sábado, 28 de março de 2015
porque hoje perdi
Claro que ganhar é bom, mas muitas vezes é mais importante lutar do que ganhar. O segredo de se sobreviver às perdas passa por perceber isto e se dar conta que muitas vezes o estar acomodado já é em si uma tremenda perda. Não consigo achar graça em virar pedra antes da hora. Então prefiro às lutas, mesmo as inglórias. Como no fim morreremos todos, melhor morrer cheio de histórias.
Insônia em Copacabana
segunda-feira, 23 de março de 2015
O Ursinho Abandonado

Todas as semanas passo na frente da lavanderia onde está este ursinho.
Nas primeiras pensei que a qualquer hora o dono(a) do urso iria apanhá-lo e feliz, o bicho de pelúcia seguiria seu caminho de ácaros e ociosidade.
Mas passaram-se meses, anos e nada. O urso segue no mesmo lugar. Envolto pelo mesmo saco plástico na lavanderia, que milagrosamente continua positiva e operante.
Por que não foram buscar o urso? Esqueceram? Como é que se esquece um urso daquele tamanho? Como é que a criança esquece? Como é que o adulto esquece da criança?
Cada vez mais ele me parece mais trágico na sua solidão sufocada de ácaros e afetos este tolo bicho de faz de conta.
Meu filho teve um urso, dado pelo Seu Anibal e sua esposa bailarina. Perdeu os olhos o pobre urso. Acabei jogando fora, mas foi com um imenso pesar. Torcendo para outra criança pegar o pobre coitado cego dos dois olhos de vidro. Ele perdeu um dos olhos por arte do filho, o outro por arte da cachorra. Mas teve uma vida feliz de bicho de pelúcia sempre usado.
Este urso amarelo está deprimido. Penso que talvez a criança tenha falecido por uma pneumonia causada por alergia, causada pelos ácaros. Ou pode ser que a criança tenha crescido e aí sim, resolveu mandar o urso pro inferno da lavanderia e nunca mais apanhar. Ou ainda pode ser que o urso tenha sido um presente daquela namorada ingrata que depois o trocou por um cachorrão.
O urso não chora porque não tem lágrimas. Tem olhos, mas são os olhos de faz de conta dos brinquedos. Choro eu, por todas as crianças que morrem no mundo, muitas vezes sem nenhum brinquedo, sem nenhum consolo. Choro eu, por todos os adultos que um dia tiveram um sonho, mas por força do mundo mau o esqueceram nas prateleiras da desmemoria. Choro sim, junto com a menina que teve seu primeiro amor e se desiludiu. Choro pelo garoto que se torna homem e separa o sexo do amor, depois da cabeça, depois de si mesmo até se tornar um velho cínico sem nem mais uma brincadeira para alegrar sua história. Finalmente, choro por mim mesma que pelo caminho me esqueço primeiro de mim para lenta e inexoravelmente esquecer de tudo porque não há vida que caiba inteira na memória, como não existe urso com quem sempre se brinque.
Deveria existir um lugar onde pudéssemos abraçar a todos estes que a vida enganou com seu abraço de urso e lágrima de jacaré. Que também corre o risco de acabar na sapataria, vizinha imediata da lavanderia.
sábado, 21 de fevereiro de 2015
o piano
Acho o máximo quem toca piano. Mas mais do que isto, adoro aquele monstro de madeira na sala. Um piano numa casa faz dela, automaticamente, um lugar diferente. Piano é um instrumento de antigamente, algo que lembra cidades com neve, cafés, intelectuais no café, conversas sobre BauHaus, uma coisa assim a um tempo clássica e ousada, cosmopolita e sofisticada, quase esnobe.
Não existe outro instrumento que me faça pensar nisto. É arbitrário mesmo. Um violoncelo deveria passar a mesma impressão. Um violino. Afinal são instrumentos de música clássica. Até um violão poderia ser assim, porque apesar de ter se popularizado, é um clássico. Mas não. É o piano e só o piano que me faz pensar em ruas com bondes elétricos, pessoas que sabem tudo de História da Arte, conhecem profundamente todos aqueles autores que eu só consegui ler alguns parágrafos sem ficar com sono e conhecem intimamente as ruelas de Veneza, Viena, Berlim, Paris, sim, Paris por certo. Tudo o que é dito em Francês ganha algo de verdade profunda.
A pessoa que toca piano não caminha. Eleva-se com as notas musicais acima do nosso dia a dia café com leite, das estatísticas que nos provam que mordidas de cachorros matam mais que tubarões, o preço do Miojo no supermercado e todo este elenco de coisas prosaicas cujo interesse dura apenas o tempo que passamos os olhos nas bancas de jornais iluminadas.
