domingo, 15 de abril de 2012

O Paraiso em Evora


Sua mãe sempre comprava para ela lindos guarda-chuvas infantis.

Tinha seis meses, apenas um bebê, quando a fotografaram agarrada com um de Cogumelos coloridos. Com um ano, estava carrancuda displicentemente segurando um que tinha uma cabeça de Mickey. Com três, sorria novamente e dançava com um de tranças, que a mãe chamava de Rapunzel. O mais lindo era o de um sapinho verde, que a acompanhou espantosamente por dois anos a fio.

Ismênia não lembrava direito como, mas sabia que perdera um por um. Sabia disso não de ouvir a mãe contar e sim porque cada vez que um se ia, chorava por horas e ela lembrava muito bem de suas choradeiras infantis. Detestava bancar o bebê chorão, mas não conseguia se controlar. No sapinho verde, a menina, pequena demais para ser chamada de sensata, pediu à mãe que não comprasse mais guarda-chuvas tão bonitos já que ela perdia todos.
Mães insensatas, filhas ajuizadas, Cleo, a mãe, cometeu a imprudência de comprar mais um lindo guarda chuvas para a filha. Desta vez, era transparente com bordas de bolinhas coloridas.

Ismênia bem que tentou resistir. Recusou-se a ir para escola usando aquele guarda chuvas que era ainda mais lindo que o de sapinho porque parecia uma versão em guarda chuvas de um desenho de vestido que estava fazendo há dias. Mas era demais para uma menina de seis anos que adorava chuva só para poder brincar com os seus guarda chuvas e após três dias de recusa, cedeu.

Infelizmente, o destino deste não foi lá muito diferente do dos demais, embora a este ela tenha conseguido desenhar. A intenção era coloca-lo como um acessório obrigatório da roupa que tinha bolado agora, um vestido que além de vestir podia se transformar em paraquedas em caso de você se ver numa situação de alturas extremas e chãos inevitáveis. Se sua avó usasse um destes, não teria quebrado a perna no metrô há um mês atrás, num dia de chuva que escorregou na escada. Antes tarde do que nunca, Is bolou a solução para este tipo de problemas com este vestido elegantíssimo e utilíssimo.

Quando ficava triste, Is se lembrava de todas as muitas coisas que não entendia. Não entendia por exemplo, por que sua mãe havia posto nela este nome tão esquisito, pra começar. Quando perguntava, sua mãe, psicanalista do Círculo Psicanalítico respondia que Ismênia era a filha querida de Édipo, um grande rei da antiguidade e não falava mais nada sobre o assunto. Extremamente irritante este tal rei e esta tal sua filha.

Ora, quem quer saber de reis podendo se chamar Carol, ou Mariana ou mesmo Isabel? Isabel era até meio parecido com Ismenia, se tirássemos todas as letras menos o I e o S. Segundo não entendia porque sua mãe não podia ser como todas as outras mães que deixavam suas filhas assistirem tevê. Aos seus seis anos de idade, Is já tinha um caderno completo de perguntas sem resposta, além de uma pasta repleta de desenhos de vestidos de alta costura, inspirados pela revista francesa que sua avó lhe dava semanalmente. Haute Couture, se dizia com um biquinho em frances.

Para onde vão os guarda-chuvas desaparecidos?

Esta era sua primeira pergunta no seu caderno de perguntas sem respostas.

O tempo passou, Is se tornou uma famosa estilista- continuou seus desenhos de vestidos, até que os vestidos viraram vestidos de verdade e geralmente vinham acompanhados por belíssimos guarda chuvas.

Quando Ismenia tinha trinta e cinco anos produziu um desfile em Evora onde o cenário era todo de guarda chuvas.

O paraíso dos guarda chuvas onde todos os dias eram azuis.

Ismenia agora se chamava Isabel. E continuava não entendendo sua mãe.

foto: Graça Garcia
publicada no site Olhares

terça-feira, 10 de abril de 2012

Deus Segundo Spinoza


Deus segundo Spinoza



“Pára de ficar rezando e batendo no peito! O que Eu
quero que faças é que saias pelo mundo e desfrutes de tua vida. Eu
quero que gozes, cantes, te divirtas e que desfrutes de tudo o que Eu
fiz para ti.

