havia ficado à noite toda presa na rede se debatendo. Estava muito cansada e se ele não ficasse ali com ela a bichinha afundaria e morreria. Aí ele estava muito nervoso porque temia que algum fiscal do IBAMA o visse e o multasse por pesca ilegal a uma espécie em extinção. Então me ofereci pra ficar com ela. Ele me ensinou o que eu deveria fazer e eu fiz. Retirava a cabeça dela pra fora da água e a deixava respirar.
Não sei por quanto tempo fiz isso. As crianças vieram brincar conosco muito impressionadas. Todas queriam ajudar a mim e a tartaruga. Tiramos ela da água, deixamos na areia tomando sol, pusemos de volta. Ficamos ali na função respiração de tartaruga um tempão. Até que finalmente ela começou a mexer as patas com mais força. Quando vi que ela estava mesmo bem forte soltei. E ela nadou lindamente pro fundo. Eu e as crianças ficamos felicíssimas e imaginamos tudo o que a tartaruga faria agora que estava livre. Que teria filhotes. Que um dia nadaria conosco. Acho que já nadei com ela em Fernando de Noronha. E ela tinha filhotes.

A outra história era do meu ar condicionado do meu antigo apartamento na General Glicerio.
Um belo dia começou a rolar um alvoroço de passarinho. Uns fiapos. Uns trecos. Sons de asas. Um tempo depois, piados. Meu ar condicionado era um ninho de uns passarinhos meio verdes que depois descobri serem sanhaços perguntando pros ornitólogos de plantão. Haviam alguns filhotes. Eram 3 criaturas. Olhei pelo buraquinho. Eles piavam muito. Não me deixavam dormir às vezes. Aí peguei o hábito de falar com eles. Não é que eles prestavam atenção em mim? Acalmavam. Aí finalmente apareciam os pais (onde estavam? Na balada? Por que não vinham dar comida pros carinhas? Falta de inseto? Falta do que?) e eles comiam e dormiam todos.

Isto durava semanas. Aí um dia o ar ficava silencioso e eu sentia falta dos meus bichos fazendo algazarra. Não por muito tempo. Fizeram 3 vezes ninho no meu ar. Era um caos. Eu curtia.
Quando mudei pro Flamengo fiquei muito preocupada com meus parentes sanhaços. Aonde fariam seus ninhos da próxima vez?
Até hoje olho os sanhaços e me pergunto se vem lá das Laranjeiras. Mando lembranças.

Bordadinhos da Vida

Bordo e as violetas florescem
O gato vem brincar
Com os novelos de lã
E eu faço nó nos meus pensamentos
Uma fada boa de mãos dadas com uma ruim
Ambas rindo de mim
Dedos furados na agulha
Versão contemporânea dos velhos contos
Em vez de dormir
Vou ao cinema
No lugar do príncipe
Aguardo ansiosa a nova geladeira
A antiga pifou e só serve pro gato brincar de esconder

quarta-feira, 14 de junho de 2017

a gelatina e o docinho italiano

não tem como uma gelatina diet vencer uma paglia italiana. Não tem. Pra gelatina vencer você tem de pensar que se comer a paglia irá ter diabetes, sua perna vai ser amputada, você vai ter Alzheimer e as sete pragas do sedentarismo irão todas te atacar cruelmente. Se você consegue naturalmente ser magra e linda, só comer frutinhas, legumezinhos e ser feliz, deve ser porque não gosta tanto assim de paglia italiana ou porque viu o vídeo que compartilhei hoje sobre as pobres vacas estupradas e decidiu racional e sabiamente nunca mais se aproximar de nenhum derivado de leite para parar o estupro dos pobres animais indefesos. Parabéns pra ti, mas eu ainda não cheguei neste grau de maturidade.
Vejam a lógica macabra da coisa toda: alguém inventou o leite condensado. Inventou o leite condensado no tempo que as vacas davam leite e não eram inseminadas artificialmente e com violência, no tempo que elas eram manualmente ordenhadas, tudo ali lindo como a Noviça Rebelde, o filme. Aí veio outro e inventou que com chocolate a coisa ficava mega interessante e botou ainda por cima biscoito maisena no tempo em que as coisas todas eram melhores e mais saudáveis. Aí nasceu a paglia italiana, que talvez nem seja italiana e sim uma palha soteropolitana da boa. Um treco mega plus ultra docíssimo que faz suas taxas de açúcar irem todas para as alturas.

Aí as pessoas comem estas porcarias durante toda a sua juventude. Quando ficam mais velhas, engordam, adoecem e são obrigadas pelos médicos a largarem disso tudo se não quiserem morrer no fogo dos infernos das doenças advindas desta civilização que é toda ela, de cabo a rabo, hipócrita em um tudo. Inclusive sobre este papo de doenças e velhice. Porque o cara não adquirir diabete não significa que ele não vai adquirir alguma coisa e morrer no fim das contas do mesmíssimo jeito que o que adquiriu diabetes. Todas as doenças são horríveis e algumas são mais feias mas todas são mais ou menos letais.

Mas vou voltar pra estrada. O cara come estas porcarias maravilhosas toda a vida e depois adoece. Uns por muita pizza, outros por muito açúcar, outros por muitos cigarros, outros por muito álcool. Ora, se estas coisas adoecem, por que caralhos são tão facilmente encontráveis em toda esquina?
Vão me chamar de louca, mas ao meu ver a paglia com g italiana ou baiana sem g é uma droga tão ou mais perigosa que a cocaína. E é dada para as criancinhas. As verdadeiras portas para outras drogas são os brigadeiros, cachorros quentes e coca-cola dadas nas festinhas de criança para as pobres e inocentes criancinhas que se viciarão nisso e depois adoecerão disso. Quem desconfiará do próprio pai ou mãe como sendo um vilão?

