quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

um bom conselho

Em outros tempos, doenças sexualmente transmissíveis eram associadas a gente com vida promíscua. Depois, aos homossexuais. Agora até a zica pode ser transmitida sexualmente, e zica vem do mosquito, como se constatou. Mas mesmo antes, este negócio de gente de vida promíscua ou só homossexuais passando DSTs já era falso. Há uns 20 anos atrás, tive uma amiga querida que era lésbica, bastante recatada, transou com um único cara, heterossexual, um gringo, num episódio único, pegou AIDS e morreu alguns anos depois- naquele tempo não havia o coquetel. Tenho certeza que o caso dela não foi único. Basta ver como as DSTs vieram se desenvolvendo até o ponto em que hoje estamos.


As doenças sexualmente transmissíveis hoje são epidemias. Um fenômeno mundial. Vírus e bactérias não escolhem sexo, raça, religião, nacionalidade, se é certinho ou se é da pá virada, como se dizia antigamente. Na real, os julgamentos morais nunca são adequados para se pensar racionalmente as Doenças Sexualmente Transmissíveis, cada vez menos fazem sentido. Sim, doenças sexualmente transmissíveis podem acontecer com aquele cara super boa gente, completamente não promíscuo, apenas fã de sexo e descuidado com o uso da camisinha. Também podem acontecer com aquela menina linda, ainda inexperiente sexualmente, que apenas não soube se impor ao cara que com ela transou um dia e lhe passou o vírus- ou bactéria. Podem acontecer com a mãe de família, fiel, que pega do marido que nem é um cara promíscuo mas um dia transou com alguém que era portador da doença. Tudo pode.


O uso da camisinha hoje para a prática do sexo é obrigatório. Não importa se já namora há um ano, seis meses ou seis anos. Ninguém pode ficar fiscalizando a vida sexual do outro noite e dia. Na prática isto quer dizer que seu(sua) parceiro(a) sempre poderá um belo dia sair com outras pessoas. Ou ainda seu(sua) parceiro(a) pode já estar infectado há muito tempo e estar assintomático. O tempo de incubação de algumas DSTs é imenso. Então a única coisa sensata a ser feita é usar sempre camisinha, não importa com quem nem quando. Ser fiscal da vida sexual alheia é uma profissão inglória, boba, tosca. Cada um tem de ser responsável pela sua própria vida sexual. Sendo assim, cada um, homem ou mulher, tem de exigir que o parceiro use camisinha. Ou não faça sexo. Ponto parágrafo. Único jeito de não se infectar.


Se alguém não topar usar camisinha diante de seu pedido, é mal sinal. Sinal que esta relação tende a manipulação ou que aquela pessoa pretende dominar todas as suas ações daqui pra frente. Ninguém precisa de alguém que quer nos dominar numa relação. Dominação pode ser divertido sexualmente, mas na prática é uma chatice. Só dá briga.


Para nós mulheres, em termos de prazer, o uso de camisinha é indiferente. Não sentimos mais prazer se sentimos o sêmen de um homem quando este ejacula. Isto é lenda urbana de que mulher tem prazer em sentir sêmen. Não sentimos nenhum prazer desta forma. O sêmen só nos interessa se desejarmos ficar grávidas. Fim do interesse no assunto. Não tem papo de tesão com isto não. Que fique claro.


Não sou homem. Os do meu tempo diziam uma coisa sobre o assunto que talvez seja a razão de tantos caras se recusarem a usar camisinha: de que “usar camisinha é como chupar bala com papel”. O que sei é que há homens que têm dificuldades em manter a ereção com o uso da camisinha. Sugiro fortemente aos homens com estes problemas que procurem psicoterapia porque não há nada que prove que camisinha cause disfunções eréteis. Sendo assim, é a cabeça que faz o estrago, não a camisinha.


Procurar ajuda quando se precisa é sinal de maturidade. Trazer problemas pra sua vida como é o caso de se pegar uma DST por uma questão de origem psíquica pra mim faz pouco sentido. As DSTs hoje têm tratamento, ninguém morre por causa delas, e, por outro lado, as psicoterapias são hoje evoluídas o suficiente pra dar conta de homens com problemas com o uso de camisinhas. Tudo tem solução. Basta querer e se empenhar no assunto.


Bom Carnaval às meninas e aos meninos, aos homens e às mulheres. E que o carnaval seja sempre uma lembrança alegre em suas vidas.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Que Viva Eiseinstein e que Viva Greenaway

então fui assistir o Que Viva Eisenstein do Peter Greenaway. Já tinha visto do Eisenstein os clássicos Encouraçado Potemkin e Outubro. Do Greenaway o Drowning by Numbers (Afogado em Números), O Cozinheiro, O Ladrão,Sua Mulher e o Amante e O Livro de Cabeceira.

Como costumo fazer, dou uma estudada ou antes ou depois no assunto que vou ver- quando os filmes tratam de histórias reais históricas propriamente. No caso, era o México e aquela época em que Eisenstein foi filmar o Que Viva Mexico, o próprio Eiseinstein e o cinema feito na Russia de Eisenstein.

