sexta-feira, 15 de abril de 2011

Feliz Fim de Semana


Feliz fim de semana
Feliz mês
Feliz páscoa
Feliz tudo
Felicidade pode ser apenas uma idéia
mas sua prática, a alegria, nunca é demais

Nunca é demais abraçar o filho
falar com os amigos
ter paciência com a mãe
afinal, antes de tudo, toda mulher é louca
para parir é preciso uma dose de insanidade múltipla
mas é preciso mais loucura ainda
para simplesmente sair da cama todos os dias
e ser capaz de dar bom dia
ao nosso rosto no espelho
cada vez mais velhinho
novas marquinhas aparecendo
e nossas melhores lembranças desaparecendo

Nunca é demais a poesia
por isso mesmo
paciência com os maus poetas
roteiristas medíocres atores e atrizes incompetentes
pintores que nada pintam fotógrafos patetas
enfim tolerância
à toda esta cambada de desocupados que às vezes nos fazem sorrir ou chorar
por simples emoções

Sim, é preciso ir ao dentista uma vez por ano
ao ginecologista duas
tal como é preciso ser gentil com nosso gerente bancário
nossa diarista nosso porteiro
sempre
mas antes de tudo
é muito muito muito importante
ter carinho com nosso corpo
alongar nossos músculos
e se permitir respirar
tão fundo quanto o mais fundo dos profundos oceanos
ser- sem esperar nada de si
sem se julgar
sem se atormentar
apenas ser
uma exótica planta
nos jardins do universo

Viver é a única coisa fundamental na vida.

Que muita vida nos possua sempre
e a cada instante sem descanso
de maneira que quando finalmente a morte acontecer
não faça a menor diferença quantos irão ao nosso enterro
quantos nos insultarão ou quantos nos sinceramente prantearão
se deixaremos muitos ou poucos bens
não é isso que fará diferença
O que faz diferença
é o aqui
é o agora
tudo o mais é fumacinha
ilusão de nossas cabecinhas neuróticas
acostumadas a viver num mundo de instituições
mais bestas que a mais besta besta
que ao menos está sossegada no seu pasto
sem fazer mal a ninguém

sábado, 9 de abril de 2011

o quadro diante do beijo na boca


Eis que passeando pela vida
chegamos à arte
viver é arte

o olhar artístico é a arte das sinapses

tiramos muito peso das costas
a cada instante que nos permitimos
ter prazer
viver bem
ficarmos contentes com tudo o que é bom

dois mil anos de civilização judaico cristã não valem
um único beijo na boca

as tintas que compõem a Gioconda
não são a própria Gioconda

dirás: a tela sobreviveu à mulher
trouxe-a para a eternidade

e eu então te mandarei ouvir os pássaros
e seguir a rota dos avezagões do mar
não há eternidade que valha
uma única vida
a grande poesia é
viver a vida
e deixar-se ir
coisa que tão bem faz qualquer gaivota

hoje acordei mar

domingo, 3 de abril de 2011

Se Me Perguntares


Por que não amar?

Amo.

A tudo o que é amável.

Amar não gasta.

Amar multiplica.

O que consome é a vaidade.

O que tiraniza é a doença.

O que divide é o medo.

Amor não é vaidade. Não é doença. Não é medo.

Amar é dar linha ao horizonte

e asas ao coração.

Amar é achar graça no teu nariz torto

e perdoar sempre perdoar

a tua palavra tão azeda.

Amar se faz

Não se promete nem se pensa.

Amar é.

Abismo sobre abismo.

Um nos olhos do outro.

Intransponíveis e mansos.

Confusos e lúcidos

Presentes.

Generosos.

Tudo o mais
amar não é

e em não sendo
há de ser uma outra coisa

mas se me perguntas
minha resposta ao amor é sempre sim.

Cyn-thia.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Sobre As Belas Paisagens e eu

Não gosto de olhar paisagens por muito tempo. O azul é lindo, as pedras são lindas, as montanhas são lindas, o mar é lindo, as praias são lindas: mas além de serem lindas, não acontece nada.

Sim, viajo milhões de quilômetros em busca destas paisagens ideais, maravilhosas, dignas de poesias. Mas depois de olhá-las por uns cinco minutos, já presto atenção em outras coisas. Sou uma herege por natureza.

Se ao menos as pedras abanassem o rabo, se as montanhas sorrissem para nós, se os céus chorassem de verdade, se o mar dançasse, se as praias falassem talvez conseguisse ficar por mais de dez minutos olhando.

Penso que talvez as pedras abanem o rabo, as montanhas sorriam, os céus chorem, o mar dance e as praias falem- se justamente os olharmos por séculos. Talvez algumas horas bastem, mas para isso teria eu mesma de ser pedra, céu, mar ou praia. Na pior das hipóteses, uma árvore. Ficar parada por horas só olhando: é coisa de árvore.

Um iogue é quase uma árvore. Eu sou gente. Logo, me distraio.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Mais, mais, mais

É preciso algum dia transgredir alguma lei. É preciso surpreender a si próprio ao menos uma vez na vida. Ou então, tentar os esportes radicais, ler Nietzsche ao pé da letra ou Neruda ao pé da alcova, qualquer coisa que dê ânimo ao eterno retorno das contas a pagar, a fome na hora do almoço, o lanche no jantar, o sexo cheio de pudores e sem odor nenhum, a indefectível fila na hora do rush do metrô, o eterno aniversário dos dias sem sol, das noites sem lua.

É preciso mais do que mágoas para fazer rolarem as águas que nos levam, velas grávidas de vento. É fundamental atravessar o deserto da vaidade para se chegar ao oásis da beatitude. É sempre preciso mais para se multiplicar conquistas e chegar a potência do desvario. Eu que me rio, ao fim, da mediocridade dos incompetentes, da inapetência dos burgueses, antes de tudo, uns chatos.

Salve a odisséia.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

2011


Alegrias sem alergias,
prêmios sem filas,
filas rápidas,
gatos com amor,
amor sem baba,
baba sem vírus,
vírus só pra matar trabalho,
trabalho sem tortura,
tortura só de prazer,
prazer sem culpa,
culpa só pra emagrecer,
emagrecer só na barriga,
barriga só de papo pro ar,
ar aos montes,
montes fáceis de subir,
subir com fôlego

Que 2011 seja este trem alegre que nos faça a cabeça e o coração

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Galope


Os cavalos girando
os cavalos giraram
os cavalos girarão
Importava o medo
e o prazer de estar
se num infindo gerúndio
ou num complexo infinitivo
O que faz a festa é a vida
sempre ela
Nos dando de comer
nos fazendo sonhar
Qual Don Quixote
Envergamos nossos chustes
para batalhas mais uma vez perdidas
o benefício?
Nossa própria história