Tenho uma lista destas coisas que parecem bestas mas são fatais.

Quer ver outra? Rasteirinha.

O que toda mulher (e alguns homens) irão descobrir lá pelos seus 45, 50 anos é que as sandálias rasteirinhas como são chamadas aquelas sandálias que são sem salto e sem uma borrachinha pra amortecer a pisada no solo fazem um senhor mal aos pés e acabam por dar um monte de doenças nos pobres pés. E aí a pessoa só lá, quando já está lascada descobre é que o pé não fica isolado do resto do corpo. Adoecer do pé e logo depois do joelho ou do tornozelo é bem mais comum do que parece. Há centenas de milhões de casos. Porque o corpo não é um bando de partes separadas umas das outras e sim um corpo só. O pé fica no mesmo corpo que o braço ou o pescoço. Um pé doente, uma pisada errada afeta todo o demais organismo. Isto se descobre geralmente quando já se adoeceu de um tudo.

Por que continuam fabricando sapatos sem uma borracha que amorteça a pisada se todos os ortopedistas sabem que não se deve usar este tipo de pisante?

A moda deveria incorporar, natural e obrigatoriamente, todos estes conceitos que são conhecidos por todos os profissionais que lidam com o corpo. Quem quisesse uma rasteirinha que fabricasse a sua e ficasse ferrado depois por sua própria conta e risco. Mas não avisar as jovens que elas irão forçosamente acabar ferradas se usarem estas porcarias e ainda por cima ditar uma moda obedecida depois por todas as lojas é uma baita falta de sacanagem com as pessoas, particularmente com as mulheres. Neste ponto acho que as mulheres são sempre mais vitimadas pela moda que os homens. São sapatos de bico fino, sapatos de saltos agulhas de sei lá quantos centímetros, roupas apertadas e os cabelos....deuses, os cabelos merecem parágrafo especial.

Aquela operação assassina chamada "escova" que alisa os cabelos da moçada: aquilo foi inventado por uma pessoa que odeia mulheres. Tenho absoluta convicção e não preciso de provas. Puxa cabelo, queima couro cabeludo, quanto mais puxa "mais lindo fica". Horror dos horrores este negócio que este bando de mulher se submete. Pra que? Pra ficar na moda dos cabelos com escova. Porque hoje é considerado elegante ter o cabelo assim repuxado e é considerado "largação" deixar o cabelo como Deus fez.

Se eu fosse homem e minha namorada aparecesse na minha frente com o cabelo "escovado" eu diria pra ela como Zeca Baleiro: Baby você não precisa de um salão de beleza. Porque homens que amam mulheres deveriam é se revoltar contra os maus tratos que suas amadas recebem e ainda pagam caro por isso. Tem que ser muito misógino pra aprovar uma escova.
Poderia seguir com esta lista, mas prefiro que vocês leiam um bom livro nesta noite. Boa Noite. Bom Dia. Boa Tarde- Cynthia Dorneles sentindo-se revoltada

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

mães que amam demais de menos de trás e de frente

mães são animais indóceis que ou criticam demais ou amam demais ou fazem sei lá o quê de menos. Não tem muita saída: Freud já mandou a letra sobre o triângulo edipiano formador das primeiras neuroses de nossos filhos, Lacan endossou esta visão dos infernos com aquele papo de mãe jacaré que come seus filhotes e o único que foi bonzinho com as mães foi Winnicott que realisticamente reconheceu que basta que a mãe seja suficientemente boa. Suficientemente boa é sensacional. Bem mais próximo de nosso feeling de mães.


Se você é mãe e desconfia que fez alguma coisa errada com seu filho há uma forte chance de ter mesmo feito algo de errado. Provavelmente mais de uma coisa. Só me pergunto quem será esta mãe que nunca erra. Pelo amor de Deus não me contem. Prefiro ter a ilusão de estar acompanhada por um monte de amiguinhas. Já pensou se amanhã de manhã acordo com um monte de postagens de filhos e filhas agradecidos por suas mães perfeitas que jamais pisaram na bola com eles? Pulo da ponte. Melhor não.

O fato foi que ontem o filho fala en passant, assim, muito brincando, de boas, sem nem achar que eu ia ouvir ou levar a sério, que eu só o criticava. Aí hoje passei o dia tentando compensar tal ato malvado de minha parte de só o criticar. Quem sou eu pra criticar quem quer que seja? Por acaso sou Juiz Moro na vida? Tô com a Lava Jato no corpo? Sai deste corpo que não te pertence credo em cruz. Fora Temer. Acredito mais que como boa neurótica que sou, a culpa passa lá no Japão e eu aqui no Rio já a tomo pra mim. Então o filho fala brincando mas eu levo tremendamente a sério. Aí até cozinhar no verão cozinhei. Aqui na minha mini tribo cozinhar com altas temperaturas é considerado pecado mortal. No verão não é uma época pra uma mulher emancipada, militante feminista como eu, se aproximar de um fogão quente existindo tantos deliveries. Mas lá fui eu pro fogão as dez da noite. Tudo pra compensar ao filho estas tantas críticas e demonstrar assim o meu apreço à criatura.

Aí entrego assim, minha primeira tapioca com carne assada, queijo canastra derretido, batatas coradas. Pergunto se gostou. "Não deu pra saber, tá muito quente, ainda não provei" responde o cabra. Olhos atentos, o vejo dando a primeira garfada. Aí digo: calma, vai se queimar, tá muito quente. E então arrisco novamente: prestou?
Tá uma delícia. Ufa. Aí lá vou eu: filho, te acho um cara incrível, boa gente, solidário, lindo de morrer, você acha que só te critico? Você percebe que mamãe te ama?

Aí o que ele responde? "até demais".