Pára de ir a certos templos lúgubres, obscuros e frios
que tu mesmo ergueste e que acreditas serem a minha casa.
Minha casa está nas montanhas, nos bosques, nos rios,
nos lagos, nas praias e no coração das pessoas. Alí é onde eu, de
fato,
vivo e ali expresso meu amor por ti e por todos.

Pára de me culpar da severidade contigo: Eu nunca te
disse que há algo mau em ti ou que és um pecador, ou que tua
sexualidade é algo mau. O sexo é um presente que eu te dei para
expressares teu amor, teu êxtase, tua alegria.

Pára de ficar lendo somente supostas escrituras que mais
têm a ver com ignorância e miséria humanas do que com minha grandeza e
bondade. Há de ler-me num amanhecer, numa paisagem, no olhar de teus
amigos, no teu filhinho...
Sim, me encontrarás em um bom livro, numa poesia, numa
obra de arte e, quem sabe, em um mendigo,num enfermo, num injustiçado,
numa folha seca.
Confia em mim, pede a ti mesmo. Ter medo de mim? Eu não
te julgo, nem te critico, não me irrito, nem te incomodo nem castigo.
Amor eu sou, puro amor.

Pára de me pedir perdão. Se Eu te fiz... eu te enchi de
paixões, de limitações e prazeres, de sentimentos, de necessidades, de
incoerências e fragilidades. Como posso te culpar se respondes a algo
que eu pus em ti? Como posso te castigar por ser como és,
se eu sou quem te fez? Meu nome é Compaixão.

Crês que eu seria capaz de criar um lugar para punir
filhos meus, pelo resto da eternidade, só porque não deram conta de se
comportarembem? Que tipo de Deus poderia fazer isso?

Esquece qualquer tipo de lei com artimanhas, a fim de
manipular-te para te controlar com castigos. Respeita teu próximo e
não faças a ele o que não queiras para ti. A única coisa que te peço é
que prestes atenção à tua vida, que teu estado de alerta seja teu
guia.

Esta vida não é uma prova, nem um degrau, nem um passo
no caminho, nem um ensaio, nem um prelúdio para o paraíso. Esta vida é
o único tesouro que há, aqui e agora; isto é o único de que precisas
para crer em mim e receber da vida.

Eu te fiz livre, isto é, relativamente responsável. Não
há prêmios nem castigos. Não há pecados nem virtudes. Ninguém preenche
um placar. Ninguém leva um registro.Tu és condicionalmente livre para
fazer de tua vida uma dádiva ou uma ameaça, um céu ou um inferno.

Eu não te posso dizer se há algo depois desta vida, mas
posso te dar um conselho. Viva como se não houvesse... Como se esta
fosse tua única oportunidade de existir, de aproveitar, de amar.
Assim, se não há nada, terás aproveitado da oportunidade que te dei,
sendo correto e vivendo feliz.

E se houver, tem certeza de que eu não vou te perguntar
se foste comportado ou não. Só vou te perguntar se tu gostaste: se te
divertiste e do que mais gostaste? O que aprendeste? O bem que
fizeste?

Pára de apelar para mim - isto é supor, adivinhar,
imaginar. Eu não quero que, assim, acredites em mim. Quero que me
sintas em ti.

Sim, quero que me sintas em ti quando beijas tua amada,
quando agasalha tua filhinha, quando acaricias teu cachorro, quando
tomas banho no mar.

Pára de me louvar! Que tipo de Deus ególatra tu
acreditas que eu seja? Aborreço-me quando me pedem desculpa. Canso-me
quando me agradecem. Tu te sentes grato? Basta isto.

Pára de complicar as coisas e de repetir como papagaio o
que te ensinaram sobre mim. A única certeza é que tu estás aqui, que
estás vivo e que este mundo está cheio de maravilhas.

Demonstra-o, cuidando de ti, de tua saúde, de tuas
relações, do mundo. Te sentes olhando, surpreendido, admirado?
Expressa tua alegria! Este é o jeito, o único, de me louvar.
Entendeste?

Para que precisas de mais milagres? Para que tantas
explicações? Não me procures fora! Não me acharás. Procura-me dentro
de ti, nos outros, nas coisas e, sobretudo, nas relações que vives. Aí
é que estou, sempre estarei, abraçado contigo.