Antes de mais nada, a história do México é muito impressionante, me deu vontade de conhecer o México. O México é muito mais antigo até que o Egito e sua história inclui uma revolução. Me chama a atenção como foi rico o México e como tornou-se pobre, como sua cultura é múltipla, enfim, acho que só vou conseguir dar conta do México se eu for ao Mexico mesmo. Vale dizer que o nome Mexico veio da civilização dos mexicas que vieram após os olmecas, os Teotihuacam e Maias. Mas ainda me falta roupa pra ir nesta festa chamada História do México. Mas que deu gostinho de quero mais, deu.

Sobre o Eiseinstein, não vou falar o que o Google pode esclacer. Como disse o próprio personagem Eisenstein no filme do Greenaway, ele não gostava da realidade/realidade. Quem gostava de Kino Pravda (cinema verdade) era seu colega Dziga Vertov. Eisenstein era um cara delirante, filmava as histórias reais mas com toques de fantasia absolutos e por isso mesmo as cenas de seus filmes se mantém na memória como sonhos ou pesadelos, mais como pesadelos. Se fosse tudo só vindo do real/real é provável que já tivesse sido esquecido.

Antes de trabalhar com cinema, Eisenstein trabalhou com teatro e sua formação incluiu arquitetura e engenharia, razão pela qual seus desenhos eram tão bons e sua linguagem realmente teatral.

O personagem do filme é absolutamente detonador de toda a fantasia stalinista de como deveria ser um cineasta judeu, comunista. A bandeirinha no traseiro para comemorar a revolução e a perda da virgindade de Eisenstein é o cúmulo da iconoclastia de Greenaway, por quem nutro profunda simpatia- agora mais do que nunca. Minha crítica ao filme é o excesso de HDR na fotografia, mas provavelmente isto só quem é fotógrafo vai ver. Eu achei over. Não eram assim os filmes do Greenaway que vi antes, embora Greenaway seja sempre um cara exagerado. Só que desta vez, como rolavam muitas cenas ao ar livre, acho que ele se perdeu no HDR. Nada contra o HDR, eu também uso, mas não uso o tempo todo e acho que Greenaway não precisaria de tanto HDR nas fotos ao ar livre. Outra coisa que ele exagerou foi num recurso que não sei que nome tem, mas tem sido muito usado, nós mesmos usamos para filmar/fotografar o lugar de nossa exposição de 2015, o giro panorâmico em 360 graus. Toda hora tem giro panorâmico de 360 graus no filme. Outra coisa que poderia ter sido mais sutil.

Mas é um belo filme. Vale a ida ao cinema. Comovente personagem, história triste e bonita. Tem toques engraçados, mas eu não chamaria de comédia nem a pau.

#quevivaeiseinstein #petergreeaway #quevivamexico

domingo, 17 de janeiro de 2016

Entre o Tigre e o Eufrates Num Jardim de Absurdos

O tigre se aproxima lentamente
Come uma rosa duas rosas três
Sacia-se de sonhos
De suas listras desenham-se outros jardins
Por onde caminho sendo eu mesma
Ervas árvores cercas e montes
Há um arame farpado em meu corpo
E tudo está a venda
Em papel celofane cubro toda a paisagem
O tigre nela não se vê
Fugiu
Como fugiram os pássaros
E depois os homens
Ficam os cupins
Até que nem eles
O fogo canta num incêndio
Sacrifício aos deuses
Desnecessário
Se apenas víssemos alguma coisa diante de nosso nariz
Só que não
Nada vemos
Queremos tudo
Enquanto as paredes se enchem de manchas
E nossas mentes de fotografias
Tudo é passado
Até mesmo o futuro
Vivemos numa encruzilhada
Entre o Atlântico e o Pacífico
Somos tudo desde o início
Sendo assim
Não sobra nada
Não há espaço
Apenas vertigem
E cansaço

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

a caretice é o horror

a caretice me assusta mais que a crise econômica. Explico: falta de dinheiro se contorna. Aonde comem 2, comem 3, sempre tem alguém que pode dar uma força e a união de vários duros pode resultar em atos heróicos e criativos que dão jeito na coisa.

Fui dura em tempos duríssimos e sobrevivi perfeitamente bem sempre. Não é bom ficar sem dinheiro, mas com imaginação e luta se resolve. Já a caretice....

A caretice é um poço sem fundo. A caretice é filhote do medo e do ódio. A caretice não te dá descanso. A caretice te persegue se você não é careta. A caretice fica ali, na patrulha, na cobrança. Cada vez que você sorri, a caretice faz cara feia. Se a caretice é de classe, vai te julgar por você usar um sapato velho. Se a caretice é de raça, vai rir de você com cabelo crespo e preto.