Aí sim, assim tá bom. A ideia é esta mesma. Que eu peque por amor demais. Claro que dá zebra amar demais. Mas fico mais feliz em ser uma mãe que ama demais do que uma que critica demais. Assim tá bom, assim tá justo, tá bacana, tá favorável. Porque errado eu sei mesmo que faço um monte de coisas.

Se ele ler isto, vai ficar sem jeito, claro. Todos eles ficam. Envergonhadíssimos. Bem, é isso, rapazes e moças. Mães são insuportáveis. Irremediáveis. A gente nunca se recupera de ver vocês quando bem pequenininhos mamando de nosso leite, dormindo tranquilos, no nosso colo. Seja lá o que role depois, mesmo que nos tornemos até distantes- sim, as vezes podemos nos distanciar, a vida é assim- sempre que olharmos para vocês viveremos uma idílica memória de vocês serem nossos filhos amados, orgulhosas por vocês terem dado seus primeiros passos, por terem aprendido a falar, depois a nadar, depois a contar, depois a ler e todas estas coisas que são esta grande aventura de formar uma nova pessoa no mundo.

Quando vocês estiverem ali, muito compenetrados sendo adultos, nós lembraremos de algum dia em que tivemos de trocar suas fraldas num bar lotado num ato impossível de tornar limpinho um bebê num lugar nada higiênico ou algum ato do gênero.

Tenho dito. Assinado mamãe Cynthia Dorneles

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

são meninos

São meninos.
Menino Jesus também era.
Cresceu virou milagre.
estes crescem pro milagre chamado Brasil,
aquilo que arde,
uma brasa o brasil que se consome a si mesma
e cozinha muitos horrores
sem jamais perder a beleza
eis o mistério
o país nos consome e vive na gente
cada vez mais indistinto
faz todos os dias meninos e meninas
a quem ninguém quer cuidar
crescem como nossos matos
e depois as formigas devoram
São meninos.
Menino Jesus também era.
Mas pra sorte dele, Jesus era filho de Deus.
Estes meninos são filhos de quem?
quem cuida deles?
quem são seus pais?
Criança é bicho lindinho e fofo
estes moleques
pernas escuras e sujas
magras e longas
serão mesmo meninos?
os olhos de bola
flutuam negros na tigela
lá se foi um menino

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

quase sem ser

Eles chegam junto
São Marias Josés Joões
São suspeitos
São inocentes
São culpados
São invisíveis
São quase todos pretos
São sempre mais pobres
São quase sem ser
Um nada feito de bocas e pés pra correr
Nenhum carteiro lhes acha
Salvo o tiro certeiro da morte
Deles ninguém quer nada
Salvo distância
Porque têm um cheiro
O cheiro dos bichos abandonados
Até suas mães deles querem distância
A eles cabe o milagre de resistir
Ao sol ao céu ao mar profundo
Os verdes amarelos azuis
Todos tingidos em sangue
A correr a vazar a se acabar
Sempre tarde demais- Cynthia Dorneles

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

a primavera chegou mas as flores não sorriram
agosto não terminou
homens tristes arreganham os dentes
vorazes
e vazios

o dia de hoje trata-se de escolher
qual miséria lhe interessa mais
calar todos os gritos
sufocar todas as lágrimas
seguir em frente
quando o caminho teima em ir para trás

vivemos num labirinto
sem leste nem oeste
estibordo nem bombordo
não há nascer do sol
e as sombras tomam conta de tudo

nascem os pássaros
não se ouve um pio

só aprendemos a circular
nosso único norte
parece ser nosso próprio umbigo

o Brasil foi feito para ser brasa
mas é de cinzas coberto
não me falem em destino
quando um dia houve em que tanto poder
foi jogado no ralo

a mim parece um desatino
serem os juízes os maiores ladrões
e os réus não santos
mas muito mais probos

de que valem as leis?
de que vale a honestidade?
de que vale um voto?

aqui só sabem dar socos
chutes e pontapés
sabemos tantos palavrões
e nenhuma palavra
lavra teu buraco
verme que nunca viu a luz
lavra mais
voltas pro pó aonde viestes
criatura sem viço nem cor

volta pra tua cova
e que esta seja rasa
como tua vida
aonde jamais veio luz


domingo, 10 de julho de 2016

O Sorriso da Fotografia



aí você olha aquele casal feliz, com seus filhinhos rosados e bochechudos, cercados de amigos, morando naquele lugar super bacana e pensa, diante de seus 1001 fracassos amorosos e financeiros onde foi que você errou. E eu te respondo: errou muito em muitos lugares, mas sossegue, o casal errou também.

Há certas coisas que são assim: você apresenta a fotografia de um momento e acha que aquele momento foi sempre igual e será eterno.

Nada é eterno e as coisas não foram sempre assim.

É que nem estas fotos de ex obesos que a revista apresenta o cara enorme e depois a foto dele sendo triatleta com super corpo magro.

Quantas coisas acontecem entre a pessoa imensa da foto e a pessoa atlética? Quantas mil batalhas perdidas e ganhas até chegar no momento da foto? Nenhuma das noites mal dormidas saem na foto, nenhum dos momentos de angústia saem na foto. Até porque não se fazem fotos da angústia e da insônia.

O momento da foto é apenas isso: um momento. O ex obeso pode ficar magro e depois acabar engordando de novo, ou ainda deixando de ser obeso mas adquirindo depressão ou coisa que o valha.
A ideia de felicidade permanente é apenas uma ilusão. Ou você que fez a foto sorrindo permaneceu sempre sorrindo até seus maxilares quebrarem de tanta tensão pra manter o sorriso for ever? Só na foto o sorriso é eterno.

