quarta-feira, 19 de maio de 2010

Burguesinha dos teus sonhos


Difícil ser burguesa quando já se andou pelado na praia de Ipanema
mas vá
que seja
afinal já lá se vão vinte e oito anos

Então sou a sua burguesinha
mesmo que me falte um salão
para fazer balayage rinsage bestage
mesmo que me falte uma academia
pra fazer body combact body jumping body que bode

Você não entende patavinas
nem eu
vamos acontecendo entre poeira e caminho
entre vertigem e vontade
entre um agora e um depois

Sou tua sombra que te segue
mas você pensa ser a sombra que me segue
quem de nós mais sombra
quem de nós mais luz
isso a Deus pertence

segunda-feira, 19 de abril de 2010

A Rosa Roxa do Fotógrafo


Era uma rosa impossível.
Mas se era uma rosa
e se estava sendo uma rosa
como ser impossível?

Era uma rosa roxa
tão roxa que passara do ponto
a rosa que nela morava
hoje para trás estava

Era roxa
a rosa do futuro
o futuro que ao homem pertencia
porque Deus fizera rosas rosas rosas vermelhas e rosas brancas

Era algo impossível
mesmo quando em plena existência
era uma foto
ou um lindo poema

domingo, 28 de março de 2010

Imagens









Tudo começa aqui
e termina no carnaval do ano que vem
todo dia é dia da carne
todo dia é dia de estar vivo

domingo, 7 de março de 2010

Caravelas


Elas chegavam solene e lentamente. Portais no mar, as caravelas, caras de velhas caravanas marítimas abriam um novo horizonte em sua trilha. Onde chegassem, trariam o sonho ou o pesadelo. Imagine um elefante. Imagine um milhão de elefantes. Eis que assim surgiam novas soluções e novos problemas, frutos justamente das soluções.

Toda solução de um antigo problema está grávida de um novo problema.

Num livro que li, a história de um homem que procurava um seixo que transformaria metal em ouro. Cada seixo que ele encontrava, batia na fivela do cinto de metal que usava para ver se este havia se transformado. Ele saiu nesta busca por toda Índia e África quando ainda tinha vinte anos. Subiu todos os rios, correu todos os riscos e deu lá seus tantos risos diante das histórias que ouvia de outros viajantes como ele, em busca de sei lá quantos sonhos. Jogava fora todos os seixos que não eram O Seixo Transformador de Metal Em Ouro Puro.

Um dia, seus cabelos brancos lhe chegando pela cintura, já cansado, sentou-se para descansar sob uma frondosa árvore- a primeira que encontrara após muitos quilômetros. Reparou que apesar de toda fadiga a que submetia diariamente seu corpo, sua barriga crescera um pouco. Talvez mais por cansaço do que por desilusão, decidiu retirar o velho cinto, que ouro puro, reluziu sob a luz do sol. Quando foi que acontecera isto? Que seixo teria sido aquele? Decidiu então refazer todo o caminho.

Assim talvez este mesmo homem estivesse agora numa destas caravelas. Mas de nada isso importa agora neste silencioso caminho feito de marés, ondas e correntes que levariam os homens para onde quer que elas, forças ancestrais decidissem. Elas, as caravelas, junto ao mar que as acolhia, eram soberanas e nunca se deve olhar um rei diretamente nos olhos. É preciso a humildade de se reconhecer meramente um súdito. Súdito de destinos que a nós nunca cabe decidir.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Buracos


Meu olho vê teu olho no meu. No teu olho que me vê, um mundo inteiro de possibilidades. Somos duas almas gêmeas, somos dois estranhos, somos duas ilhas que se aproximam lentamente desenhando um velho continente esquecido.

Um dia fomos ninhos, noutro fomos árvores, noutro fomos casas, noutro fomos sonhos. Eis que nossa memória é os passos que demos para chegar até ao ponto exato.

O ponto exato que nos encontramos, enfim.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Amar O Mais Perigoso dos Esportes Nacionais


Sonhei que era audaciosa
Subia no coqueiro sem alça
Surfava em tsunami sem prancha
E andava de moto sem capacete.

Acordei.

Não era sonho:

Estava amando.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Visita ao Poeta


Um homem só
É alguém afortunado
Custa caro não ter vizinhos próximos
Um na vida do outro
Ninguém na própria pele
É raridade o salto e o grito
Perturba demais o asilo estrito
Da mente sem sonho
Da beleza sem alma
Do corpo sem movimento
Tédio intenso das horas cheias
De um nada que se amontoa

Quem são os medíocres
Quem são os acima da média
Quando ao fim a comédia é a mesma
Vestem-se todos dos trapos que compram
Por astronômicos preços
O lixo e o luxo sempre andaram de mãos dadas
No fundo dos oceanos irmanam-se os bagulhos
Que na superfície pareciam mergulhos
A um universo pleno de cor

Qual cor qual nada
É preciso nadar a distância dos continentes
Para descobrir que ao fim tudo é um só conteúdo
O tudo e o nada valem menos que a tapioca
Na doce boca da menina flor
Que de flor mesmo só tem botões
Todos com a palavra delete
Imensidões de trânsito intenso
E nenhuma comunicação