quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Modo-Medo

"Ontem eu não devo ter acordado com um pé esquerdo e sim com os dois. Você não imagina o que aconteceu. Uma mulher no metrô cismou que eu estava olhando pro namorado dela, veio pra cima de mim, me bateu, tiveram que vir os seguranças do metrô e eu nem estava olhando na direção deles"- ouvi esta fala enquanto ia para o consultório. Uma moça que vinha atrás de mim, falando no celular narrava sua caótica experiência.

Olhei para ela. Uma moça jovem, sem nenhum traço mais particular, simpática, bonitinha. Não se parecia com uma mulher fatal que provocaria invejas e ciúmes nas demais nem com uma sirigaita que roubaria namorados de outras descaradamente no metrô. Ela percebeu que eu tinha ouvido a conversa (estávamos andando muito próximas) e rapidamente conversamos. No fim ambas tínhamos concluído que as pessoas estão muito estressadas, vendo cabelo em ovo e partindo para o ataque com ou sem motivos reais.

Conforme ontem escrevi rapidamente, a partir do momento que começamos a ter medo ou ansiedade, nosso cérebro deixa de se referenciar pelos pensamentos lógicos para se basear completamente nas emoções. E aí tudo que vemos/lemos/fazemos se torna mais uma evidência de que estamos em perigo- mesmo que pelo contrário, estejamos completamente a salvo. Quando estamos no modo-medo de funcionamento o médico te diz que "seu tumor é benigno" e nós entendemos que " é algo pior que um câncer e vai me matar": automaticamente.

Analisando estes fenômenos por um outro lado, por que todo mundo pára para ver o morto no acidente de trânsito ou ri das vídeo-cassetadas? Porque cada vez que acontece uma desgraça com um semelhante nós nos sentimos extremamente aliviados que a desgraça foi com o outro, não conosco. Por isto ficamos olhando embasbacados pro morto ou rimos feito uns panacas do cara que caiu de cara no chão em vez de na piscina na vídeo cassetada do Faustão (ainda tem isto no programa do Faustão? Ainda tem Faustão? Eu parei há anos de assistir).

Aprofundando a conversa, é muito interessante se colocar uma população inteira no modo-medo ou modo-ansiedade. Pessoas levadas por emoções, sem capacidade de avaliar perigos reais ou imaginários, perceber se há evidências concretas que validem ou não suas fantasiam são fáceis de serem manipuladas e levadas a fazer qualquer coisa.
Então, antes de mais nada, nesta quinta feira do ano de 2014, exceto se você estiver sob reais tiroteios, dê uma boa olhada à sua volta. Nas cidades há poucos passarinhos, mas eles ainda cantam. Ouça a algazarra das crianças. Sinta a brisa (se houver) ou sinta o calor. Perca a ilusão de que pode controlar tudo que só te faz ficar mais ansioso ainda. Simplesmente se dê conta de que estar vivo é uma grande benção.

domingo, 12 de outubro de 2014

utilidades

ter olhos para ver
ter coração para sentir
ter pernas para andar
mãos para pegar
uma mente atenta e forte
acreditar na vida antes da morte
ser suficientemente viva
para jamais desistir
sem antes fazer o melhor possível
e amar muito porque é para isto que se tem um coração

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

poesia boa

A poesia é boa quando dá onda
é excelente quando você começa o poema e termina molhado
se ficar bronzeado melhor ainda
a poesia é uma praia
na ilha chamada imaginação

sábado, 6 de setembro de 2014

quase esqueço

Cada dia que de ti me despeço

me despedaço

mas há muito de aço em mim

por isto resisto

e quase me esqueço

que o coração ainda é carne

Foto: Antonio Manuel Pinto Silva

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

As Boas Pessoas

Sábado estava atrasada. Detesto chegar atrasada, seja no trabalho ou no lazer. Lembro de ter pago o taxi e sair correndo rumo ao meu ponto de encontro. Lembro das coisas que conversei, mas não lembro das coisas que fiz. Tomei um café e comi uma pequena torta. Na hora de pagar percebi que havia perdido minha carteira com todos os cartões e mais um dinheiro. Procurei em todos os lugares. Nada de cartão. Bateu uma adrenalina. Medo, pânico. Fantasias de falência, cataclisma a estibordo.


Quando cheguei em casa, liguei para todos os bancos imediatamente, bloqueei todos os cartões. No domingo, cada vez que passava por um caixa eletrônico meu olho ficava comprido e eu nostálgica. Tinha dinheiro, mas o dinheiro estava no banco, inacessível, tão longe, tão distante, que simplesmente o fato era que eu não tinha um centavo. Lembrei da minha juventude onde este estado de não ter dinheiro era permanente. Como é terrível não ter dinheiro, não poder comprar um chiclete, nada.


Para piorar, era exatamente no fim do mês, todas as contas venceriam nesta semana. Como é que eu iria pagar minhas contas sem cartão? Até o cartão com os números estava na carteira. Não ia dar para pagar nada. Vi meu nome sujo na praça, pessoas mostrando dentes para mim, eu chorando e dizendo “sou inocente, eu quero pagar só não sei como.


Aí para completar, meu filho ficou me falando de várias coisas que ele havia me dito naquela tarde e eu não lembrava de bulhufas. Todo um período em que eu simplesmente pulei, zero de consciência, lapso. Lembrei que na semana anterior havia esquecido meu celular numa banca de jornal. Pensei em todos os diagnósticos deste tipo de lapso da memória. Dois episódios. Horror: devo estar doente, pensei. Frio na barriga. Uma da manhã mandei recado no whatsapp para duas amigas. Será que estou com o Alzheimer?