Entenda uma coisa: não existem romances de filmes na vida real. O filme é um filme. Tudo é produzido pra dar aquela impressão de coisa grandiosa e grandiloquente. A música, a iluminação, a preparação dos atores, a maquiagem, o enredo, o ritmo, a fotografia, cada detalhe de um filme é previamente pensado para ser algo que dará inveja em todas as mocinhas e deixará todos os mocinhos com tesão.

O amor na vida real é confuso.

O amor na vida real é gago, escolhe mal as palavras, derruba coisas que não podem ser derrubadas, a mocinha tem mau hálito, o mocinho tem espinhas e chulé. A gente se apaixona por figuras patéticas e quando a paixão vai embora a gente olha nossas paixões de mau hálito e chulé com toda generosidade porque nós próprios sabemos que de vez em quando temos gases, somos sujeitos e fazer foto com a casca do feijão no dente e queremos que os outros tenham compaixão de nossas próprias limitações.
A fila anda? Pessoas podem ser substituídas por outras de verdade ou trata-se da raposa dizendo que as uvas estavam verdes?

Cada vez que a fila anda é porque algo não deu certo numa relação e nós, raposas com alguma auto-estima dizemos então que a fila andou. Mas a real-real é que não há fila.

Pessoas não substituem outras jamais. Cada um é diferente um do outro e na memória afetiva guardaremos cada pessoa por quem um dia sofremos ou tivemos prazer. A fila andar quer dizer que existem outras pessoas com quem praticaremos o sexo e com quem faremos novos erros e acertos. Mas nunca serão substituídas. Felizmente, a dor pára de doer tal como o sorriso da fotografia se desvanece. A vida continua, exceto quando se morre.

O amor não tem um sentido, uma ordem. Tal como a vida. A vida é um caos mesmo. Nós damos um sentido à nossa vida porque precisamos destes sentidos, precisamos destas coisas significativas para nortearmos nossa cabeça. Mas em si nada tem um sentido. Ou se tem, ele sempre nos escapa.
Acredite numa coisa: ninguém é tão feliz assim sempre, somos felizes por instantes e estes instantes são o que faz valer a viagem. Precisamos todos aprender a sofrer sem nos desesperar, precisamos todos adquirir flexibilidade e lidar com a dor. Sem a dor, não saberíamos o que é o prazer. É porque a fome existe que o alimento tem sabor.

Faça a si mesmo um favor: não leve as coisas tão a sério. A vida é o que nos acontece quando estamos distraídos. Mesmo.

O Sorriso da Fotografia

aí você olha aquele casal feliz, com seus filhinhos rosados e bochechudos, cercados de amigos, morando naquele lugar super bacana e pensa, diante de seus 1001 fracassos amorosos e financeiros onde foi que você errou. E eu te respondo: errou muito em muitos lugares, mas sossegue, o casal errou também.

Há certas coisas que são assim: você apresenta a fotografia de um momento e acha que aquele momento foi sempre igual e será eterno.

Nada é eterno e as coisas não foram sempre assim.

É que nem estas fotos de ex obesos que a revista apresenta o cara enorme e depois a foto dele sendo triatleta com super corpo magro.

Quantas coisas acontecem entre a pessoa imensa da foto e a pessoa atlética? Quantas mil batalhas perdidas e ganhas até chegar no momento da foto? Nenhuma das noites mal dormidas saem na foto, nenhum dos momentos de angústia saem na foto. Até porque não se fazem fotos da angústia e da insônia.

O momento da foto é apenas isso: um momento. O ex obeso pode ficar magro e depois acabar engordando de novo, ou ainda deixando de ser obeso mas adquirindo depressão ou coisa que o valha.
A ideia de felicidade permanente é apenas uma ilusão. Ou você que fez a foto sorrindo permaneceu sempre sorrindo até seus maxilares quebrarem de tanta tensão pra manter o sorriso for ever? Só na foto o sorriso é eterno.

Entenda uma coisa: não existem romances de filmes na vida real. O filme é um filme. Tudo é produzido pra dar aquela impressão de coisa grandiosa e grandiloquente. A música, a iluminação, a preparação dos atores, a maquiagem, o enredo, o ritmo, a fotografia, cada detalhe de um filme é previamente pensado para ser algo que dará inveja em todas as mocinhas e deixará todos os mocinhos com tesão.

O amor na vida real é confuso.

O amor na vida real é gago, escolhe mal as palavras, derruba coisas que não podem ser derrubadas, a mocinha tem mau hálito, o mocinho tem espinhas e chulé. A gente se apaixona por figuras patéticas e quando a paixão vai embora a gente olha nossas paixões de mau hálito e chulé com toda generosidade porque nós próprios sabemos que de vez em quando temos gases, somos sujeitos e fazer foto com a casca do feijão no dente e queremos que os outros tenham compaixão de nossas próprias limitações.
A fila anda? Pessoas podem ser substituídas por outras de verdade ou trata-se da raposa dizendo que as uvas estavam verdes?

Cada vez que a fila anda é porque algo não deu certo numa relação e nós, raposas com alguma auto-estima dizemos então que a fila andou. Mas a real-real é que não há fila.

Pessoas não substituem outras jamais. Cada um é diferente um do outro e na memória afetiva guardaremos cada pessoa por quem um dia sofremos ou tivemos prazer. A fila andar quer dizer que existem outras pessoas com quem praticaremos o sexo e com quem faremos novos erros e acertos. Mas nunca serão substituídas. Felizmente, a dor pára de doer tal como o sorriso da fotografia se desvanece. A vida continua, exceto quando se morre.

O amor não tem um sentido, uma ordem. Tal como a vida. A vida é um caos mesmo. Nós damos um sentido à nossa vida porque precisamos destes sentidos, precisamos destas coisas significativas para nortearmos nossa cabeça. Mas em si nada tem um sentido. Ou se tem, ele sempre nos escapa.
Acredite numa coisa: ninguém é tão feliz assim sempre, somos felizes por instantes e estes instantes são o que faz valer a viagem. Precisamos todos aprender a sofrer sem nos desesperar, precisamos todos adquirir flexibilidade e lidar com a dor. Sem a dor, não saberíamos o que é o prazer. É porque a fome existe que o alimento tem sabor.

