quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Sobre As Belas Paisagens e eu

Não gosto de olhar paisagens por muito tempo. O azul é lindo, as pedras são lindas, as montanhas são lindas, o mar é lindo, as praias são lindas: mas além de serem lindas, não acontece nada.

Sim, viajo milhões de quilômetros em busca destas paisagens ideais, maravilhosas, dignas de poesias. Mas depois de olhá-las por uns cinco minutos, já presto atenção em outras coisas. Sou uma herege por natureza.

Se ao menos as pedras abanassem o rabo, se as montanhas sorrissem para nós, se os céus chorassem de verdade, se o mar dançasse, se as praias falassem talvez conseguisse ficar por mais de dez minutos olhando.

Penso que talvez as pedras abanem o rabo, as montanhas sorriam, os céus chorem, o mar dance e as praias falem- se justamente os olharmos por séculos. Talvez algumas horas bastem, mas para isso teria eu mesma de ser pedra, céu, mar ou praia. Na pior das hipóteses, uma árvore. Ficar parada por horas só olhando: é coisa de árvore.

Um iogue é quase uma árvore. Eu sou gente. Logo, me distraio.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Mais, mais, mais

É preciso algum dia transgredir alguma lei. É preciso surpreender a si próprio ao menos uma vez na vida. Ou então, tentar os esportes radicais, ler Nietzsche ao pé da letra ou Neruda ao pé da alcova, qualquer coisa que dê ânimo ao eterno retorno das contas a pagar, a fome na hora do almoço, o lanche no jantar, o sexo cheio de pudores e sem odor nenhum, a indefectível fila na hora do rush do metrô, o eterno aniversário dos dias sem sol, das noites sem lua.

É preciso mais do que mágoas para fazer rolarem as águas que nos levam, velas grávidas de vento. É fundamental atravessar o deserto da vaidade para se chegar ao oásis da beatitude. É sempre preciso mais para se multiplicar conquistas e chegar a potência do desvario. Eu que me rio, ao fim, da mediocridade dos incompetentes, da inapetência dos burgueses, antes de tudo, uns chatos.

Salve a odisséia.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

2011


Alegrias sem alergias,
prêmios sem filas,
filas rápidas,
gatos com amor,
amor sem baba,
baba sem vírus,
vírus só pra matar trabalho,
trabalho sem tortura,
tortura só de prazer,
prazer sem culpa,
culpa só pra emagrecer,
emagrecer só na barriga,
barriga só de papo pro ar,
ar aos montes,
montes fáceis de subir,
subir com fôlego

Que 2011 seja este trem alegre que nos faça a cabeça e o coração

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Galope


Os cavalos girando
os cavalos giraram
os cavalos girarão
Importava o medo
e o prazer de estar
se num infindo gerúndio
ou num complexo infinitivo
O que faz a festa é a vida
sempre ela
Nos dando de comer
nos fazendo sonhar
Qual Don Quixote
Envergamos nossos chustes
para batalhas mais uma vez perdidas
o benefício?
Nossa própria história

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Sonhando Acordada


Abismo perfumado orvalho
quanto vale cada palavra
quanto tempo soa
o pássaro que voa
o copo que cai
o vinho que flutua
mais leve que a lua

Até onde vai
o véu da noiva
no escuro da noite
na cama da madrugada
os ossos do futuro
sementes do passado

Aquilo que será já foi
o que foi em breve faltará
tudo é instante
passa o equilibrista
eternamente
ternamente
no fio de um cabelo
à beira do abismo
perfumado
toda filosofia
cabem em poucas linhas
de pura poesia

terça-feira, 26 de outubro de 2010

O Primeiro Dia


Estar apaixonada é estar alguns centímetros mais alta do que o restante do mundo. Como tudo é incrível visto deste lado. É a margem do rio por onde nunca se caminhou. É o momento onde se percebe que de todas as dez coisas que existem, tudo é mágico. O tédio, a mediocridade, achar que tudo é igual faz parte do mundo sem paixão. Não é Cristo que nos salva. Quem nos salva é o corpo da pessoa amada, nos envolvendo. Quem nos salva é o beijo na boca, o desejo no sexo, a história das cavidades e das protuberâncias. É isto que nos salva.

Estar apaixonada é enriquecer de um dia para o outro e poder andar livre e solto sem o peso das moedas. Ou os riscos do cartão. Jamais se perde a senha para se entrar no coração do outro. Mas sim, antes disso somos tolos. Antes disso temos medo: da calcinha rasgada, da meia com chulé, de não ter lido a notícia no jornal, de não saber de cor as capitais dos países do mundo, da barriga grande ou da bunda pequena, da panturrilha magra, da raiz do cabelo de outra cor, da cutícula com mais de uma semana, dos inúmeros percalços da bolsa de valores.

Apaixonar-se é descobrir, assim, de espanto, todas as moléculas do universo cabendo dentro de si. No mais, batatinha quando nasce e eu me esparramo no chão para encontrar lá no fundo de nós dois, alguma raiz que me pregue ao céu.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

A borboleta no vidro-fotopoema


Estatelada a borboleta no vidro
explode côr e movimento
o vidro em sua transparência celebra
a delicadeza das coisas
a fatuidade dos gestos
o surpreendente em cada caminho

Dão-se as mãos numa dança
a parede e a janela
que permitem que os olhos se assombrem
e surja então mais uma fotografia

O instantâneo é o que a palavra não ousa:
a poesia escondida do que está tão a vista.

fotografia por Zezin da Cruz