domingo, 28 de fevereiro de 2010

Buracos


Meu olho vê teu olho no meu. No teu olho que me vê, um mundo inteiro de possibilidades. Somos duas almas gêmeas, somos dois estranhos, somos duas ilhas que se aproximam lentamente desenhando um velho continente esquecido.

Um dia fomos ninhos, noutro fomos árvores, noutro fomos casas, noutro fomos sonhos. Eis que nossa memória é os passos que demos para chegar até ao ponto exato.

O ponto exato que nos encontramos, enfim.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Amar O Mais Perigoso dos Esportes Nacionais


Sonhei que era audaciosa
Subia no coqueiro sem alça
Surfava em tsunami sem prancha
E andava de moto sem capacete.

Acordei.

Não era sonho:

Estava amando.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Visita ao Poeta


Um homem só
É alguém afortunado
Custa caro não ter vizinhos próximos
Um na vida do outro
Ninguém na própria pele
É raridade o salto e o grito
Perturba demais o asilo estrito
Da mente sem sonho
Da beleza sem alma
Do corpo sem movimento
Tédio intenso das horas cheias
De um nada que se amontoa

Quem são os medíocres
Quem são os acima da média
Quando ao fim a comédia é a mesma
Vestem-se todos dos trapos que compram
Por astronômicos preços
O lixo e o luxo sempre andaram de mãos dadas
No fundo dos oceanos irmanam-se os bagulhos
Que na superfície pareciam mergulhos
A um universo pleno de cor

Qual cor qual nada
É preciso nadar a distância dos continentes
Para descobrir que ao fim tudo é um só conteúdo
O tudo e o nada valem menos que a tapioca
Na doce boca da menina flor
Que de flor mesmo só tem botões
Todos com a palavra delete
Imensidões de trânsito intenso
E nenhuma comunicação

domingo, 8 de novembro de 2009

Domingo


Aquela carta nunca chegou. Jamais certas palavras. A vida tem algo de trem, segue cadência constante e nos leva para onde quiser. É preciso ver a vida acompanhada de música. Na música é preciso flautas e saxofones lânguidos. Colorir nossas lágrimas com algumas notas de puro jazz. Os recados ficam cada vez mais curtos. Ou nós, cada vez mais surdos.

sábado, 10 de outubro de 2009

Zelador


É bastante claro:
o zelador zela a dor
varre
passa o pano de chão
mal olha nossos olhos
sabe ser invisível
para nosso olhar cego
o burburinho das salas
o farfanhar dos papéis

O que fazer?
A dor é surda
o homem com seu rodo
torna suportável o cheiro
e os pés descalços sempre
pisam sujos o chão limpo
a custo das horas
eternidades que cabem
no círculo do relógio

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Amor e Dependência III- Casamento


Casar com alguém que se ama pode ser maravilhoso: contanto que ninguém esteja alienado dos fatos que precedem a própria instituição do casamento. Casar não é apenas amar um ao outro ou conviver debaixo do mesmo teto dividindo responsabilidades.

Quando digitamos “o que é casamento” no Google encontramos nas primeiras páginas os seguintes títulos: “O Significado das Flores, Flores e Decoração no Casamento”, “Qual o significado do casamento para cada um de vocês?”, “Vida Social: Casamento”, “Significado da aliança de casamento, arroz, bolo, vestido, véu”, “O Significado das Bodas do Casamento”. O casamento é, numa vista rápida através do Google, antes de tudo um evento social coroado por flores, bolos, arroz jogado aos noivos e vestidos de casamento de gosto duvidoso- pelo que bem indicam as próprias páginas listadas.

Ainda tendo o Google em mente, nas respostas individuais sobre o significado do casamento, a melhor resposta considerada pelo autor da pergunta foi: “acredito na felicidade, casamento na igreja é apenas uma das tantas formalidades que a sociedade impõe e casamento no civil garante a salvaguarda dos direitos (no final do casamento toma o que é teu e me dá o que é meu), o importante é ser feliz e sem burocracias”.

Vale notar, que no nosso país, o direito de quem coabita- sem vínculos formais de casamento- é o mesmo de quem casa formalmente, logo naturalmente os direitos já estão salvaguardados pela própria constituição nacional. A maioria das pessoas sequer tem noção dos seus direitos e, entretanto fala-se em direitos e salvaguarda de direitos.

Já que os direitos naturais do cidadão e cidadã brasileira estão salvaguardados pela própria constituição, afinal, que garantia é esta que só o casamento traz?

No site The Heritage Foundation, há pesquisas sobre o aumento de abusos sexuais infantis nos Estados Unidos desde 1980. Numa pesquisa britânica feita pelo autor Robert Whelan, é afirmado que as crianças cujos pais biológicos estão casados estão mais seguras neste quesito do que as crianças cujos pais se separaram, especialmente quando as mães estão vivendo com um novo cônjuge.

Não há notícias, por outro lado, de nenhuma pesquisa fazendo a comparação entre o atual quadro de crianças filhas de pais separados e as crianças de antigamente, filhas de pais que se mantinham juntos a qualquer preço, muitas vezes num clima de violência semelhante. Entretanto, aqui eu pergunto: não seria este um quesito onde concretamente há algum benefício no casamento?