Baruch Spinoza.
Filósofo
1732 - 1777

domingo, 8 de abril de 2012

o errado às vezes é o certo


A grafia da luz também é a grafia das sombras
Me interessam mais as cores do que a nitidez
a incisão cortante do sol sobre a flor do impossível
a poesia esquecida num canto da sala
- ninguém vê

Me interessam os restos
os rastros
os traços
as miragens que a vida cansa de nos oferecer
enquanto nós fazemos filas para pagar as contas

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Amor e Paciência

Duas palavras com significados diferentes, tão mais distintos quanto mais fugazes os tempos. Será mesmo que são tão diferentes?

Imaginemos uma mãe que decidisse que seu bebê hoje já deveria falar, escrever, quem sabe já ter cursado a universidade. Que espécie de mãe seria esta que exigisse do filho a velocidade que apenas o pensamento é capaz? Haveria qualquer afeto em alguém tão ansioso de resultados?

O amor se prova também pelo número de vezes que repetimos uma mesma história e pelo número de vezes que revendo o olhar inocente de nossos filhos nos deleitamos com isso, mesmo já tendo sido visto e revisto tantas vezes.

O amor é sobretudo repetição e capacidade para se encantar como se fosse tudo pela primeira vez.

Amar ao filho. Ou às velhas canções. Ou às mesmices dos amigos. Amar é repetir-se tantas e tantas vezes que de tanto repetir-se no encantamento um dia deparamos com o mistério de uma vida inteira.

Não se ensina a amar, por certo.

Quem serão os afortunados- ou apressados- que podem afirmar antes do fim da jornada que o que sentiram de fato foi amor?

Amor é um sentimento cuja certeza é póstuma.

Nossas declarações de amor são abracadabras para abrir as portas do coração à uma intuição. Intuimos o amor, às vezes corretamente, outras nem tanto. O amor no presente é intuição, instinto, elocubração.

Dizemos "eu te amo" com uma boca enquanto em algum outro ponto de nosso ser nos indagamos- quase que silenciosamente: será isto realmente amor? Se eu repetir muitas vezes que é amor, será que isto passa a ser amor? Se eu acredito que é, será que passa a ser? Existe mesmo um verdadeiro amor ou todo amor que assim se nos desvela é amor?

Aos jovens amantes- e todo amante é jovem, mesmo que com 60 anos biológicos- meu único conselho é: jamais aceitem conselhos. Podemos aprender técnicas de beijo na boca, técnicas eróticas, mas nunca ninguém poderá afirmar nada significativo, nada de realmente revelador sobre a única coisa que será sempre mistério e poesia. Até o fim dos tempos. Até que pereça o último homem. Que por falta de companhia, aprendeu a amar às nuvens.

Pacientemente. Foi com extremo cuidado e afeto que ele ensinou aos olhos o segredo da luz na sombra da mais evanecente nuvem. E ao dar seu último suspiro sonhou ser um pássaro, mesmo sem jamais ter conhecido nenhum.

Por amor.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

FELIZ 2012

No começo tudo era passarinho

Libélula era liberdade
cinco sílabas que de tanto dançar viraram 4

Há que sempre se dizer certas palavras
se não elas morrem coitadinhas

Inventar novos jeitos de soletrar uma solidão que seja um solzão acompanhado de maracujá côco e beijo na boca

É preciso ver: nada combina mais com a tinta negra do que a branca folha de papel

Amigos eu os saúdo e prevejo grandes luzes

os olhos abrindo a linha do infinito e nossos passos espaços de cores insuspeitadas

Quero-vos perto e desejo que cada um seja cada vez mais um bom tanto de si mesmo
o fogo que anima a vida

Agradeço-vos cada gesto e toda lavra larva de novos aconteceres

AXÈ!!!

domingo, 13 de novembro de 2011

Divagações de Domingo


Sim, a vida é surpreendente e se por um lado rola a invasão da Rocinha pela coisa mais pop da atualidade que é o BOP, por outro nascem potrinhos appaloosa em distantes rincões do país, pessoas se enamoram, outras têm filhos, outras adoecem e outras morrem. A vida é algo que flui e vive em gerúndio e paradoxo permanente.