Faça a si mesmo um favor: não leve as coisas tão a sério. A vida é o que nos acontece quando estamos distraídos. Mesmo.

quinta-feira, 30 de junho de 2016

o lugar certo do amor

Amor. Amor é bacana. Amor é lindo. Amor é algo fantástico. Mas tem algo que me incomoda, não no amor, mas na forma como muitas pessoas- aliás, talvez toda nossa cultura- vê o amor.

O primeiro absurdo: que não se pode viver sem amor.

Se você não respirar por alguns minutos de fato morre. Se você ficar sem comida por algum tempo de fato morre. Se você ficar sem água por algum tempo de fato morre.

Estas são as únicas coisas que sem as quais alguém morre se estiver sem. Todas as demais são "plus" na vida, coisas que se por alguma razão você ficar sem a vida será mais sem graça, ou mais desconfortável, ou mais monótona mas você continuará vivo.

Falo isso porque pessoas matam porque um belo dia vêem seu amor indo embora com outra pessoa. Falo isso porque pessoas se matam quando são deixadas pelo seu amor.

É preciso que se diga e até que se diga muitas vezes: amor não é tudo na vida. Há muitas outras coisas boas, bonitas, fantásticas no mundo.

Estar só e ser feliz é possível sim.

Não é porque não se tem um amorzinho, aquele par para se olhar estrelas que se deva desistir de ter amigos, de fazer coisas bonitas ou boas. Quantas vezes vou eu fotografar estrelas sem par algum. Olhar estrelas não depende de termos namorados. Basta ter olhos de ver. E, se quiser fotografar, uma máquina e a técnica de fotografar estrelas e depois editar a foto. Simples. Indolor.
Não estou aqui fazendo pouco do amor. O que estou é escrevendo para estas pessoas- que são legiões- desesperadas porque perderam o amor, porque não têm amor, porque não encontram amor e se desesperam- que amor definitivamente não é a única coisa gostosa que se faz na vida.

Só pensar no amor ao outro como objetivo e razão de viver chego a ousar dizer que é falta de imaginação e criatividade.

Talvez realmente fundamental seja o amor a si mesmo. Ou gostar das próprias rotinas.

Por amor a si mesmo, a própria pele, se inventar coisas divertidas, boas, dignas para se fazer.
Mas jamais matar ou morrer por amor. Isto é um pouco over. Afinal, se Mariazinha Josefina foi embora, há tantas outras Marias, há tantas outras Lúcias, há tantas outras Beatrizes, há tantas outras Carolinas. Vai matar por que uma não lhe quer havendo outras tantas? Ah, mas Mariazinha Josefina é a única que sabe fazer pinturas com a fumaça do seu cigarro. Ok. Eis um talento raro. Mas não se esqueça que Lúcia sabe falar na língua dos Elfos. Que Beatriz sabe nadar com os golfinhos. Que Carolina entende bebês que não falam. Todos nós temos algum talento raro. Então perder uma namorada não quer dizer perder a habilidade de se fazer gostar e de seduzir.

Se só Mariazinha Josefina caiu na sua cantada, está na hora de se tornar alguém mais interessante e aprender novas cantadas. Não de matar o cara por quem Mariazinha Josefina se apaixonou.

Hora de se reinventar e ser feliz.

domingo, 19 de junho de 2016

como eu odiava a Glaura Maria

como eu odiava a Glaura Maria. A Glaura Maria era a outra afilhada da minha madrinha. Nunca conheci a Glaura Maria pessoalmente. Só via uma foto e a madrinha citando a bendita Glaura Maria toda hora. Meu coraçãozinho infantil odiava profundamente à esta menina de quem eu nada sabia salvo as coisas que a Madrinha falava sobre ela. Eu odiava tanto à criatura que às vezes quando brincava de boneca havia aquela boneca que a outra boneca tratava muito mal e torturava que era a Glaura Maria. Puxava os cabelos, enfiava na água e afogava. Mil torturas de bonecas que eu não poupava na boneca da Glaura Maria.

O próprio som do G com o L e o A me dava gasturas. Tanto que quando na escola tive um coleguinha chamado Glaucon eu não gostava dele por extensão. Era o Gla da Glaura Maria atacando onde não era chamado.

E Glaura Maria jamais foi Glaura. Foi sempre esta coisa que leva horas de nome composto. Glaura Maria. Hoje em dia eu teria compaixão de uma pessoa com nome tão esquisito, mas na época ela era a personificação do meu horror.

Curioso porque na vida real eu encontrava crianças que não gostavam de mim mas a quem eu não nutria sentimento particular algum. No primeiro dia de aula, uma garota chamada Cassandra olhou pra mim e me acertou uma pedrada na testa que me levou imediatamente pro hospital e daí pra casa a quem eu temia, mas não odiava. Eu era gordinha e as outras crianças faziam chacota comigo e eu não as odiava. O mais perto de ódio que tive foi por uma professora de matemática, a Dinah, que me dava notas baixas, mas era mais uma raiva grande do que ódio. Ódio era todo pela Glaura Maria.
Muitos e muitos anos depois quando fui ler livros de Sociologia na minha 1a faculdade que estudavam estes fenômenos sociais de ódio ao diferente eu podia sempre internamente referendar estes ódios com meu ódio à Glaura Maria. A quem eu jamais conheci e que nunca me fez nada de mal mas que me provocavam sensações fortes negativas.