Mas se a maioria dos casais se separa, com os filhos ainda pequenos, qual seria então o tão falado benefício do casamento?

Casar é, além de um evento social, um projeto que tende a ter um fim- geralmente anterior ao crescimento dos filhos. Ao se pensar o casamento, é fundamental que se tenha em mente que o amor que une um casal costuma ser passageiro e que, após o casamento, costuma haver a separação. Dar de antemão as melhores soluções possíveis ao problema mais do que provável de uma futura separação seria uma das formas mais racionais de se encarar o casamento.

Mas será que podemos viver de verdade equacionando os problemas que advirão de nossa morte, esta ainda mais garantida do que as separações e perdas que temos pelo caminho?

Ninguém casa pensando nesta estatística tal como ninguém vive pensando no fato mais do que garantido de que um dia morrerá- tirante algum hipocondríaco mais severo.

Talvez o primeiro benefício do casamento seja o mais clássico e o mais desejável de todos: quem casa economiza o tempo e o dinheiro do deslocamento que faria todos os dias a casa de seu (sua) parceiro (a).

Casar sai mais barato que viver separado. Mas é melhor não pensarmos no preço dos antidepressivos que serão consumidos ao longo do casamento, exatamente porque este existe.

Complica demais e não quero ficar conhecida como a figura que desestimula os casamentos. Não e não.

Casar é formidável. Ponto final e definitivo.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Tua Foto na Minha Estante


Botei uma música, só em casa, cozinhei para mim, dancei e pensei. Você, minha amiga está ali, no mesmo lugar. Uma foto ali no móvel da sala. A foto é do passado, mas você está aqui, no meu coração. Entretanto, eu não estou no seu.

Amigo é, depois dos filhos, a coisa que mais levo a sério. Para cortar relações com alguém de quem me considero amiga, há de acontecer algo muito sério. Você cortou relações comigo. Para você algo muito sério deve ter acontecido.

Penso que está na hora de tirar sua foto do móvel. Guardar junto ao álbum. Não ver todos os dias este rosto que adoro, mas que sei que talvez nunca reveja. Coisa estranha. Tantas pessoas a quem desgosto e que acredito que reverei. Você, justamente você, companheira de tantas viagens, amiga das horas difíceis, você eu acho que não reverei jamais, salvo algum estranho acaso.

Você nunca veio na minha casa nova e agora estou prestes a mudar. Quantas vezes fui à sua? Mas este jogo é o triste jogo do quantas vai quantas vem do fim.

Eu poderia simplesmente tirar a sua foto da minha estante. Para quê escrever para quem não atende ao telefone, não responde emails e mora há tantos quilômetros de mim? Quando passei mal ao longo de todos estes anos você não estava ao meu lado. Quando me desesperei e quase enlouqueci, você nem sequer ficou sabendo.

Poderia pensar que você jamais foi minha amiga. Mas isso também é mentira. É provavelmente a mesma mentira que você conta para você mesma, quando tão facilmente me descartou porque não cumpri a alguma expectativa besta que você resolveu ter de mim.

Na vida, volta e meia acho que a gente foi muito mais longe do que deveria. Não só eu, mas a humanidade inteira, com tantas máquinas, tantos engenhosos inventos que não servem para a maioria das pessoas e para a maioria das coisas que realmente importam. Não há máquina que dê novamente vida aqueles que amamos, quando muito, elas postergam o sofrimento, mas não trazem vida novamente.

No fim, talvez tudo, toda a nossa vida, tudo o que fizemos, a gente pense que não foi mais do que um excesso, algo para se jogar no lixo.

Jogaremos nosso coração no lixo? Jogaremos nossas melhores lembranças no lixo? Perguntas sem respostas para vidas igualmente sem respostas.

Não vou te fazer perder mais tempo. Aliás, talvez você nem sequer tenha lido nada. Eu não consigo não ler o que me escrevem, mas eu sou poeta, sou aquela que se interessa por ruínas, rastos, restos, por tudo o que nos inscreve aleatoriamente neste mundo cada vez menor.

Será que só deveria andar com poetas? Poetas são tão chatos. Bons para nos inspirar, muito aborrecidos para se conviver.

Talvez você tenha razão em não atender mais meus telefonemas. Você não é poeta. Aliás, o que você é no momento? Dentre as várias coisas que gosto em você é você já ter sido secretária, contorcionista de circo, dona de cachorros, de gatos, dona de casa, dona de loja, dona de si. Tantas coisas numa só pessoa.

Você não me atende, mas eu tenho sua foto na minha estante, conheço sua voz de cor e posso muitas vezes adivinhar o que você diria se a gente estivesse conversando.

Você estará sempre comigo. Não é uma promessa. É um fato. Como estarão comigo todos aqueles a quem dou meu coração e chamo de amigos. Seja feliz, ou melhor, seja você mesma. Todos os que de ti se aproximarem saberão, como eu, que você é esta pessoa rara, esta pessoa imprevisível- que pode inclusive abandoná-los sem aviso, sem conversa, sem melodrama.

Você pode ir para o raio que a parta porque tenho seu retrato. E de qualquer maneira, não há raio que te parta. Você é quem parte os raios.