As coisas estão sendo. E as coisas não têm definição exata. Cabe a nós cabermos em nossa razão tamanhas imensidões- que volta e meia não cabem. Volta e meia tem alguém que surta, que se desintegra. E no fim das contas, poucos de nós se arrojam a viver com plenitude e criatividade neste mistério que consiste ser. Ser sendo de verdade é para poucos. A maioria se contenta em repetir rotinas, em fazer julgamentos permanentes sobre si e sobre os outros, em ecoar uma coisa besta chamada opinião e se dar por inteligente porque tem opinião.

Ora, opinião é natural, mas é nada mais que um eco de tudo o que a mídia nos oculta e que os jornais descontextualizam e de acordo com os interesses políticos dos donos dos jornais e seus financiadores publicam. Se há uma coisa que jamais é realmente independente e criativa é a tal da opinião. Quem opina não se compromete com o que diz. Quem opina não pesquisa sobre o que diz. Quem opina não questiona se há evidências ou distorções dos fatos. Quem opina apenas engrossa uma massa eternamente manipulável. Exatamente por não se comprometer, não pesquisar, não problematizar aquilo com o qual se depara.

É fácil confundir democracia com este fato trivial chamado dar opinião. Alguém pode se considerar democrático por permitir a si opiniões que julga independentes e por se julgar capaz de respeitar as opiniões alheias. Acontece que democracia era algo referente a ação política do cidadão na polis. E ação era ação, não era ficar pensando que pensa sobre coisas que ouviu dizer sem ter a menor noção de se aquilo sobre o que pensa pensar realmente se deu como nos contaram que se deu. Ação política era a soma de coisas como atitude, gesto, questionamento, comprometimento, militância, criatividade, ousadia. Ser cidadão era exercer seus direitos e deveres na constituição da polis.

Hoje ninguém é cidadão. E acham que exercer cidadania é dar opinião.

Francamente, reclamar não é ser cidadão. Achar que alguém deve ser responsável e não se sentir responsável por nada não é ser cidadão. Ficar na chorumela achando que o problema são os outros, os políticos são canalhas, todos roubam e são imorais é de uma incrível imoralidade. É imoral reclamar tanto tendo tantas possibilidades de atitude, de ação, de gesto, de tomada de posição. É imoral falar que estamos vivendo uma guerra sem jamais ter posto o pé numa guerra e sabendo o que é realmente viver numa guerra. E, principalmente, é muitíssimo imoral falar de moralidade e não ver quantas vezes se fura a fila, se molha a mão do flanelinha, do despachante e como cada um de nós, por nossa escolha, podemos estar alimentando a máquina onde a corrupção se engendra.

Cada um de nós, na medida das possibilidades e impossibilidades de cada um, é mais ou menos corrupto. Se sendo pequenos e tendo poucas oportunidades de sermos mais corruptos, mesmo assim, enganamos, tripudiamos, nos omitimos e somos corruptos, como é que podemos ter tanta certeza que se estivéssemos em posições de poder não nos corromperíamos ainda mais que estes a quem chamamos de corruptos?

Pessoalmente, evito encher minha boca e falar de moral. E apesar de ser opiniática como toda minha geração FAcebook-compartilhe-o-que-está-pensando, não me levo a sério. Só me levo a sério quando ponho a mão na massa, quando pesquiso, quando me comprometo, quando estou realmente por dentro daquilo sobre o que digo. No restante, sou alegre. O que já é bastante bom.

Bom Domingo.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Pela Eutanásia


Dia 14 de julho de 2011 minha tia que era minha mãe (ou minha mãe que era minha tia) se suicidou. Pulou do 15º andar após ter tido recentemente um diagnóstico de Alzheimer.
Há muitos anos atrás, um padrinho, marido da irmã dela, teve esta mesma doença, então ela sabia exatamente qual o processo do mal.

Minha mãe-tia sofria de insônia e desde quando eu tinha dezesseis anos ela dizia que ia se matar. Entretanto, apesar de ela sempre dizer que iria se suicidar, foi a confirmação do diagnóstico desta doença- ainda no início- e o fato dela saber que não poderia mais levar a vida independente que levava e que passaria a ser um pesado fardo para sua pequena família- sou sua filha única- que a levaram a este ato tão violento. Sem este diagnóstico, talvez ela passasse mais trinta anos dizendo que ia se matar e não se matando, de fato.
Gostaria que ela tivesse conversado mais e confiado mais em mim. Eu a trataria. E, sem dúvida, obedeceria a seus desejos. Quando a doença estivesse mais avançada, se ela ainda assim o desejasse, eu a levaria ao Uruguai onde a eutanásia é permitida. Não sei como a internaria por lá, mas com certeza, daria meus jeitos.