Hoje penso que se algum dia a menina Glaura Maria tivesse se apresentado a mim pessoalmente talvez eu acabasse gostando dela. Ou não. Mas provavelmente não a odiaria. Tenho pra mim que certos ódios muitas vezes se dirigem exatamente às pessoas estranhas, desconhecidas por serem estranhas e desconhecidas. São raivas infantis que tomam dimensão tão mais distantes sermos de certas pessoas.
Então dou meu brinde à Glaura Maria que me ensinou como são pouquíssimo racionais todos os ódios.

domingo, 12 de junho de 2016

meu namorado

meu namorado tem cara de tudo
de príncipe de gato de leão
de macaco de céu e até de sapo
meu namorado é tão bacana
que me ama
e eu não sou nada fácil

namorados

Amor é um passarinho. Não combina com os rótulos nem com as prisões.
Namorados e namoradas não se tem. Namorados e namoradas se celebram.

quarta-feira, 18 de maio de 2016

o bom barquinho com bandeirinha do Brasil



tão bonito tão vibrante
o barquinho segue
com as gaivotas
mar acima mar abaixo
na chuva no sol
segue o barquinho
cor vermelha branca amarela
bandeirinha do Brasil.
não tem tempo ruim
pra barquinho bom
quando for um velho barquinho
será ninho de pequenos caranguejos
brincadeira de criança
esconderijo dos namorados.
o bom faz sonhar
e some no tic tac do relógio
a gente não sabe mas
o sonho nos faz sorrir mais fácil
o barquinho chama violão
voz e canção
vira pintura e oração
tempos melhores
alegrias e caminhos
o barquinho não está no jornal
é como os passarinhos
delicadas coisas que só fazem bem
um bom barquinho
não faz xixi na cama
os meninos e os barquinhos vão juntos
são pra sempre amigos
pra sempre delicadezas
de um instante só

segunda-feira, 4 de abril de 2016

O Vôo- segundo conto de como surge o fascismo no Brasil

João e José eram pilotos da aviação comercial e tinham a mesma idade. Quando João entendeu que sua próxima escala coincidiria com a de José no próximo vôo sentiu náuseas o dia inteiro. Voar com José era a pior tortura imaginável. José era calado e não costumava conversar sobre política. Mas seu perfil no Facebook o delatava. Todos os dias, aquele que seria o piloto em sua próxima viagem, dava notícias sobre o Impeachment, que José chamava de golpe. Trazia artigos imensos que João só lia quais eram os títulos. Se aprofundasse a leitura cansava e já parava de ler.

De jeito algum haveria de ler aquele bando de comunistas safados que defendiam Lula, o ladrão. Além do que bastava ler os títulos pra saber do que se tratava. Pra que ler aquele monte de letras? Só os petistas não viam o mequetrefe que defendiam.

O que mais incomodava a João é que ele adorava José. Quando se conheceram, lembra que achara José um cara diferente da maioria, tão atencioso, gentil, sabia ouvir e falar na hora exata e tinha um grande senso de humor, suas observações eram brilhantes. A melhor companhia para vôos longos. João e José se divertiam tanto juntos que chegaram a dividir um apartamento em Campinas por alguns meses.

A namorada de João tinha ciúmes de José porque João falava demais do amigo, qualquer coisa era pretexto para o assunto se tornar mais uma incrível façanha de José. Chegou ao ponto dela lhe dizer que João fazia sexo com ela, mas a quem ele realmente amava era a José. João ficou furioso com estas observações da namorada e foi por um triz que não terminaram.

Foram tempos muito felizes, mas agora tudo tinha sido destruído pelo PT. O PT é quem tinha criado o ódio de classes e o racismo. Nunca houve racismo no Brasil. Os petistas eram monstruosos em tornar um povo tão gentil em pessoas tão horríveis. E o PT é quem havia transformado seu melhor amigo em pior inimigo. Os petistas eram comunistas, bolivarianos, ladrões. Todo petista é criminoso, João pensava. Só não entendia como José, o cara mais honesto que ele conhecia, o mais generoso, havia se tornado justo um petista. Lastimava, mas nunca seria amigo de um sinistro comunista.

Como é que ele João seria o copiloto da nave em que José seria piloto nestas condições? Ele poderia desmarcar o voo, conseguir um atestado médico. Agora mesmo, já havia vomitado. Quem sabe não estaria mesmo doente? Será que vômito poderia ser uma zika? Mas ele pensava que podia fazer José desistir desta bobagem toda de politica, esta coisa horrível que separa pessoas e de nada serve. Quem sabe uma última conversa? Prometia a si mesmo que desta vez não perderia a cabeça. Da última os dois foram apartados por pessoas na rua. Mas desta vez seria diferente. Ele não iria sequer aumentar o tom de voz. Falaria o óbvio: Lula tem um sítio em Atibaia com o dinheiro público, é ladrão e você José é o meu melhor amigo, o mais honesto de todos não pode ser um petista, pronto não diria mais nada. Até a palavra petista lhe dava nojo. Saiu correndo pra vomitar.

Os dias passavam como se fossem segundos. Finalmente era o dia do vôo. Mil vezes pensara em desistir, mas não era homem de fugir. Quando se encontraram José lhe desejou bom dia e foi com muita dificuldade que respondeu. No caminho, João deixou cair seu quepe por puro nervosismo. José o apanhou do chão e João mal conseguiu dizer “obrigado”. Olhava para José e só conseguia pensar num Giff animado de coração vermelho pulsando na Linha do Tempo do colega. Malditos vermelhos. Iam destruir o país. Agora a imprensa internacional chamava o Impeachment de Golpe e até no Twitter da própria Globo a palavra golpe havia sido escrita e depois apagada. Algum jornalista comunista deve ter sido o responsável pelo erro. Mas o fato é que estes vermelhos malditos tinham destruído uma amizade de anos. Ah aquela vaca da Dilma. Não poderia perdoar nenhum deles. Terrorista safada.