Um piano deve vir acompanhado de uma bela biblioteca, quadros pintados por pintores de verdade e não meras reproduções, fotografias em preto e branco e jarros com flores frescas recém colhidas de um jardim na frente da casa. Um cinzeiro em um estilo contemporâneo brilha no canto. Uma garrafa de vinho do Porto aberta displicentemente. Um abajour em papel com ideograma japonês. Um lugar aonde nunca se sua como nos países tropicais e nunca se fica em filas imensas, apinhado no metrô com pessoas de rostos inexpressivos e olhares perdidos, números marcados em algum lugar discreto no lombo.
Uma passagem de navio, do tempo que navio era elegante e não estas sucursais do inferno onde burgueses de todos os estilos se acotovelam na aeróbica da piscina. A passagem em cima da mesa de madeira maciça. Que cupim não rói. O piano. Melhor em silêncio, apenas na sua solidez magnífica.
Não existe outro instrumento que me faça pensar nisto. É arbitrário mesmo. Um violoncelo deveria passar a mesma impressão. Um violino. Afinal são instrumentos de música clássica. Até um violão poderia ser assim, porque apesar de ter se popularizado, é um clássico. Mas não. É o piano e só o piano que me faz pensar em ruas com bondes elétricos, pessoas que sabem tudo de História da Arte, conhecem profundamente todos aqueles autores que eu só consegui ler alguns parágrafos sem ficar com sono e conhecem intimamente as ruelas de Veneza, Viena, Berlim, Paris, sim, Paris por certo. Tudo o que é dito em Francês ganha algo de verdade profunda.
A pessoa que toca piano não caminha. Eleva-se com as notas musicais acima do nosso dia a dia café com leite, das estatísticas que nos provam que mordidas de cachorros matam mais que tubarões, o preço do Miojo no supermercado e todo este elenco de coisas prosaicas cujo interesse dura apenas o tempo que passamos os olhos nas bancas de jornais iluminadas.
Um piano deve vir acompanhado de uma bela biblioteca, quadros pintados por pintores de verdade e não meras reproduções, fotografias em preto e branco e jarros com flores frescas recém colhidas de um jardim na frente da casa. Um cinzeiro em um estilo contemporâneo brilha no canto. Uma garrafa de vinho do Porto aberta displicentemente. Um abajour em papel com ideograma japonês. Um lugar aonde nunca se sua como nos países tropicais e nunca se fica em filas imensas, apinhado no metrô com pessoas de rostos inexpressivos e olhares perdidos, números marcados em algum lugar discreto no lombo.
Uma passagem de navio, do tempo que navio era elegante e não estas sucursais do inferno onde burgueses de todos os estilos se acotovelam na aeróbica da piscina. A passagem em cima da mesa de madeira maciça. Que cupim não rói. O piano. Melhor em silêncio, apenas na sua solidez magnífica.
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015
sobre amar ao próximo como a ti mesmo
A maior ironia cristã é dizer para amar ao próximo como a si mesmo. E se a pessoa odiar a si mesma? Ou se é entediada e indiferente a si mesma? Ou ainda se tiver medo de si mesma? Como ordem, eis uma ordem muito marota. Como tudo o mais nas religiões. Esta mania de querer generalizar das religiões e achar que todo mundo é igual. Melhor dizer: pergunte ao próximo o que ele deseja e faça o que o próximo quer, não tente adivinhar, não projete seus desejos nos dele. E no mais é torcer para que o próximo não deseje que alguém o mate. Isto seria complicado. Sendo assim, o que há de mais tolo no espírito religioso é partir do pressuposto que exista algo no ser humano comum a todos. A única coisa comum a todos os seres humanos é serem mortais e paradoxais. Subjetividade é o segundo nome de cada pessoa.
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015
sobre a felicidade
De felicidade pouco sei
Difícil ser feliz quando vemos uma criança suja adormecida no chão.
Ninguém é feliz
Se está feliz
ou algo parecido
Sei de alegrias
alegria de mais um dia
o sol brilhando
as nuvens fofas
pássaros e flores
amigos e amores.
Todas as alegrias são tão particulares
tão deliciosas e fugazes
que não existe "todas as alegrias"
e sim a sua
a minha
a de alguns
a quem a juventude
o amor
a saúde
ou a sorte contemplaram

Difícil ser feliz quando vemos uma criança suja adormecida no chão.
Ninguém é feliz
Se está feliz
ou algo parecido
Sei de alegrias
alegria de mais um dia
o sol brilhando
as nuvens fofas
pássaros e flores
amigos e amores.
Todas as alegrias são tão particulares
tão deliciosas e fugazes
que não existe "todas as alegrias"
e sim a sua
a minha
a de alguns
a quem a juventude
o amor
a saúde
ou a sorte contemplaram

domingo, 28 de dezembro de 2014
votos para 2015
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