Comecei a fazer reflexões mais abstratas para me tirar do pânico. Faz algo em torno de dez anos que os cartões de débito e crédito passaram a ser usados amplamente no país. E já não podemos mais viver sem eles. Tão práticos. Melhor só se bastasse a biometria. Fiquei pensando que se fosse só biometria ninguém mais perderia cartões, ninguém mais roubaria cartões. Irritação por viver no tempo que se precisa dos cartões. Queria estar no futuro.


Domingo estas duas amigas me acudiram, me levaram para ver Lucy, me deram amor, carinho e lanchinho. Ambas me falaram de situações em que elas tiveram lapsos feito eu. Sosseguei finalmente.


A semana começaria aborrecidíssima mesmo assim. Segunda feira amanheci no banco, fui falar com minha gerente, ela nada poderia fazer, me orientou para ir nos serviços de atendimento e no caixa para pegar dinheiro e pagar as contas. Obedeci, fazer o quê. Horas e horas na fila esperando para ser atendida. Levei o livro do Cortázar para ficar um pouco surreal meio à realidade inóspita. O que mais me faz falta hoje em dia é tempo e eu ali, horas e horas numa fila chata de banco.


A gente se acostuma com tudo. Pelo menos não tive de ir numa delegacia porque minha carteira de identidade não estava junto dos cartões. Ponto para mim por ter um tiquinho de juízo. A semana foi passando veloz.


Um certo mau humor permanente porque detesto perder dinheiro. Costumo ganhar, gastar, perder nunca. Mas tudo ok. A semana seguiu.


Hoje, quinta feira, fui correr, fazer aula e quando voltei haviam muitas ligações registradas no celular. Liguei para os números, era uma agência do meu banco. Ainda sem saber quem havia ligado, imaginando que poderia ser um paciente que trabalha no banco, deixei recado.


Daqui a pouco, liga um funcionário desta agência, um rapaz, voz de jovem mesmo. “A senhora perdeu sua carteira?”, respondi que sim. Ele então me disse “sua carteira foi encontrada está com a moça da banca de jornal”. Falei “que sorte”. Ele: “a senhora não imagina quanto, pois não apenas sua carteira com os cartões foi devolvida como tem dinheiro dentro, muita sorte mesmo”.


Rumei para o banco imediatamente. O jovem que me atendeu muito simpático, me levou até a banca de jornal onde estava esta senhora. Ela me contou que um homem viu a carteira no chão, levou para sua banca. Ela por sua vez, percebeu que havia cartões do meu banco, conhecia este rapaz que trabalhava nele, foi a ele avisar do acontecido. Ele por sua vez checou no sistema, descobriu meu telefone e pronto, lá eu tinha minha carteira com 200 reais e todos os meus cartões do jeito como os perdi.

Foram três pessoas honestas. O homem anônimo que encontrou a carteira no chão. A senhora da banca de jornal. O moço do banco. Qualquer um deles poderia ter levado um troco, poderia ter mentido que já havia encontrado assim. Mas não. Agiram com toda a honestidade.

Acho que faltam notícias como esta no jornal. Devem existir várias pessoas honestas por aí afora. Pessoas que fazem o bem, não importa a quem, pessoas de bom coração.


Somos diariamente bombardeados por um monte de más notícias. Por que não existem repórteres fuçando as boas notícias? A quem interessa o medo, a desconfiança, o ódio?


O que sei é que passar por algo assim como o que passei hoje me encheu de alegria. E esperança. Sim, há boas pessoas no mundo. Estou entre elas. Posso ficar tranquila.


Estou com um sorriso no rosto. Gostaria de espalhar alegrias na cidade tão cinza, tão triste. Obrigada a você, pessoa que não me conhece, mas sempre me respeitou. Amor é isto também: solidariedade. Obrigada por existir. Desejo-lhe toda a felicidade do mundo.

o melhor da arte é chamado de poesia, mas os pobres poetas perdem seus dentes

Quando alguém quer elogiar muito à uma foto diz que o fotógrafo é um "poeta". O mesmo se for uma linda pintura, uma incrível coreografia etc. Todas as artes se apropriam do termo poesia quando querem dizer que algo é muito bom. Curiosamente, os poetas propriamente costumam ter nos seus saraus só outros poetas. Editoras recusam livros de poesia porque não vendem. Sarau cheio é sarau que rolam aqueles poetas estilo Maite Proença e Fulano de Tal ilustre que as pessoas vão porque querem estar entre gente famosa.


Os poetas de verdade costumam ser meio exóticos, muitos são duros de marré de si se só forem poetas.


Esta coisa de sarau cheio ou evento artístico cheio no mundo das artes é mais pelo desejo das pessoas de estarem entre os famosos e o pipocar dos flashes. A real é que sem subsídios do governo, a maioria das peças, filmes, exposições não estariam em cartaz porque não tem público que banque a existência de nada disto. Há filmes, peças, exposições etc fabulosos com quase zero de público. Entretanto....Todo mundo quer ser artista!


Na verdade, pouquíssimos querem de fato ser artistas porque o que a maioria deseja é ser artista famoso. Querem o glamour de aparecer no jornal. Mas artista só fica famoso ou quando realmente é ótimo ou quando é parente de alguém importante. Conclusão: o mundo é pitoresco.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Brincando de brincar

Tem dias que acordo flor
outros que acordo abelha
outros que não acordo nada
me estico no sonho
e como uma mariola
nada mais saboroso do que mariola
olhando nuvem e passarinho de bom humor
Estou me exercitando para acordar baleia
quero muito jogar água em todo mundo
a melhor poesia sempre foi a brincadeira de criança