Como não pude fazer isso, escrevo este texto em homenagem a esta mulher corajosa, determinada e bela que ela sempre foi torcendo para que de alguma maneira isto colabore para mudanças fundamentais na nossa sociedade e em nossas leis.

Alzheimer é uma doença democrática. Dá em qualquer um. Pretos ou brancos. Ricos ou pobres. Ateus e religiosos. E os torna, a todos, não apenas incapazes como dependentes de terceiros. O custo é altíssimo, em todos os termos que se possa pensar: existencial, emocional e econômico. Famílias se desmantelam, vidas desmoronam e quando o paciente de Alzheimer finalmente falece, é um alívio para todos- verdade seja dita. A morte dela foi muito triste, mas também foi um alívio para todos.

Não falar sobre isso de nada adianta. Preconceito também nada adianta. Sejamos claros, firmes e sinceros. É preciso falar sobre coisas que não gostamos de falar, porque a quantidade de idosos suicidas é tamanha que é fundamental que se criem políticas públicas condizentes com a gravidade deste problema.

O assunto suicídio é tabu e quem auxilia a um suicida tem como pena de dois a seis anos de reclusão.

Procurei na internet informações sobre o assunto: há relativamente poucas, comparadas a enxurrada de dados sobre outros temas. A síntese do que encontrei, em termos de estatísticas, entretanto é a mesma: a maior taxa de suicídios cometidos no Brasil são de idosos. Os velhinhos se suicidam como moscas. Suicídios de idosos barram longe qualquer outro tipo de suicida.

A pergunta que faço a seguir é: destes idosos que cometem o suicídio, quantos são os que receberam um diagnóstico de doenças sem cura, irreversíveis até o momento, como o Alzheimer ou outras semelhantes? E mesmo no público restante, pessoas de outras faixas etárias que cometem o suicídio: quantos destes na verdade não foram pessoas que receberam um diagnóstico de alguma doença muito grave e sem possibilidades de melhoras?

Feitas estas questões, outra se impõe: quem, exceto pessoas com fortes crenças religiosas, já não imaginaram que diante de certas dores, infligidas por alguma doença ou sequelas de sinistros a vida não mais valeria a pena e a morte seria a única coisa bem vinda?

Citando o Alzheimer como exemplo, uma pessoa com esta doença não pode ser deixada só, mas tampouco deve ser internada num asilo- o que deixa familiares e responsáveis pelo doente numa sinuca de bico.

Nossas casas em geral não são construídas de modo a lidar com pacientes que eventualmente terão delírios e alucinações, não contamos com equipes de segurança que impeçam nossos idosos de fugirem, nossas casas não têm grades nas janelas para evitarem que os doentes saltem por elas, enfim, nas grandes cidades tudo concorre para tornar a vida de um doente deste tipo de mal algo extremamente difícil.

Por outro lado, o custo hoje de uma enfermeira profissional particular varia, mas o mínimo é de dois mil e trezentos reais- para uma que fique por doze horas diárias em cinco dias da semana. Para o acompanhamento permanente feito por uma profissional qualificada, é necessária uma equipe com no mínimo três. Só com a enfermagem o custo da doença chega fácil a seis mil e novecentos reais. Somados os remédios e a alimentação, não apenas do paciente, mas da própria enfermeira, teremos algo em torno de oito mil reais. Sem luxo algum, na maior simplicidade. Como neste orçamento não contei os gastos em obras necessárias para tornar uma casa comum num lugar que ofereça toda a segurança para um paciente com este tipo de diagnóstico, podemos imaginar que o custo total mensal desta doença não vá resultar em menos do que dez mil mensais.

Quem pode arcar com uma despesa destas? Como é que os pobres fazem quando seus familiares têm estes diagnósticos?