Há um sem número de caretices e a caretice sempre vai dar um jeito de te constranger seja por uma ou outra razão.
Estava feliz achando que o Brasil estava desencaretando. Vi muito contente as meninas feministas da Marcha das Vadias despontarem ferozes. Vi as Marchas Pela Descriminalização da Maconha com coisas divertidas e criativas. Muitas performances, muitos novos artistas, muitos movimentos liberadores. A palavra empoderamento- de se tornar poderoso- ficando na moda. A noção de que não existe esta de discursos universais e sim um "do meu lugar de fala" substituindo o arrumadinho que resolve que fala representando todo mundo. O surgimento de uns mil tipos de personas sexuais, o debate queer, uma montanha de coisas estranhas e provocadoras.

Só que estou vendo tudo isso ameaçado. Tem gente se orgulhando de ser facista. Tem gente se orgulhando de ser preconceituoso. O país parece mergulhar de novo num tempo que eu preferia ver pra trás.

Não temo por mim. Com 56 anos sem metáforas e papinhos de vida-pra-sempre, tenho mais tempo pra trás do que pra frente, mesmo debaixo da Ditadura fui livre, fiz passeata pelada no Movimento de Arte Pornô, aprontei tudo que tive direito mesmo correndo riscos. Não, por mim está tudo ok. Se os caretas vierem de vez, vou manter os cabelos coloridos e grisalhos e me comportarei como sempre: abrirei a boca e falarei palavrão aos montes, dançarei enquanto o corpo permitir, farei sexo, falarei de sexo, escaparei ao controle porque sou especialista nisto, vou continuar cantando, escrevendo, fotografando, atendendo quem me procurar, cuidando de quem precisar ser cuidado, fazendo o meu melhor para assistir aos desassistidos. Sem problemas.

Confesso minha caretice de mãe, temo por meu filho, pelos amigos dele, pelos que nem são amigos dele, por toda esta geração que será perseguida, já está sendo, de certa forma. Sei que eles são cuca fresca, muito mais tranquilos do que o que eu fui, do que minha geração foi. Mesmo assim, a monstruosidade da caretice me assombra. Porque antigamente, a gente tinha pra onde fugir. Agora parece que acabou. Acho realmente assustador isso do mundo estar todo ele encaretando e o Brasil ir de vento em popa para trás com todo o resto.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

doentes

talvez o glúten de hoje em dia não seja mais o glúten que reunia em torno da mesa as famílias, nem aquele que Jesus dizia ser a sua carne. O glúten hoje é um transgênico, deve dar zebra, deve dar câncer, mas o quê não dá câncer?

Me parece estranho que um alimento possa ser responsabilizado por tantos males que na real deveriam ser atribuídos a coisas muito mais fáceis de se perceber como por exemplo andarmos de automóvel o tempo todo, não gastarmos as calorias que consumimos, comermos mais do que precisamos, vivermos em pequenas caixas, em multidões cada vez maiores mas sermos paradoxalmente cada vez mais solitários, respirarmos monóxido de carbono, vivermos entre coisas cada vez mais só feitas para serem úteis em vez de belas e as coisas belas cada vez mais inacessíveis.

O que dá câncer talvez um dia descubramos não é o glúten, nem os laticínios, nem a carne, ou talvez a influência deles seja vastamente menor que sermos passivos, alienados, isolados, incapazes de nos entregarmos à uma luta, desejando frutos sem os termos plantado, nos sentirmos invejosos de vidas que se víssemos de perto perceberíamos tão sem significado quanto a nossa e, principalmente,sermos cada vez mais incapazes de amar, de cuidar, de sermos solidários.
Em resumo: o que talvez nos provoque câncer seja uma imensa, colossal, estupenda e sem sentido algum, preguiça. Muita preguiça. Porque amar dá trabalho, ser bem sucedido dá trabalho. Fazer as coisas bem feitas, dá trabalho. Ganhar consciência de si mesmo dá trabalho. Dá trabalho viajar, dá trabalho arrumar a mala, a casa, dá trabalho sair da zona de conforto. Dá trabalho conservar amizades. Dá trabalho telefonar para os amigos que nunca achamos que nos telefonam o suficiente. Dá trabalho trabalhar.

Somos escravos de nossas ânsias, de nossas vontades cada vez mais urgentes e de nossos medos, tão indefinidos, mas tão insidiosos. Reclamamos do barulho dos vizinhos e já nem ouvimos mais o intenso barulho do tráfego. Ou, se não há barulho de tráfego, de nossa mente compulsiva e confusa. Colocamos nos nossos inimigos sinais desumanizantes quando em verdade até mesmo o demônio foi um dia o mensageiro dos deuses. Vemos ao horror como cor de rosa e ao cor de rosa como horror.

A pergunta é: como não adoecer se somos todos doentes?

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

pela estrada afora

como seria bom não haver muros. Mas já que eles existem, acho bonito os de pedra, os com ervas cobrindo ou os cheios de graffitis.

como seria bom poder conversar olhando nos olhos todos os dias com meus amigos queridos. Mas já que não dá, que exista o telefone, a internet, o sinal de fumaça e o pombo correio.

as coisas são o que fazemos delas