Começaram a discussão quando preparavam a cabine. João começou a gritar sobre “o Brasil jamais será vermelho” e repetir as frases que polulam em toda a internet num fôlego só. No que João chamou Dilma de terrorista safada, José rebateu descrevendo sobre as diferenças entre guerrilha e terrorismo. Guerrilha, ele dizia com calma irritante, era quando um grupo combate um exército usando táticas de surpresa numa guerra assimétrica em que o guerrilheiro é o elo mais frágil que se contrapõe ao Exército do Estado. São razões políticas em que o guerrilheiro está em desvantagem em relação ao Exército ou a polícia. No mundo inteiro houve muitos guerrilheiros que foram perdoados e no Brasil uma grande parte da juventude que combatia à Ditadura havia se engajado na guerrilha, inclusive José Serra do PSDB que havia sido da facção chamada de AP, Ação Popular.

José se manteve argumentando. Terrorista é aquele que tem uma ação de terror onde quanto mais gente morrer, melhor. Não há termos de comparação entre uma ação onde se morrer alguém é por uma espécie de acidente colateral de outra em que o que acidente é quando não morre ninguém, o terrorismo. Por isso guerrilheiros são considerados presos políticos e muitas vezes perdoados e terroristas não.

Foi quando João falou que Dilma era uma ladra, que já havia assaltado bancos. José, mais uma vez com calma, calma esta que irritava profundamente a João, argumentou que ladrões ficam com o dinheiro em benefício próprio, coisa que não havia sido o caso de Dilma que o dinheiro que roubara era para uma ação visando o fim da Ditadura, nada ficara para si e sim para uso de seus companheiros que assim podiam fugir da polícia, usar disfarces, financiar seus gastos comuns.

João não lembra se ligou ou não a GPU, a Ground Power Unit que era a fonte externa de energia para não haver descarregamento de bateria da aeronave. Lembra que tentou ir para cima de José, tão calmo, tão enervante, tão bonito para dar-lhe um soco na cara e este conseguiu afastá-lo num repelão e prosseguindo nos procedimentos protocolares, testando os sistemas e botões da cabine, configurando pra decolagem o avião.

João pelo menos conseguiu fazer a inspeção visual de rotina que era a parte que lhe cabia. Pediu para sair um instante e viu que o avião estava cheio e que algumas celebridades como Ana Maria Braga e Jair Bolsonnaro estavam entre os passageiros que iriam de Porto Alegre para Manaus. Ana Maria Braga estava indo para um encontro de chefs donas de casa e o Bolsonaro estava indo para lá para o encontro de jovens de seu partido, o Partido Social Cristão. Foi por um acaso que João sabia destas coisas porque havia folheado a revista Caras nesta semana quando foi cortar o cabelo. Ouviu um rápido diálogo entre os dois:
- Pois é, Ana, estou indo pra Manaus pra convencer os jovens a entrarem para a política e assim restaurarem a Ditadura.
- Ah, Eu não quero nada com política Bolsonaro. Política é muito chato. Meu negócio é ensinar às senhoras a cozinharem bons pratos e assim segurarem seus maridos pela boca.
- Muito importante o seu trabalho e acho que está colocando as mulheres no lugar certo. Já chega esta Letícia Sabatella toda bonitona incitando o pessoal a defender o governo.



João voltou se sentindo um pouco melhor para a cabine. Foi liberado o embarque. João pensou nos olhos cor de mel de José e mais uma vez sentiu que suas entranhas se contorciam de ódio. Determinado a fazer seu colega capitular destas ideias marxistas, resolveu jogar sua última cartada. Falou que a Russia iria invadir o Brasil com a ajuda das FARCS da Venezuela e que José se arrependeria de sua confiança cega em pessoas inescrupulosas que só queriam o poder. José estava preparando o computador e João cada vez mais ansioso agarrava suas mãos. Mesmo assim, na hora de decolar, José falou “Positive Rate” e ele João respondeu “Gear Up” mas o que desejava de verdade era apertar aquele belo pescoço forte de José até ele não ter mais uma única palavra mentirosa para dizer.

Aquele seria um voo longo com uma conexão em São Paulo. João estava vermelho e o tempo inteiro repetia para José que ele não teria como escapar dos russos que obrigariam sua mãe a dividir seu bom apartamento com os mendigos de rua. José olhou para ele e disse que aquele não era um bom momento para discussões, que tinham a responsabilidade de levar todas aquelas pessoas em segurança até seu destino final. João rebateu que ele só estava dizendo isso porque não tinha mais argumentos.

José riu. Primeiro argumento: é falso que no comunismo todos serão obrigados a dividir suas propriedades assim. Não há lugar algum aonde Marx tenha dito nada semelhante e não foi assim que ocorreu em nenhum regime comunista. Segundo: a União Soviética acabou há muitas décadas atrás, a Rússia não tem nenhum interesse em dominar nenhum lugar do mundo, já basta a Rússia cuidar de seu povo e de suas fronteiras como os demais países do mundo. Terceiro: Hugo Chavez já morreu e as FARCS são da Colombia e um presidente de direita negociou com as guerrilhas colombianas um acordo de paz com a ajude de Cuba e os guerrilheiros estão prestes a depor suas armas e entrar para a política.

João com os olhos rútilos encarava sem piscar José, sua boca carnuda, seus lábios avermelhados- será que ele foi à praia?- sentiu que estava excitado sexualmente e isso o irritou mais ainda- como pode ser estar sentindo isso por um outro homem, se perguntava e não gostava de estar assim, sentia-se frágil, nu, desmascarado e num súbito impulso voou no pescoço do companheiro.