Ainda falando de como esta doença é cara, é característica deste tipo de paciente a instabilidade do quadro e que eles não se apercebam da gravidade de seu estado e resistam à colocação de enfermeiros para assisti-los. Então também é fato corriqueiro que a família seja obrigada a demitir profissionais por conta desta resistência, consequentemente também são comuns os processos judiciais de enfermeiros contra seus patrões particulares- o que faz com que surjam as agências e cooperativas que por um custo x se encarregam destes encargos sociais e oferecem seu quadro de funcionários. Estas agências lucram com este estado de coisas e cobram caro por seus serviços, naturalmente. Então, consequentemente, o custo do doente sobe e a insalubridade da situação atinge os píncaros do absurdo.

Hoje no Brasil, uma família brasileira gasta mais com uma doença irreversível e sem possibilidades de melhoras do que numa faculdade de um filho, porque uma faculdade pode ser deixada de lado ao passo que o familiar doente não. Famílias se arruínam se desentendem e se desfazem e o quadro permanece inalterado. Um diagnóstico de Alzheimer ou Parkinson é uma condenação não à morte, mas a vida dos mortos vivos, da ruína, da desgraça sem solução.

O correto seriam equipes multidisciplinares, com psicólogos, psiquiatras, cuidadoras e enfermeiras que dessem assistência às famílias dos doentes oferecidos pelo próprio Estado, mas isto não existe aqui. Com equipes multidisciplinares, o paciente poderia ser mantido em casa com segurança para si e para os seus. Não se correria o risco de esquecer-se de se colocar uma grade num apartamento que está no décimo quinto andar, porque estes detalhes seriam imediatamente vistos e resolvidos por estas equipes, que contariam com pedreiros e profissionais especializados em cada questão. E, de preferência, estes seriam serviços oferecidos gratuitamente, toda família teria direito a isto. Poderíamos cuidar de nossos velhos sem que para isto tivéssemos de esquecer nossos jovens.

Mas esta não é nossa realidade. Este é o sonho de muitos que lidam com esta doença infernal.

No atual estado de coisas, uma pessoa que se suicide por ter uma doença grave e irreversível torna-se automaticamente um fenômeno da ordem pública.
Seu cadáver será manipulado dentro das mesmas condições dos corpos de criminosos, mendigos, vítimas de acidentes e afins. O caso de suicídio é um caso de polícia, ficando a família da vítima sujeita aos mesmos tratos- e às mesmas suspeitas- que as famílias de criminosos.

No Instituto Médico Legal, um corpo que chegue às seis da manhã só é liberado no mínimo seis horas depois. No Rio, em determinados dias, há apenas um médico legista para tomar conta de todos os corpos que dão entrada no local. Os trâmites burocráticos são inúmeros e a justificativa de tal fato é que há muitos fraudadores que podem se beneficiar de alguma negligência cometida pelos especialistas encarregados do processo de exame e liberação dos corpos. Consequentemente, a família já naturalmente enlutada e abalada pela violência de um suicídio é obrigada a tomar parte de um dos mais sinistros espetáculos que se pode ver: a permanência no IML.

A eutanásia, a boa morte, é permitida em poucos lugares no mundo. Se a eutanásia fosse legalizada no Brasil, quantas destas pessoas poderiam ter sido mais bem acompanhadas e assistidas no seu momento final? Se houvesse um meio legal de se assinar um documento e depois ter sua morte previamente agendada e assistida por médicos e familiares, quantos destes suicidas não poderiam ter sido poupados deste ato tão desesperado e solitário?
Uma coisa é certa: o quadro que temos hoje é caótico, cruel e ineficiente. A saúde pública não dá conta, a saúde privada também não.

E como seria diferente? Não podemos nos esquecer de que o nosso país, até poucas décadas atrás, tinha um altíssimo índice de analfabetismo e, portanto, até bem pouco tempo atrás nosso estado não dava conta nem dos que estavam com saúde, que dirá de seus doentes.
Mas estamos em momentos de mudança. Nossas leis estão sendo revistas, a condição de vida de todos está melhorando, nosso país está se tornando cada vez mais próspero e mais estável. Não seria hora de pararmos com a hipocrisia e lidarmos com sinceridade na questão da eutanásia ser finalmente legalizada no Brasil?

Claro que gostaria que a cura do Alzheimer fosse encontrada. Mas por ora não foi. Então, por enquanto, o melhor para todos nós seria que a eutanásia fosse permitida. Ou sabe-se Deus quantos velhinhos mais veremos se suicidando por aí.