A luta durou apenas alguns minutos. Passageiros em polvorosa se perguntavam o que era aquilo que estava acontecendo na cabine dos pilotos. Estado Islâmico? Não, não podia ser. Só ouviam baques e gritos abafados. Os minutos foram suficientes para que o momento de aterrisagem em São Paulo se aproximasse e nenhum dos dois desse conta do fato. Conseguiram se separar e cair em si a tempo de cuidarem para que o avião pousasse. Prepararam o trem de pouso, mas alguma pane estava ocorrendo e o trem de pouso não descia.

Após alguns instantes de suspense, o trem de pouso voltou a dar sinais de vida. Entretanto, o piloto automático não fora corretamente programado porque nenhum dos dois conseguira efetivar corretamente os procedimentos padrão da aeronave.

No dia seguinte a manchete dos jornais: Avião Cai Sobre Condomínio de classe alta no bairro de Jardins (São Paulo). Não há sobreviventes. A Aeronáutica investiga as causas do acidente que matou todos os passageiros, tripulação além de fazer dezenas de vítimas em terra.










quarta-feira, 30 de março de 2016

na vertigem

sou vermelha lilás laranja verde vinho amarela
sou todas as cores
sou ninguém
sou todos nós
sozinha pouco posso
quando vamos juntos
posso bem mais
a ciranda fica mais bonita
quer aprender a dançar?
no caminho a gente te ensina
passo a passo no espaço
na vertigem na segurança
de quem nada tem a perder

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

um bom conselho

Em outros tempos, doenças sexualmente transmissíveis eram associadas a gente com vida promíscua. Depois, aos homossexuais. Agora até a zica pode ser transmitida sexualmente, e zica vem do mosquito, como se constatou. Mas mesmo antes, este negócio de gente de vida promíscua ou só homossexuais passando DSTs já era falso. Há uns 20 anos atrás, tive uma amiga querida que era lésbica, bastante recatada, transou com um único cara, heterossexual, um gringo, num episódio único, pegou AIDS e morreu alguns anos depois- naquele tempo não havia o coquetel. Tenho certeza que o caso dela não foi único. Basta ver como as DSTs vieram se desenvolvendo até o ponto em que hoje estamos.


As doenças sexualmente transmissíveis hoje são epidemias. Um fenômeno mundial. Vírus e bactérias não escolhem sexo, raça, religião, nacionalidade, se é certinho ou se é da pá virada, como se dizia antigamente. Na real, os julgamentos morais nunca são adequados para se pensar racionalmente as Doenças Sexualmente Transmissíveis, cada vez menos fazem sentido. Sim, doenças sexualmente transmissíveis podem acontecer com aquele cara super boa gente, completamente não promíscuo, apenas fã de sexo e descuidado com o uso da camisinha. Também podem acontecer com aquela menina linda, ainda inexperiente sexualmente, que apenas não soube se impor ao cara que com ela transou um dia e lhe passou o vírus- ou bactéria. Podem acontecer com a mãe de família, fiel, que pega do marido que nem é um cara promíscuo mas um dia transou com alguém que era portador da doença. Tudo pode.


O uso da camisinha hoje para a prática do sexo é obrigatório. Não importa se já namora há um ano, seis meses ou seis anos. Ninguém pode ficar fiscalizando a vida sexual do outro noite e dia. Na prática isto quer dizer que seu(sua) parceiro(a) sempre poderá um belo dia sair com outras pessoas. Ou ainda seu(sua) parceiro(a) pode já estar infectado há muito tempo e estar assintomático. O tempo de incubação de algumas DSTs é imenso. Então a única coisa sensata a ser feita é usar sempre camisinha, não importa com quem nem quando. Ser fiscal da vida sexual alheia é uma profissão inglória, boba, tosca. Cada um tem de ser responsável pela sua própria vida sexual. Sendo assim, cada um, homem ou mulher, tem de exigir que o parceiro use camisinha. Ou não faça sexo. Ponto parágrafo. Único jeito de não se infectar.


Se alguém não topar usar camisinha diante de seu pedido, é mal sinal. Sinal que esta relação tende a manipulação ou que aquela pessoa pretende dominar todas as suas ações daqui pra frente. Ninguém precisa de alguém que quer nos dominar numa relação. Dominação pode ser divertido sexualmente, mas na prática é uma chatice. Só dá briga.


Para nós mulheres, em termos de prazer, o uso de camisinha é indiferente. Não sentimos mais prazer se sentimos o sêmen de um homem quando este ejacula. Isto é lenda urbana de que mulher tem prazer em sentir sêmen. Não sentimos nenhum prazer desta forma. O sêmen só nos interessa se desejarmos ficar grávidas. Fim do interesse no assunto. Não tem papo de tesão com isto não. Que fique claro.


Não sou homem. Os do meu tempo diziam uma coisa sobre o assunto que talvez seja a razão de tantos caras se recusarem a usar camisinha: de que “usar camisinha é como chupar bala com papel”. O que sei é que há homens que têm dificuldades em manter a ereção com o uso da camisinha. Sugiro fortemente aos homens com estes problemas que procurem psicoterapia porque não há nada que prove que camisinha cause disfunções eréteis. Sendo assim, é a cabeça que faz o estrago, não a camisinha.


Procurar ajuda quando se precisa é sinal de maturidade. Trazer problemas pra sua vida como é o caso de se pegar uma DST por uma questão de origem psíquica pra mim faz pouco sentido. As DSTs hoje têm tratamento, ninguém morre por causa delas, e, por outro lado, as psicoterapias são hoje evoluídas o suficiente pra dar conta de homens com problemas com o uso de camisinhas. Tudo tem solução. Basta querer e se empenhar no assunto.


Bom Carnaval às meninas e aos meninos, aos homens e às mulheres. E que o carnaval seja sempre uma lembrança alegre em suas vidas.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016